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quarta-feira, 12 de abril de 2017

Imagens Históricas 22: Rua Libero Badaró






"Morre um liberal, mas não morre a liberdade!" Costuma-se afirmar que o médico e jornalista Libero Badaró teria dito essa frase momentos antes de morrer, vítima de um tiro disparado à queima-roupa na antiga rua de São José, que se tornou depois rua Libero Badaró, no centro da cidade de São Paulo. Nessa mesma rua (acima, a rua durante o dia e à noite, em fotos tiradas por autor desconhecido em 1931) o jornalista, de origem italiana, fixou residência após vir morar no país. O crime é considerado como o primeiro atentado contra a liberdade de imprensa na história do Brasil. Para variar, os seus autores não foram punidos! Algo normal em se tratando da sociedade brasileira tradicional, ainda mais quando o principal acusado pelo crime era o desembargador-ouvidor Candido Ladislau Japi-Assú. O tempo de 24 horas transcorridos da emboscada armada contra o jornalista até a sua morte foram suficientes para que Libero Badaró denunciasse o autor do disparo, o imigrante alemão Henrique Stock e o mandante do crime, o citado desembargador. 



O crime teve repercussões políticas que respingaram na figura do então governante do Brasil, o imperador D. Pedro I (na imagem acima, em uma gravura de 1830 por Henri Grevedon), uma vez que Badaró havia feito apologias em seu jornal a respeito da queda do rei francês Carlos X, exaltando os paulistanos a comemorarem o evento. Como se sabe, o rei francês tentou restaurar o velho absolutismo, o que provocou uma violenta reação da população parisiense na Revolução Liberal de 1830, levando à deposição do mesmo. Inevitável a associação que os liberais aqui no Brasil faziam do rei francês com o nosso então imperador. O próprio cortejo fúnebre de Libero Badaró já era uma demonstração da repercussão política do fato, tomando ao todo a distância de 1,2 quilômetros que separava a residência do jornalista e a Capela da Ordem Terceira do Carmo, no antigo centro da cidade de São Paulo, que tinha algo em torno de 10 mil habitantes. 
Giovanni Battista Libero Badaró nasceu em 1798, em uma vila próxima à cidade de Gênova no que atualmente constitui a Itália (na época o país ainda não era unificado). O pai também era médico e tinha uma imensa biblioteca. Badaró estudou em Gênova e Bolonha, formando-se em medicina no ano de 1825 pela Universidade de Turim. Logo em seguida viajou e em 1826 desembarcou no Brasil. Embora fosse jovem, aparentava ser mais velho com as suas longas suíças (costeletas) e óculos arredondado. O médico foi atraído a este país, que há pouco se tornara independente de Portugal sendo governado por um imperador tido como liberal, mas que governava com uma Constituição imposta por ele mesmo. 
No Rio de Janeiro, Libero Badaró fez amizade com outro jornalista, o liberal Evaristo da Veiga, que fazia oposição ao avanço das forças conservadoras que começaram a se aglutinar em torno de D. Pedro I, como por exemplo, o chamado "partido português", que como o nome indicava, era representado pela colônia lusitana, que ainda era influente politicamente. À medida em que se isolava dos políticos brasileiros, D. Pedro assumia uma postura cava vez mais autoritária, na visão da oposição.



Em 1828, Libero Badaró chegou a São Paulo, onde a onda conservadora se tornava cada vez mais forte e truculenta (no documento acima, na parte inferior direita, a assinatura de Badaró). O governador era o bispo Dom Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade, que ocupava o cargo de forma interina. O comandante de armas era o Coronel Carlos Maria de Oliva e o chede do judiciário era o desembargador e ouvidor Candido Ladislau Japi-Assú, que logo tornou-se inimigo de Badaró. Por outro lado, a cidade, ainda provinciana, começava a reunir um núcleo de tendências mais liberais formados pela pequena burguesia, por estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e pelos integrantes da Câmara Municipal. 
Em 23 de outubro de 1829, Badaró lançou o pequeno jornal "Observador Constitucional", um bissemanário de quatro páginas e que era impresso nas oficinas de outro jornal, "O Farol Paulistano", de José da Costa Carvalho, futuro regente do Império. O tabloide de Libero Badaró tornou-se uma espécie de canal de comunicação da oposição ao grupo conservador, que estava abrigado no poder. Em função disso, o jornalista italiano era mal visto junto a esse grupo, tanto que os seus amigos mais próximos recomendavam que ele não andasse sozinho pelas ruas da cidade, sobretudo durante a noite. 



