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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

19ª Festa do Livro da USP



Caro leitor, a já tradicionalíssima Festa do Livro da Universidade de São Paulo (USP) está chegando! Como acontece todos os anos, as grandes editoras realizam promoções com, pelo menos, 50% de desconto em seus títulos. Portanto, você estudante, pesquisador, professor e profissional das mais variadas áreas, reserve uma parte de sua mesada, bolsa ou 13º salário (os que ainda têm esse privilégio) para adquirir o livro que tanto necessita ou procura. 
Se ocorrer como nos anos anteriores, e acredito que sim, grandes editoras como Cia. das Letras, Paz e Terra, Civilização Brasileira, Perspectiva, Contexto e, claro, as das grandes universidades, como a Edusp (promotora do evento), entre outras, deverão se fazer presentes. 
Trata-se de uma ótima oportunidade de adquirir livros novos por preços módicos (inclusive em relação aos sebos). Você que mora em outras localidades, programe-se e aproveite a chance...
Para ver (e comprar...):
Avenida Professor Mello Moraes, Travessa C.
Cidade Universitária - São Paulo (SP).
Dias 28, 29, 30/11 e 01/12 das 9 às 21 horas. 

sábado, 11 de novembro de 2017

Dica de Filme: Tudo que o Céu Permite (1955)




Lá vem ele de novo com filme velho! Velho? Depende! Em termos de produção, sim. De conteúdo, creio que não. Se perguntarmos para muitas mulheres de hoje, talvez as mesmas considerem a trama bastante atual. Afinal, algumas delas estão vivendo uma situação muito semelhante à contada no filme. Nos referimos à película "Tudo que o Céu Permite" (All That Heaven Allows, EUA, 1955), com o cartaz original na imagem acima. Uma mulher madura que tem um relacionamento com um homem mais jovem, atraente, mas que não faz parte de seu círculo social de amizades e, nem mesmo, do seu patamar sócio-econômico. A história se passa em uma próspera comunidade do interior dos Estados Unidos, de meados da década de 1950, a época de ouro do pós-guerra na sociedade americana, com o consumismo típico da classe média ascendente, com seus carrões, residências com belos jardins e a grande novidade: a televisão! Sim, o autêntico American Way of Life, o estilo de vida copiado depois por aqui, nos grandes condomínios horizontais, sobretudo nas cidades médias do interior, mais fechadas e por isso, menos cosmopolitas. 


Uma respeitável dona de casa viúva, a personagem Cary Scott, interpretada pela atriz Jane Wyman (na época, ex-senhora Ronald Reagan ) contrata o jardineiro Ron Kirby, vivido pelo ator Rock Hudson (um dos grandes galãs de Hollywood na década de 1950), para cuidar do jardim de sua residência. Eis que, entre um cafezinho e outro, uma conversa a mais, a identificação entre os dois aparece e o amor acontece. Claro, a história não para por aí! Cary tem dois filhos, que já cursam a universidade: Kay (vivida pela atriz Gloria Talbot) e Ned (interpretado por William Reynolds). Kay, estudante de psicologia, aparenta ser uma jovem avançada no que diz respeito a comportamentos e convenções sociais, quase antecipando o que veríamos nos movimentos de emancipação da década seguinte. Bem, o que a sequência do filme nos mostrará, é que eles não eram assim, tão avançados! Os filhos se mostram chocados ao saberem do relacionamento da mãe com um homem quinze anos mais novo. 


Por outro lado, algo ainda pior, a sociedade e o grupo de amizades nas quais Cary vive. Sua melhor amiga, Sara (vivida por Agnes Moorehead, a Endora do clássico seriado "A Feiticeira") até que tenta inserir o casal nos círculos sociais locais, mas sem muito sucesso (na imagem acima, as duas amigas). O fato curioso, é que Cary é constantemente assediada por homens mais velhos do que ela, inclusive por Harvey (vivido por Conrad Nagel), um distinto integrante da comunidade e que propõe casamento a Cary, quase que a queima-roupa! Ou então, aqueles que a consideram uma mulher vulgar, pelos simples fato de estar envolvida com um homem mais jovem. Bem, o resto fica por conta dos interessados em assistir à essa película, tida como um verdadeiro cult-movie por cineastas de peso, entre eles o aclamado diretor alemão R. W. Fassbinder e o francês Jean-Luc Godard. 


Vale destacar uma das sequências mais representativas do filme, quando os filhos de Cary, nas vésperas do Natal, presenteiam a mãe com um moderno aparelho de televisão. Uma tentativa de fazer com que ela se distraia mais em casa e esqueça o seu relacionamento com Ron. A cena em que Cary tem a sua própria imagem refletida na tela do aparelho desligado é reveladora, como que indicando que a situação por ela vivida caberia muito bem em um drama ou filme (imagem acima). E sobretudo, a solidão em que ficará entregue, caso decida abdicar de seus verdadeiros sentimentos. Um momento ímpar na história do cinema.


Douglas Sirk, é um dos grandes diretores do cinema norte-americano, embora tenha nascido na Alemanha e de uma família de origem dinamarquesa (na foto acima, Sirk com o elenco principal do filme). Fez carreira na sua terra natal como diretor de teatro, mas em 1934 teve que sair do país, em função da ascensão de Hitler ao poder (sua esposa era judia), quando dava os primeiros passos na direção de filmes. A carreira como diretor em Hollywood teve o seu grande momento na década de 1950, em produções como "Sublime Obsessão" (1954), "Palavras ao Vento" (1956), "Almas Maculadas" (1957) e "Imitação da Vida" (1959), além desta que estamos apresentando. A sua originalidade consiste em ir além do simples melodrama, e a partir do mesmo, traçar uma verdadeira radiografia social de seu tempo, de estabelecer críticas sutis a valores e preconceitos escondidos por detrás da fachada de prosperidade material e felicidade, vividos nos chamados "anos dourados" da sociedade norte-americana. 


Para os professores das áreas de humanidades, o filme (na foto acima, material promocional da película) pode funcionar como um "sensibilizador" (que desperte sentimentos e opiniões) a fim de proporcionar debates nas aulas de sociologia, história, filosofia, psicologia e, até mesmo, urbanismo. Debates necessários, principalmente no mundo atual que estamos vivendo, o qual aparenta ser avançado em termos de valores e ideias, mas que na prática, não é exatamente assim... 

Para assistir: 
"Tudo que o Céu Permite" (1955). Direção: Douglas Sirk. Com Rock Hudson, Jane Wyman, Agnes Moorehead, Conrad Nagel e Virginia Grey. DVD Versátil Home Vídeo. Legendas em português. Duração aproximada de 89 minutos.  
Crédito das imagens
Cartaz original e foto do elenco com o diretor: https://theredlist.com/wiki-2-17-513-864-870-view-comedy-romance-3-profile-1955-ball-that-heaven-allows-b-1.html
Material promocional da película: acervo do autor.
Demais imagens: fotogramas do DVD. 



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Imagens Históricas 26: Shopping Center Iguatemi



Estamos no já distante ano de 1966! A cidade de São Paulo crescia e recebia populações de todas as partes do Brasil, sobretudo de migrantes nordestinos, os quais chegavam à metrópole atraídos pelas ofertas de emprego, principalmente nos setores industrial e da construção civil, que naquele momento cresciam. A cidade vivia os efeitos da política econômica desenvolvimentista da década anterior, que atraiu para a região, entre outras, a indústria automobilística. Na própria foto acima, dois veículos fabricados aqui e também os mais "populares" naquele momento. Claro, estamos nos referindo ao Volkswagen 1300, o nosso conhecido Fusquinha. 
Pois bem, nessa época São Paulo passou a ter também uma outra novidade: o shopping center. A Imagem Histórica de hoje é de 1966, quando da inauguração do Shopping Center Iguatemi, que foi entregue no mês de novembro, daquele mesmo ano. A obra foi construída em um terreno que pertencia à família Matarazzo, na antiga rua Iguatemi, que veio a dar nome ao shopping (mais tarde, Avenida Brigadeiro Faria Lima), próximo do rio Pinheiros, portanto na zona sul de São Paulo. O Shopping Iguatemi foi o primeiro da cidade de São Paulo e do Brasil (embora neste caso, pareça existir uma controvérsia em relação ao Shopping Méier, na cidade do Rio de Janeiro). 


A iniciativa de erguer um centro comercial nesse estilo coube ao empresário Alfredo Mathias. Segundo nos relata o site São Paulo In Foco, o empresário promovia churrascos no próprio canteiro de obras para vender as cotas de participação no empreendimento. Naquela época, o negócio não era visto como algo rentável. Um fato curioso para as pessoas que vivem hoje na capital paulista: os shoppings demoraram para emplacar! A Construtora Alfredo Mathias S.A. conseguiu manter o controle do Shopping Iguatemi até 1979 (na foto acima, o shopping em 1967), quando foi adquirida pelo Grupo Jereissati, que com a aquisição iniciou a sua participação no ramo, criando a Iguatemi Empresa de Shoppings Centers. Em 1980, a empresa abriu o Shopping Iguatemi Campinas, na cidade do mesmo nome no interior de São Paulo e em 1983 inaugurou o Shopping Iguatemi Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul. A grande expansão da empresa veio na década de 1990, com a abertura de vários outros shoppings, em diferentes capitais do Brasil, muitos dos quais com o nome Iguatemi, que virou uma marca de referência no segmento. Atualmente, a organização é controlada pela Jereissati Participações S.A., uma holding (empresa cujo capital é formado exclusivamente por ações de outras, as quais são por ela controladas), que inclui várias outras empresas, além de ser acionista da Oi (empresa de telecomunicações), tendo à frente o empresário Carlos Francisco Ribeiro Jereissati (irmão do ex-governador do Ceará e atual senador Tasso Jereissati). 


Até os shoppings centers se expandirem em São Paulo, predominava o comércio de rua, sobretudo na área central da cidade, que hoje é chamada de Centro Velho, um eixo localizado entre a Praça da Sé e a Praça da República, e todo o entorno de ruas e avenidas. 


Na década de 1960, era muito conhecida a rua Direita (na foto acima, também de 1966) e as suas lojas que atraiam um público vindo sobretudo, dos bairros, os quais não tinham ainda um comércio tão diversificado. Por exemplo, era muito comum as lojas de eletrodomésticos estarem concentradas nessa área central, da mesma forma que as conhecidas lojas de departamentos, entre as quais, sem dúvida, as mais conhecidas eram o Mappin, a Mesbla, a Pirani e a Sears. Poucas mantinham filiais fora da zona central, como a Pirani, que tinha uma loja na Avenida Celso Garcia, no bairro do Brás. Os estabelecimentos que vendiam roupas mais sofisticadas também se concentravam na zona central, como as famosas Ducal e Garbo. Sim, a rua Augusta também começava a se tornar um outro eixo de comércio. Aliás, na direção da própria zona sul da cidade, onde, na década de 1970, começou a se estabelecer o comércio mais sofisticado, na conhecida região dos Jardins. Foi a partir desse momento, que o centro de São Paulo começou a conhecer um esvaziamento lento, que alcançou um verdadeiro declínio nos tempos atuais. A violência urbana (o surgimento dos "trombadinhas" na área central), o trânsito (a cidade demorou para ter metrô) e a própria degradação do centro, contribuíram para esse esvaziamento. 



Com tudo isso, o que até então era novidade, se espalhou por toda a cidade, nos bairros e até nas áreas periféricas, a ponto de se dizer que atualmente, o shopping center é uma espécie de "praia do paulistano" (na foto acima, o Iguatemi em 1971). Para o bem e para o mal! Por que? A concentração do comércio nesses centros de compra, embora seguros e com a grande facilidade de estacionamento (outro drama do paulistano) contribuiu muito para a deterioração do Centro Velho e do comércio de rua. Sim, porque a elite e a classe média simplesmente abandonaram essa região, alegando a insegurança e a degradação. Esse esvaziamento, inclusive de moradores, e isso qualquer especialista em urbanismo pode constatar, atraiu os segmentos marginalizados da sociedade, com o surgimento de bolsões de pobreza, prostituição e de consumo de drogas. A atual "cracolândia" é o ápice desse processo. Ou seja, não houve uma adequação (planejamento) que permitisse às antigas áreas centrais se manterem por meio de outras atividades e com uma estrutura adequada para cuidar dessa população excluída em termos sociais. Ah, a velha questão social! Esse não é um problema exclusivo de São Paulo, ocorreu (e ocorre) em outras cidades brasileiras, como o Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Belém, por exemplo. Contudo, em outros países, notamos que houve uma preocupação em manter ou recuperar as áreas centrais, as quais atraem os visitantes pela sua vida noturna, o seu comércio, os restaurantes, os museus, os passeios e jardins. Ninguém vai a Nova Iorque para passear em shoppings, como também em Paris ou em Buenos Aires. Aliás, alguém poderia me indicar um shopping center legal em Nova Iorque? 
A Imagem Histórica de hoje pertence ao acervo do jornal "O Estado de S. Paulo" e foi tirada, como dissemos, em 1966.
Crédito das outras imagens: 
Foto do Iguatemi em 1967: http://antigosverdeamarelo.blogspot.com.br/2013/02/shopping-iguatemi-jaguar-xk120-coupe.html
Foto do Iguatemi na década de 1960: Pinterest
Foto da rua Direita em 1966: José Roberto Nery Costa via Facebook.      
Foto do Iguatemi em 1971: http://www.saopauloinfoco.com.br/shopping-iguatemi/#jp-carousel-5221