No dia 20 de novembro de 1830, exatamente à noite, Libero Badaró voltava para a sua casa na rua São José, número 17, sozinho... (na plano urbano acima, do século XIX, o número 17 aponta o local onde morava Badaró). Aproximadamente entre as 10 e meia e 11 horas da noite, o jornalista notou dois homens sentados perto de sua casa. Os homens se levantaram, se aproximaram de Badaró e perguntaram:
- O senhor é o doutor João Baptista Badaró? O jornalista respondeu:
- Sim! 
Em seguida os dois indivíduos disseram:
- Estamos aqui da parte do ouvidor... 
Logo na sequência, antes que Badaró começasse a retrucar, o mesmo sentiu em sua barriga o impacto de um tiro. Os ferimentos internos foram gravíssimos e o jornalista passou 24 horas em terrível agonia, mas que foi o tempo suficiente para que um juiz o interrogasse. Badaró relatou que o indivíduo que atirou tinha sotaque alemão e de que o mandante teria sido o desembargador-ouvidor Candido Ladislau Japi-Assú. Uma testemunha, nada mais nada menos do que o escrivão da ouvidoria, relatou que ouviu o próprio desembargador jurar matar o jornalista. Na verdade, como se soube depois, o crime foi cuidadosamente planejado, sendo contratados o tenente Carlos José da Costa e o alemão Henrique Stock, vindos do Rio de Janeiro, especialmente para serem os executores do jornalista. 



Na manhã do dia 21 de novembro de 1830, Libero Badaró faleceu (na imagem acima, o jornalista em seu leito de morte, em uma gravura de Hercole Florence). A morte do jornalista teve repercussão rápida na pequena São Paulo de 1830 e logo os autores do crime foram detidos. O ouvidor-desembargador Japi-Assú teve que se refugiar na casa do comandante militar até ter a sua saída negociada com as lideranças da província de São Paulo, entre elas o futuro regente e padre Diogo Antônio Feijó. A pretexto de que a sua integridade física estava ameaçada e de que teria foro privilegiado, Japi-Assú foi levado para a Corte do Rio de Janeiro, onde permaneceu sob escolta até o julgamento. 
Aquele que foi acusado de ser o autor material do crime, o alemão Henrique Stock foi julgado em São Paulo e condenado. Contudo, diante da absolvição de Candido Ladislau Japi-Assú pelos seus pares no Rio de Janeiro, o alemão obteve uma apelação e também foi absolvido em 1831. Ou seja, o crime ficou impune. 


Como afirmamos anteriormente, Libero Badaró é tido como o primeiro jornalista assassinado em nosso país em virtude de seu ofício. Em 1889 a urna com os seus restos mortais foi transferida da Capela do Carmo para o Cemitério da Consolação, também na capital paulista, onde se encontra atualmente, podendo ser visitada por qualquer cidadão (foto acima).
Bem, após a morte de Libero Badaró a posição política do imperador Dom Pedro I começou a se deteriorar. O monarca perdeu a sustentação interna entre os líderes políticos brasileiros. A rivalidade entre portugueses (pró D. Pedro) e nacionais (contra) chegou a ganhar as ruas, em episódios como "A Noite das Garrafadas" em 1831. Diante da iminência de uma rebelião das tropas, D. Pedro I abdicou (renunciou) ao trono do Brasil em 7 de abril de 1831. Para muitos o verdadeiro dia da nossa independência, uma vez que deixava o país o ultimo governante português. D. Pedro retornou a Portugal para uma luta contra o seu próprio irmão, D. Miguel, pelo trono português. E o curioso, comandando as forças liberais! O ex-imperador do Brasil levou a melhor e se tornou D. Pedro IV, rei de Portugal. D. Pedro teria dito na época: "é melhor ser quarto em Portugal do que primeiro no Brasil". Tal afirmação nunca foi confirmada, mas é preciso destacar que os liberais lançaram muitas criticas a D. Pedro, as quais nunca tiveram confirmação de fato, como a ideia de promover uma nova união com Portugal sob a sua liderança. Deve-se lembrar também que o primeiro governante do Brasil foi um inimigo da escravidão e defendia a sua extinção, algo que, na época, ia contra os interesses dos grandes proprietários. A figura de D. Pedro talvez mereça uma revisão histórica. 
Quase um século depois, em 7 de abril de 1908 foi fundada a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a data passou a ser comemorada como o "Dia do Jornalista". Libero Badaró deve ser lembrado não apenas como um cidadão que fazia oposição a um governo autoritário, mas também como um homem que o fez dentro de suas convicções e sem subterfúgios. Pagou com a própria vida por sua integridade.
Esta pequena postagem utilizou muitas informações de um texto escrito por Carlos Alves Muller da Associação Nacional dos Jornais e doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB), que foi publicado no jornal Gazeta do Povo em 19.11.2010. O link para o artigo é:
http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/ha-180-anos-libero-badaro-era-assassinado-10dsqhyy4db5fgoik4wwj94r2
Crédito das imagens: 
Fotos da rua Libero Badaró de 1931:São Paulo: de vila a metrópole. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2012, pags. 44 e 45. 
Fotos da assinatura de Libero Badaró e do mapa assinalando o antigo local de sua residência: livro Libero Badaró de Augusto Goeta. Disponível em: 
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/badaro.html
Túmulo de Libero Badaró no cemitério da Consolação:
http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/ha-180-anos-libero-badaro-era-assassinado-10dsqhyy4db5fgoik4wwj94r2
Imagens de D. Pedro I e Libero Badaró: D. Pedro I de Isabel Lustosa. Série perfis brasileiros. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 


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