terça-feira, 7 de novembro de 2017

História Mundi na TV Aparecida: Para Ver ou Rever




Aos leitores que não puderam acompanhar a nossa entrevista no programa Santa Receita da TV Aparecida ou para aqueles que desejarem rever a mesma, eis aqui a oportunidade! A gravação já está disponível no site da emissora. Para lembrar, no programa abordamos a questão envolvendo a Amazônia e a Renca (sigla de Reserva Nacional do Cobre e Associados). A medida tomada pelo presidente Michel Temer de extinguir a reserva e abrir a mesma para a exploração mineral privada, gerou protestos no Brasil e no mundo, fazendo com que o governo brasileiro recuasse na decisão, pelo menos por enquanto. 


Na entrevista, abordamos os problemas referentes ao desmatamento na região, as políticas públicas equivocadas de intervenção na floresta e os impactos que a atividade da mineração podem trazer ao meio ambiente, lembrando também de exemplos passados, como Serra Pelada, a exploração de manganês na Serra do Navio (no Amapá), da extração de ferro em Carajás e de bauxita no rio Trombetas (no Pará). 


A apresentação é de Claudete Troiano e além disso, o programa também se destaca na discussão de temas importantes do cotidiano, como saúde, os assuntos ligados à mulher e, claro, as deliciosas receitas. Não deixe de ver ou rever...
O link para acessar diretamente a entrevista é:
http://www.a12.com/tv/programas/santa-receita/entenda-a-importancia-da-preservacao-da-amazonia-27-de-outubro-de-2017

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Stalin e a Formação da União Soviética parte 2



Caro leitor, como vimos na primeira parte desta postagem, o desaparecimento prematuro de Lênin, líder da União Soviética, em janeiro de 1924, intensificou a disputa de posições entre Josef Stalin e Leon Trotsky. Ora, sabemos perfeitamente que o primeiro acabou se impondo nesse embate. Contudo, como já destacamos, a figura de Stalin não estava alheia à realidade do processo que culminou com a Revolução de Outubro de 1917 (na imagem acima, Stalin durante um discurso em 1937). Nessa época, Josef Stalin já era um veterano da militância política, dentro das lutas contra a autocracia czarista (imperial), que vigorava na Rússia antes de 1917. Da mesma forma, não é correto afirmar que fosse uma pessoa distante do líder do Partido Bolchevique (depois Partido Comunista) Lênin, pelo que se percebe no material documental disponível, inclusive por meio das cartas, fotos e dos testemunhos de pessoas que presenciaram o convívio, embora não permanente, entre os dois.



Nascido em 1879 na cidade de Gori, província da Georgia, uma das regiões mais férteis do antigo Império Russo, Stalin veio de uma família camponesa pobre (na foto acima, a casa onde passou a infância). O pai foi sapateiro, a mãe era uma dona de casa analfabeta e profundamente religiosa, nos moldes da Igreja Ortodoxa Russa. O nome verdadeiro do futuro líder soviético era Iosef Vissarionovitch Dzhugashvili, mas a mãe o chamava de "Soso" (algo como "Zézinho"). O pseudônimo Stalin ("homem de aço") só foi adotado em 1913, quando ele já havia se tornado um revolucionário. Stalin teve dois irmãos que morreram antes do primeiro ano de vida, sendo que Soso quase teve o mesmo destino, pois aos cinco anos contraiu varíola, que deixou marcas em seu rosto pelo resto da vida (atenuadas pelos retoques nas fotos oficiais). O pai era alcoólatra e violento. Por isso, o difícil convívio com a esposa acabou em separação.



Muitos biógrafos afirmam que Stalin não teve o mesmo brilho intelectual atribuído aos outros líderes soviéticos, como Lênin, Trotsky ou Bukharin. Isto não significa falta de preparo. Stalin teve uma sólida formação escolar, uma vez que sua mãe o encaminhou para uma carreira clerical no Seminário Teológico Ortodoxo de Tíflis, onde o jovem entrou com 14 anos (na foto acima, Stalin como seminarista, em 1895). O desejo por uma radical transformação da sociedade russa era tão forte que, mesmo entre os seminaristas, as ideias socialistas encontravam seguidores, sendo um deles o próprio Stalin. No ano de 1899, o jovem foi expulso do seminário por se associar aos grupos que debatiam a literatura marxista. A partir daí, tornou-se um militante revolucionário em tempo integral, adotando o nome de "Koba" (o indomável), uma lembrança de um antigo fora da lei que defendia o povo escravizado. Portanto, Stalin foi um bolchevique de primeira hora! Por essa razão, sofreu forte perseguição da polícia czarista. 
Como nos informa a sovietóloga Lilly Marcou, entre 1902 e 1913, Stalin foi preso oito vezes; exilado sete e conseguiu fugir em seis oportunidades. A violência dessas detenções e o isolamento do exílio (geralmente na Sibéria) tendiam a embrutecer os prisioneiros políticos, mas ao mesmo tempo, proporcionavam o tempo necessário para reforçar a devoção revolucionária através das leituras. Os presos eram confinados em cabanas, distantes até centenas de quilômetros de uma vila ou cidade, no terrível inverno siberiano, em uma solidão quase absoluta. Diante de tal situação, o indivíduo necessitava ter uma boa constituição física e psíquica, contando também com uma gigantesca vontade em prosseguir na ação revolucionária. Em 1904, Stalin empreendeu uma de suas várias fugas, andando a pé pelas estepes siberianas, depois em uma carroça até os Montes Urais, passando frio, fome e ficando a beira da tuberculose. Finalmente, conseguiu chegar à sua região natal.



Stalin identificava-se com as ideias do líder bolchevique Lênin, a quem conheceu pessoalmente em 1905 na Finlândia (onde Lênin estava exilado). Nessa mesma época, casou-se pela primeira vez com Ekaterina Svanidze, a qual morreu de tifo em 1907. Da união veio um filho: Iakov (na foto acima, Stalin, do lado direito, com a esposa falecida, depois de ter recebido autorização para sair da prisão e ir ao velório). 



Após perder a primeira esposa, Stalin foi preso na cidade de Baku (às margens do mar Cáspio), por ter promovido uma greve geral de trabalhadores. Na prisão sofreu maus tratos e agressões físicas (na imagem acima, a ficha policial de Stalin em 1910). Levado novamente para a Sibéria, confinado numa aldeia, contraiu tifo (a mesma doença que matara sua mulher) e esteve à beira da morte, mas conseguiu se recuperar. Stalin teve que caçar, pescar e cortar lenha para sobreviver. Sua família não podia lhe enviar ajuda. Na verdade, ele nem a pedia.
Ao contrário de Lênin, Trotsky, Plekhanov, Zinoviev entre outros, Stalin não se tornou um revolucionário emigrado na Europa e conhecia bem o cotidiano dos pobres. Na verdade, era um deles! Daí a importância que passou a ter nos quadros do Partido Bolchevique. Em 1913, Koba mudou o seu pseudônimo para Stalin, adotando a tese de Lênin, de colocar a união do Império Russo acima dos nacionalismos, apesar de ser georgiano. Nesse mesmo ano, Lênin o estimulou a produzir um trabalho teórico sobre a questão das nacionalidades e Stalin aceitou. Para isso, deslocou-se até Viena, capital do Império Austro-Húngaro, onde muitos outros revolucionários russos e estudiosos marxistas se encontravam. Lá esteve com Trotsky e Bukharin. A respeito do primeiro, não nutriu simpatia. O fato de Trotsky não ser um autêntico bolchevique pode ter colaborado para isso. Por sua vez, Leon Trotsky mais tarde o descreveu como um homem saído dos "atrasos do movimento operário russo". Mas, o estudo de Stalin sobre a questão nacional tornou-se referência, ao conceber uma autonomia do ponto de vista cultural para as minorias que desejassem preservar a língua materna, mas que deveriam estar sujeitas ao partido responsável pela construção do socialismo e reunindo o proletariado também único. O trabalho satisfez a Lênin, que inclusive o citou em seus escritos e Stalin passou a ter certo respeito como teórico marxista.





Em fevereiro de 1913, mais uma vez, Stalin foi detido pela polícia e enviado para a Sibéria, onde viveu um terrível isolamento, em temperaturas que alcançavam -40ºC, vendo os seus companheiros morrerem de tuberculose ou até pelo suicídio (nas fotos acima, de 1915, Stalin junto com outros prisioneiros, ao fundo e de chapéu preto, tendo ao seu lado direito, Kamenev). Em uma de suas cartas a um amigo, comparou-se a um esquimó: "Beijo-o no nariz como os esquimós. Que o diabo me carregue, isto aqui é um tédio sem você. Estou enfastiado, juro. Não tenho ninguém com quem conversar, ninguém com quem me abrir."


Nas cartas pedia ajuda financeira e livros. Entre os que recebeu e leu, está "O Príncipe", de Nicolau Maquiavel. Stalin escreveu também para aquele que, sem saber, foi o responsável por sua prisão, um agente infiltrado da polícia czarista. Ao mesmo tempo, correspondia-se com Lênin (na imagem acima, carta escrita por Stalin a Lênin em 1915), que chegou a planejar a fuga do militante bolchevique. 





Em fevereiro de 1917 o czar renunciou, a monarquia caiu e os exilados voltaram, entre eles Stalin (nas fotos acima, de 1919, Stalin, da esquerda para a direita, o segundo sentado na fileira do meio, tendo do seu lado direito Lênin).






No final da vida, Lênin nutria dúvidas a respeito da liderança de Josef Stalin, sobretudo no documento que ficou conhecido erroneamente como "testamento", onde qualifica o futuro líder soviético como "grosseiro e desleal". O documento foi escrito depois das duas fotos tiradas pela irmã de Lênin, que aparecem acima. A primeira imagem tornou-se oficial e a segunda mais "descontraída", com Stalin em pose imperial. As fotos foram tiradas quando da visita de Stalin ao líder bolchevique, que se recuperava do primeiro derrame, em 1922. 
Um desentendimento entre Stalin e a esposa de Lênin, Krupskaia, por esta não seguir as recomendações dos médicos de manter o marido distante dos assuntos políticos, gerou uma situação desconfortável entre os dois bolcheviques, no início de 1923. Contudo, no citado documento, Lênin também fez ponderações a respeito da capacidade de Leon Trotsky em comandar a agora chamada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em função da "excessiva confiança em si próprio", além de abordar os problemas de forma burocrática e ainda citando o seu "não bolchevismo". Também sobraram comentários negativos para outros integrantes do Partido Comunista, como Zinoviev, Kamenev e Bukharin. Lênin não indicou ninguém para uma suposta linha sucessória. Outro aspecto que depõe contra o "testamento" era o grave estado de saúde de seu autor (havia sofrido dois derrames), tendo metade do corpo paralisado e com fortes dores de cabeça. Tanto que depois desses comentários, sua atividade intelectual cessou até o momento de sua morte. 
Com a doença e a morte de Lênin em janeiro de 1924, no Comitê Central do Partido Comunista organizou-se uma troika (triunvirato) formada por Zinoviev, Kamenev e Stálin, que assumiu as funções de governo, enquanto Trotsky ocupava a chefia do Conselho Superior de Guerra. Nessa época havia ficado evidente a impossibilidade da revolução internacional, com o fracasso da tentativa de um novo levante na Alemanha. Trotsky havia se oferecido para entrar em território alemão e organizar pessoalmente o movimento em 1923, mas não foi autorizado pela troika, que temia indispor a União Soviética com o governo germânico. 



Leon Trotsky foi um dos ardorosos defensores da expansão da revolução socialista na Europa, uma vez que a sobrevivência do governo bolchevique, na sua visão, dependeria disso (a tese da revolução mundial). Para Stalin e muitos membros do Partido Comunista, essa possibilidade já havia ficado para trás e o governo socialista precisava ser salvaguardado das ameaças que o cercavam (na imagem acima, cartaz de Adolf Strakhov-Braslavskii, de 1926, onde se lê "Mulheres emancipadas: construam o socialismo"). 


Lev Davidovitch Bronstein, conhecido como Trotsky (pseudônimo proveniente do nome de seu carcereiro) nasceu em 1879 (mesmo ano de Stalin), na cidade de Yanovka, no sul da Ucrânia, de uma família camponesa de origem judia. Trotsky (na foto acima, tirada de sua ficha policial, em 1899) não era um bolchevique histórico e já havia tido divergências com Lênin. No período em que exerceu a sua atividade política, entre 1904 e 1917, ocupou uma posição intermediária entre os mencheviques e os bolcheviques. Talvez isso, entre outros fatores, tenha tornado a figura de Trotsky mais fragilizada dentro do partido e permitido à já citada troika, da qual Stalin fazia parte, estabelecer uma influência política maior. 



Muitos historiadores ainda discutem os motivos que levaram Trotsky, de não fazer valer a sua influência no Exército Vermelho (havia sido o seu organizador, como já observamos na primeira parte desta postagem) e se impor diante do Partido Comunista. Pelo contrário, apenas um ano após a morte de Lênin, Trotsky foi afastado do Comissariado de Guerra (na foto acima, Trotsky no Exército Vermelho). Stalin demonstrou habilidade em administrar o Partido, do qual era secretário-geral, principalmente no estabelecimento de alianças estratégicas, inclusive com aqueles com os quais não concordava. O Partido Comunista começava a se confundir com o próprio governo soviético e Stalin consolidava a sua liderança dentro da hierarquia partidária. 



Em 1926, existiam poucas possibilidades para Trotsky se contrapor ao grupo de Stalin, restando-lhe a tentativa de formar um bloco oposicionista, conhecido como "oposição de esquerda", o qual insiste na ideia de uma reforma do Partido, a fim de evitar a burocratização do mesmo, de um retorno às práticas democráticas e ao internacionalismo revolucionário (na imagem acima, de 1925, Trotsky em uma das três vezes em que foi capa da revista norte-americana Time). Mas, algo inesperado ocorreu! Zinoviev e Kamenev procuraram Trotsky para participar dessa oposição. A fim de impedir que o grupo ganhasse força e mais adeptos, Stalin buscou apoio da "ala direita" do Partido Comunista, que incluía figuras como Bukharin, Rykov e Tomski, os quais defendiam um processo mais gradual de transição para o socialismo e a manutenção da propriedade privada no campo, ou seja, das medidas adotadas pela Nova Política Econômica (NEP), criada ainda sob a liderança de Lênin (ver primeira parte desta postagem). 


No fotograma (cena congelada de filme) acima, temos a única imagem existente em que Trotsky e Stálin aparecem juntos, durante a cerimônia fúnebre de Felix Dzherzinsky, chefe da Tcheca (Polícia de Estado Soviética), realizada em 1926. Nela aparecem também outros líderes soviéticos. Da esquerda para a direita: Rykov, Yagoda, Kalinin, Trotsky, Kamenev, Stalin, Tomsky e Bukharin. A unidade de posições políticas era apenas aparente. 
A oposição de esquerda, agora formada por Trotsky, Zinoviev e Kamenev, defendia também a necessidade de promover o desenvolvimento da indústria pesada (máquinas e equipamentos); a melhora nas condições de vida dos trabalhadores operários; acabar com o enriquecimento dos kulaks (agricultores ricos) e dos especuladores; em resumo, ultrapassar o estágio da economia mista proposta pela NEP e avançar em direção ao socialismo, projeto esse que Stalin levou adiante depois. E a revolução mundial? Para Stalin, em um primeiro momento, a prioridade era a de garantir a sobrevivência e a construção do socialismo na União Soviética (a tese do socialismo em um só país). 
Em 1925, Trotsky foi afastado do Politburo (órgão máximo de decisões políticas, que chegou a se colocar, em vários momentos, acima do próprio Partido Comunista). Zinoviev, que como vimos, unira-se à oposição junto com Trotsky, foi destituído da direção da Internacional Comunista (Comintern) e da direção do Partido Comunista em Leningrado (antiga São Petersburgo). Em 1927, um fato parece ter precipitado a queda definitiva da agora chamada Oposição Unificada, quando no dia 7 de novembro, nas comemorações do 10º aniversário da Revolução de Outubro, Trotsky e Zinoviev organizaram um cortejo separado nas ruas de Moscou e Leningrado. Segundo nos relata a historiadora Lily Marcou, isso teria sido muito mal recebido no Partido Comunista, que considerava que a oposição tinha ido "longe demais". Trotsky e Zinoviev foram expulsos do Partido! No XV Congresso do Partido Comunista, realizado no final desse ano, foi decidido que nenhum tipo de oposição ou facção seria mais tolerada na organização partidária.


Em uma ultima tentativa de reverter a situação, Leon Trotsky fez alusão ao conteúdo da "carta testamento" de Lênin. Após o XV Congresso, Stalin colocou o seu cargo de secretário-geral do Partido Comunista à disposição, o que foi rejeitado pela plenária do Comitê Central do Partido (por unanimidade e com uma abstenção). Era tudo o que Stalin precisava! E ainda angariou apoio para pôr fim à questão da "carta testamento", que nunca mais foi discutida (na foto acima, Stalin, ao centro, no XV Congresso do PC, em dezembro de 1927). 


A oposição foi derrotada (na foto acima integrantes da Oposição Unificada, com Trotsky sentado ao centro, em 1927). Trotsky foi enviado para Alma-Ata no sul do Cazaquistão e depois expulso da União Soviética, como forma de desarticular o seu grupo. Os demais integrantes da Oposição Unificada tiveram a oportunidade de mostrar "arrependimento" e, por isso, a permissão de permanecer na União Soviética. Muitos voltaram a ocupar cargos nos anos seguintes, como Kamenev, Zinoviev e Preobrazhenski, este último, um grande economista. Stálin, por sua vez, desfez a aliança tática com a ala direita do Partido Comunista e buscou outros aliados de maior confiança, entre eles Molotov, Vorochilov e Kalinin. E agora? Agora, surgia um novo desafio! Resolver a questão da manutenção ou não dos postulados da Nova Política Econômica (NEP) de Lênin, que como já vimos, preservava a pequena propriedade rural e a pequena empresa. Além dos kulaks, um grupo de comerciantes e pequenos empresários também começaram a se destacar, enriquecendo-se com a distribuição de alimentos, bens de consumo e com a especulação. Eram os nepmen (ou "homens da NEP"). 



Entre os teóricos que tratavam dessa questão, na qual o futuro do socialismo na União Soviética estava em jogo, destacamos Nikolai Bukharin e Evgeny Preobrazhenski. O primeiro, em linhas gerais, defendia um tratamento menos rigoroso em relação ao campesinato kulak e discordava da intensificação de uma política econômica em favor da indústria. Preobrazhenski alegava que a manutenção dos kulaks e dos homens de negócios na cidade, poderia gerar distorções consideradas contrárias aos princípios socialistas, como a desigualdade social e o acúmulo de riquezas (na imagem acima, cartaz de Gustav Kloutsis, de 1930, ainda fazendo alusão à NEP, com os dizeres de Lênin "Da Russia da NEP nascerá a Rússia socialista"). A indústria deveria se expandir por meio da obtenção dos excedentes agrícolas, que assim financiariam a modernização sem recorrer a capitais externos, naquilo que Preobrazhenski chamou de "acumulação socialista". Por outro lado, ainda de acordo com Preobrazhenski, a agricultura deveria ser conduzida no sentido da coletivização, isto é, a implantação de grandes fazendas sob o controle do Estado. A mesma deveria ocorrer por meio do convencimento do campesinato (inclusive dos kulaks) de que as fazendas coletivas eram a melhor alternativa para o país em termos de produtividade. De modo geral, e apesar de ter sido vítima dos expurgos no Partido Comunista na década de 1930, as teses de Preobrazhenski acabaram prevalecendo, cabendo acrescentar que para este teórico, o êxito pleno do socialismo dependeria da futura revolução internacional.  
Stalin ainda temia um novo ataque das potências capitalistas e começou a defender a ideia de uma indústria bélica (produção de armas) forte e eficiente, para dissuadir os inimigos de tal iniciativa. Portanto, tornou-se prioridade capacitar a União Soviética para produzir suprimentos de ferro, aço, petróleo e energia. "Planejamento" era a palavra-chave da política econômica e para isso foi constituída a Comissão Estatal de Planejamento (Gosplam). O enfrentamento desse desafio de acelerar a industria "a todo o vapor" veio por meio de um amplo plano de modernização: o I Plano Quinquenal (a ser executado em cinco anos). O mesmo foi implementado entre 1928 e 1932.


A preocupação maior era com a indústria pesada e de bens de capital, isto é, máquinas e equipamentos (na foto acima de 1926, a chegada da luz elétrica em uma casa, nas proximidades de Moscou). A partir das teses de Preobrazhenski, a expansão da indústria exigia inicialmente a importação de máquinas e de matérias-primas, que deveriam ser pagas com a exportação de produtos agrícolas. Da mesma forma, previu-se o deslocamento das fábricas para o leste, na região dos Montes Urais e na Sibéria Ocidental, algo importante, inclusive, do ponto de vista estratégico. 



O Plano Quinquenal previa a implantação dos chamados kombinats ou complexos multi-industriais, como no caso das usinas eletroquímico-metalúrgicas interdependentes. Como afirma o historiador Malcon Falkus, o funcionamento desse complexo industrial deveria estar em entrosamento com os demais, daí a importância do planejamento (na foto acima, um estaleiro em 1932). 


O financiamento do Plano Quinquenal viria também do reinvestimento do lucro das próprias empresas, o que implicava em racionalização dos custos e melhora na produtividade da mão de obra. Cada operário elevaria a sua produção em 100% e o salário real cresceria 77%, vindo daí o recurso para reinvestimento (na foto acima, um dos primeiros automóveis fabricados na União Soviética, em 1932).


Mas, sem dúvida, a maior dificuldade veio da agricultura. A expansão industrial (na foto acima, fábrica de caminhões, década de 1930) exigiu um aumento na produção de alimentos, como também de trigo, para suprir a importação inicial de equipamentos. A propriedade camponesa particular não iria suportar as novas exigências, mesmo com a requisição forçada da safra como feita no tempo da guerra civil (1918-1920). Daí a necessidade de acelerar, mais do que o previsto, o processo de coletivização da terra, com a implantação das fazendas coletivas (kolkhozy) e das fazendas estatais (sovkhozy). Inicialmente, imaginou-se que os próprios camponeses, percebendo as vantagens da produção mecanizada e em larga escala, tomariam a iniciativa de aderirem ao plano, como defendia Preobrazhenski. Mas, isso não ocorreu! Mesmo assim, o governo soviético levou adiante a coletivização, a partir de 1929. Os números mostram que o processo foi, de fato, efetivado. Segundo dados do historiador Malcon Falkus, o total de kolkhozy subiu de 57.000 em 1929, para 211.000 em 1932. A área cultivada saltou de 10 para 226 milhões de acres. Por sua vez, o número de sovkhozy passou de 1.500 para 4.337 em 1933, quando abrangiam uma área de 33 milhões de acres de terras cultivadas. Em março de 1930, 58% das famílias camponesas russas viviam em fazendas coletivas. No ano de 1938, 93,4% da população rural estava estabelecida nessas fazendas. O controle estatal sobre a produção agrícola, concentrada em grandes áreas, era bem maior do que se fosse feita em pequenas propriedades individuais e, claro, aumentou em muito a produção, pois possibilitava a mecanização. 



Contudo, os kulaks reagiram à coletivização, reduzindo a produção e abatendo as criações (gado, porcos, ovelhas, cabritos...). Até mesmo alguns camponeses pobres acabaram participando do boicote ao programa governamental (na imagem acima, um pôster de 1930 em favor da coletivização, de Nikolai Mikhailov, onde se lê: "Não há lugar em nossas fazendas coletivas para padres e kulaks"). Os rebanhos da União Soviética foram reduzidos para menos da metade. Muitos camponeses insurgentes foram transferidos para campos de trabalhos forçados na Sibéria e em péssimas condições de vida. Em razão disso, muitos pereceram. Sim, foram muitas as vítimas desse processo! Talvez não os 14 milhões citados em levantamentos menos apurados, mas algo entre 1 e 2 milhões de pessoas segundo estudiosos preocupados com a analise mais precisa dos acontecimentos. Os defensores da política governamental classificaram a coletivização como um prolongamento do processo revolucionário, uma verdadeira luta de classes no campo, entre pequenos e grandes proprietários. O Estado soviético acabou flexibilizando as regras, admitindo com o tempo, que os trabalhadores pudessem utilizar pequenas áreas de terra para manter uma criação (galinhas, cabras e porcos) e que recebessem de acordo com os dias trabalhados. A partir de 1933, a agricultura voltou a apresentar sinais de melhora na produção e a mesma começou a aumentar.


Como era de se esperar, foi na indústria pesada que foram obtidos os maiores êxitos do I Plano Quinquenal (na foto acima, a produção de tratores). Mas também foram erguidas barragens, construídas ferrovias, estradas e oleodutos. A construção de uma grande rede de centrais elétricas proporcionou o fornecimento necessário de energia. 



A maior hidroelétrica do mundo foi construída no rio Dnieper (imagem acima); a maior planta siderúrgica em Magnitogorsk; o canal que liga o mar Branco com o mar Báltico e as obras do metrô de Moscou (II Plano Quinquenal), o qual, atualmente têm várias de suas estações declaradas como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, ganharam destaque entre as grandes obras. 


A participação do setor industrial na produção total passou de 34,8% em 1928 para 45,3% em 1932, chegando a 62,7% em 1940, de acordo com o historiador Jorge Saborido. A produção de ferro e carvão aumentou, embora não alcançasse as metas previstas (na foto acima, o complexo siderúrgico de Magnitogorsk). O I Plano Quinquenal lançou as bases para uma expansão futura, através do II Plano Quinquenal (1933-1937) e do III Plano (1938), o qual sofreu interrupções em função da Segunda Guerra Mundial. A mobilização que garantiu a oferta da mão de obra para atingir esses índices foi enorme. 
Os êxitos obtidos pelo Plano Quinquenal não podem ser desprezados. "O grande salto adiante" foi realizado. A influência desses resultados foi registrada nos países ocidentais. A palavra "planejamento" passou para o vocabulário dos vários governos capitalistas, a começar pelos Estados Unidos. No Brasil, o seu uso se tornou frequente a partir da época do Estado Novo (ditadura de Getúlio Vargas, entre 1937 e 1945). Bem, até hoje o Brasil dispõe de um Ministério do Planejamento. Nenhum país do mundo tinha registrado, até então, um avanço industrial tão rápido e tão acelerado. 
No campo político, a questão envolvendo Leon Trotsky, seus seguidores ou aqueles que faziam oposição a Stalin, não ficou resolvida com a expulsão de sua figura mais proeminente do país. Alguns acontecimentos mostraram que tal oposição se movimentava e que Trotsky, mesmo fora da União Soviética, não deixou de tentar influenciar esse processo. Contudo, em que grau isso se deu, ainda é difícil de avaliar. De qualquer forma, a ação de Stalin contra essa articulação oposicionista foi forte e para muitos, desproporcional!


O assassinato de uma das figuras mais importantes do regime soviético, Kirov, foi o fato apontado pela maioria dos estudiosos como aquele que desencadeou o expurgo verificado entre 1936 e 1938 (na foto acima, Stalin no funeral de Kirov, em 1934). Sim, muitos afirmam que o próprio Stalin teria eliminado Kirov para justificar o fortalecimento de seu poder. Mas, não há provas disso. Aos olhos do governo soviético estava em andamento uma tentativa de derrubar Stalin e eliminá-lo. Verdade ou não, processos e mais processos foram instaurados e praticamente todos aqueles que já tinham demonstrado algum comportamento suspeito em relação ao regime, foram arrolados. A depuração (limpeza) envolveu milhares de pessoas e muitos dos veteranos da Revolução de 1917. 


Rykov, Zinoviev, Bukharin que aparecem na foto acima, de 1923, ao lado de Stalin, da esquerda para a direita, foram envolvidos e executados. Além deles, Kamenev, Tomsky, Pyatakov, Preobrazhenski também foram incluídos e fuzilados (Tomsky se suicidou). Em muitos casos, as ligações com Trotsky serviram como forte argumento para a condenação. A figura de Bukharin ocupou um lugar importante nessa depuração, por suas posições conflitantes em relação à industrialização, à coletivização e mesmo no que dizia respeito à supremacia do Partido Comunista. Ele era um elemento que poderia ser útil dentro de uma articulação anti-Stalin, a qual parece ter envolvido setores militares, uma vez que a depuração atingiu esse segmento, com a prisão de altos oficiais, inclusive generais do Exército Vermelho. A ação contra eles foi dura, com o intuito de eliminar qualquer possibilidade de foco conspiratório. Até mesmo o próprio chefe do Comissariado do Povo para Assuntos Internos (sigla NKVD, a qual, entre outras atribuições, exercia o papel de polícia de Estado), Nikolai Yezhov, foi preso em 1938 e depois executado, segundo se supõe, por ter conduzido os expurgos de forma abusiva. Em seu lugar assumiu Lavrenti Beria, que dirigiu a NKVD até a morte de Stalin. Uma das tarefas da NKVD era a administração dos campos de trabalho para prisioneiros, conhecidos como gulags





O assassinato de Trotsky (nas imagens acima, a picareta de alpinista usada para golpear a cabeça de Trotsky e o ex-líder soviético já sem vida) na Cidade do México, em 1940, por um agente comunista fiel aos ideais de Stalin, fez desaparecer aquele que era ainda, sem dúvida, a mais importante referência de oposição ao regime estalinista. A morte de Trotsky (assunto para uma futura postagem) debilitou a IV Internacional (criada por ele para se contrapor ao Comintern soviético, de orientação estalinista) e foi o desfecho da depuração empreendida por Stalin. Por outro lado, também marcou o início de uma ruptura no movimento comunista internacional entre trotskistas e estalinistas, que se mantém até hoje. 


No final da década de 1930, Stalin podia se valer de um gigantesco prestígio, auferido pelos êxitos econômicos e por sua completa influência política, a ponto de muitos historiadores apontarem o seu governo como tendo se tornado um verdadeira ditadura totalitária de esquerda (no fotograma acima, balões levantam um enorme painel com a figura de Stalin, no final da década de 1930). Ao mesmo tempo, os êxitos da União Soviética repercutiram no mundo ocidental como uma propaganda em favor do comunismo, estimulando uma forte reação contrária por meio do fascismo e do nazismo, principalmente na Itália e na Alemanha (mas não apenas nesses países). 


Um fato misterioso afetou a vida privada de Stalin. O suicídio de sua segunda esposa, Nadezhda Alliluyeva (na foto acima, Nadezdha com a filha do casal Svetlana em 1927) em 1932. Claro, em se tratando de Stalin, especulações e mais especulações foram feitas. Ainda não há um acordo entre os estudiosos a respeito dos motivos que a levaram a esse gesto. A já citada sovietóloga Lily Marcou, registra o excessivo distanciamento de Stalin em relação à família, como um fator que teria contribuído para o estado depressivo de sua esposa. Por outro lado, problemas de depressão eram comuns na família de Nadezdha. Enfim, uma questão que ainda gera versões as mais diversas, que vão desde adultério até ciume excessivo... A família Alliluyeva era formada por antigos partidários bolcheviques, a qual, inclusive, abrigou Stalin em vários momentos difíceis de sua agitada vida de revolucionário. A amizade com a família continuou, mesmo depois da morte da Nadezdha, um indicativo de que a mesma não culpava Stalin pelo ocorrido. Muitos atribuiriam a essa perda, o fato de Stalin ter tido um comportamento frio e cruel na fase dos expurgos. Nadezhda lhe deixou dois filhos: Vasili e Svetlana. 



Os avanços da União Soviética foram notados em outros setores, como na educação, na saúde e na participação da mulher, cujas conquistas não podiam ser comparadas, na época, com a de qualquer outro país (direito de requerer o divórcio; equiparação ao homem no trabalho e na política e mesmo na questão do aborto). Nas artes, a avaliação é mais polêmica em função das restrições do período estalinista e requer uma analise mais detalhada (na imagem acima, a conhecida escultura "Trabalhador e Mulher Kolkhoz" de autoria de Vera Mukhina, de 1937, feita em aço inoxidável e com quase trinta metros de altura). 


De qualquer forma, a União Soviética, como a conhecemos na história, foi constituída na época de Stalin (na foto acima, em um raro momento de descontração em 1930). O fortalecimento econômico a transformaria, em breve, em uma grande potência militar. Contudo, ao iniciar a década de 1940 veio a concretização de uma grande ameaça, aliás, prevista por Stalin: a Grande Guerra Patriótica (conhecida também como Segunda Guerra Mundial). Uma verdadeira provação ao regime e, sobretudo, ao seu povo. Nenhuma outra nação vivenciou um momento tão trágico como esse. Mas, deixemos isto para a parte final desta postagem...


Para saber mais:
Como fizemos em "Stalin e a Formação da União Soviética parte 1" indicamos uma leitura geral sobre o assunto, como ponto de partida (e não ponto de chegada!). Trata-se de uma obra crítica à figura de Stalin. O livro do historiador e ex-general do Exército Vermelho, Dmitri Volkogonov, "Stalin: triunfo e tragédia" (Editora Nova Fronteira, 2004). Por que essa leitura? Esse historiador faz uso de algumas fontes e documentos que permaneceram inéditos até a abertura dos arquivos soviéticos, no início da década de 1990. O autor perdeu o pai em um dos expurgos promovidos no período estalinista, mas, mesmo assim, faz muitas analises tentando manter a objetividade e sempre respaldado nas fontes, sobretudo quando analisa a fase da Segunda Guerra Mundial. Em muitas questões, seus argumentos são praticamente definitivos (como no caso da "aliança" com Hitler em 1939). O livro é dividido em dois volumes.

Crédito das imagens:
Imagem de Stalin discursando e balões levantando um painel com o seu rosto: fotogramas do documentário Revolução Russa (DVD). Grandes Dias do Século XX. Coleção História Viva. Editora Duetto. 
Casa onde Stalin passou a infância: Wikipédia.
Stalin como seminarista, junto com outros presos em 1915, : livro citado de Dmitri Volkogonov.
Stalin velando a primeira esposa: Wikipédia.
Ficha policial de Stalin:
https://rarehistoricalphotos.com/young-stalin-1894-1919/
Carta escrita por Stalin a Lênin: Lily Marcou. A Vida Privada de Stalin. Zahar Editores, 2013, p. 60.
Trotsky em 1899 e no comando do Exército Vermelho: Pinterest.
Stalin e Trotsky juntos: http://www.gettyimages.com/detail/news-photo/russian-communist-leader-stalin-at-the-funeral-of-felix-news-photo/541520173#russian-communist-leader-stalin-at-the-funeral-of-felix-dzerzhinsky-picture-id541520173
Fotos de Lênin e Stalin tiradas por Maria Ulianova em Gorki (1922):
http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/A-biografia-de-Stalin
Stalin no XV Congresso do PC em 1925:
https://www.nytimes.com/2015/01/09/books/stalin-paradoxes-of-power-by-stephen-kotkin.html
Foto da Oposição Unificada: Wikipédia.
Foto da chegada da luz elétrica e de um dos primeiros automóveis: coleção História do Século 20. Abril Cultural 1968. Volume 4, p. 1117. 
Fotos do estaleiro; da fábrica de automóveis; da fábrica de tratores; da siderúrgica de Magnitogorsk; Stalin no funeral de Kirov; de Rykov, Zinoviev e Bukharin ao lado de Stalin em 1923, escultura de Vera Mukhina e de Stalin descontraído: https://russiainphoto.ru/
Barragem no rio Dnieper: Wikipédia. 
Poster de Lênin e cartaz em favor da coletivização: 1917; O Ano que Abalou o Mundo. Edições Sesc/Boitempo, 2017, pags, 3 e 5. 
Foto de Nadhezda Allilueyva: http://www.nydailynews.com/news/back-notorious-soviet-dictator-joseph-stalin-gallery-1.2553371?pmSlide=1.2553360
Foto de Trotsky morto: http://www.nuttyhistory.com/russian-revolution.html