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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Roteiro de Viagem: Cidades Históricas de Minas Gerais




Caro leitor, ouvimos falar que o Brasil não está em condições de receber os turistas provenientes do exterior, os quais, além dos aspectos relativos à natureza, desejam conhecer um pouco mais a respeito da história do país visitado. Somos comparados, por exemplo, com o México que, além das belezas naturais, oferece também o legado material das antigas culturas pré-colombianas (asteca e maia). Trata-se de uma observação muito relativa. O caso do México (e também do Peru com relação aos incas) é específico em função da presença das duas culturas citadas em seu território. Se não tivemos por aqui nenhuma civilização tão antiga e exuberante, por outro lado, temos um patrimônio da era colonial comparável ao de qualquer outro país latino-americano, mesmo com as particularidades da colonização espanhola já descritas por grandes historiadores, como Sérgio Buarque de Holanda. A prova disso são as cidades de Belém, São Luís, Recife (e claro, Olinda), Salvador, Rio de Janeiro e aquelas representativas do chamado ciclo do ouro, localizadas no Estado de Minas Gerais. Dentre estas últimas, destacamos Ouro Preto, Mariana (foto acima), São João Del Rei, Tiradentes, Sabará e Diamantina. 



Uma outra comparação possível é com a América do Norte (Canadá e Estados Unidos), praticamente carente de um grande patrimônio artístico e arquitetônico referente à sua fase colonial. Basta lembrarmos do Barroco brasileiro e de seus artistas, como o Aleijadinho (acima, cópia de uma pintura do século XIX, presumivelmente retratando o Aleijadinho) e o mestre Ataíde, algo que não observamos na colonização anglo-saxônica, em função desta ter tido como matriz cultural o protestantismo. Este último, pelo fato de sua doutrina reprovar a adoração de imagens e relíquias, não produziu uma arte e uma arquitetura tão exuberante. Atenção, aqui não cabe nenhum tipo de crítica a esta ou aquela corrente religiosa. Trata-se de uma simples constatação. Neste aspecto referente ao passado artístico da fase colonial, podemos nos considerar em grande vantagem em relação aos nossos irmãos americanos do norte. 
Por outro lado, há um detalhe que pode ser um obstáculo (não intransponível) para quem deseja conhecer um pouco mais essas realizações de nossa história: as distâncias que separam esses antigos núcleos coloniais. Afinal, o Brasil tem dimensões quase continentais. Contudo, em muitos casos, tal obstáculo poderia ser amenizado por algumas soluções simples e baratas, como por exemplo, uma sinalização decente nas rodovias. No caso específico do roteiro que estamos propondo, as cidades históricas de Minas Gerais, não produz nenhum resultado positivo, nem para o país e nem para os moradores locais que vivem do turismo, ignorar a existência de São Paulo. Os caminhos das rodovias que percorrem essas cidades trazem a sinalização apenas em direção a Belo Horizonte, mas não para o maior centro de negócios da América do Sul. É um absurdo! Da mesma forma, indicar a direção e a distância correta das cidades ao invés das placas inúteis da tal Estrada Real, que mais confunde do que explica e que, além de tudo, é uma mera abstração histórica. Um turista proveniente do exterior teria enormes dificuldades para chegar ao seu destino de carro. Isso é um trabalho que deveria ficar a cargo, principalmente, das prefeituras e dos governos estaduais. Não se pode alegar que não há verba, pois é algo simples, de baixo custo e que proporciona retorno no fluxo de turistas.
Pois bem, feitas essas ressalvas, vamos a um roteiro simples e básico! O mesmo requer o uso do automóvel para facilitar o deslocamento de uma cidade para outra, e só! Reduzindo o número de cidades visitadas é possível fazer sem carro. 
O caminho pode começar a partir de qualquer grande centro, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Neste caso em particular (ou seja, daquele que vos escreve), partimos de São Paulo, através da rodovia Fernão Dias (cujo nome lembra o de um bandeirante do século XVII e solenemente ignorado nas sinalizações dos ramais rodoviários) até a entrada para Lavras, sul do Estado de Minas Gerais, aproximadamente 300 quilômetros saindo de São Paulo em direção a Belo Horizonte. O acesso para Lavras (à direita da Fernão Dias) é o caminho ideal para percorrermos as cidades históricas da época do ouro, uma vez que entramos na BR 265, que alcança São João Del Rei e a pequena cidade de Tiradentes. Estabeleça nesta última a sua primeira base, inclusive em termos de hospedagem, pois existem pousadas e hotéis para todos os bolsos. 



Não é por outra razão que Tiradentes (foto acima), antiga Vila de São José do Rio das Mortes, têm esse nome. Trata-se da terra natal do nosso mais importante personagem dos tempos coloniais, o alferes (cargo equivalente ao de tenente) Joaquim José da Silva Xavier, um dos inconfidentes que aspiraram a separação entre Brasil e Portugal no final do século XVIII. Na verdade, Tiradentes nasceu na fazenda Pombal (situada atualmente no município vizinho de Ritápolis), mas passou a sua juventude na cidade que leva o seu nome.


Pequena, porém muito agradável, Tiradentes inspira os passeios a pé, a começar pela Igreja de Santo Antônio, na parte alta da cidade (imagem acima), que começou a ser erguida a partir de 1710. É uma visita obrigatória. 



Os altares foram revestidos com mais de meia tonelada de ouro, o que torna a igreja a segunda ou terceira do Brasil (há controvérsias) em termos de quantidade do valioso metal nas decorações (na foto acima, o altar-mor da igreja). Para uma comparação aproximada, essa soma era equivalente a praticamente metade do total de ouro que o Brasil enviava anualmente para Portugal em meados do século XVIII. 
Este templo reúne as características mais elementares das demais igrejas barrocas da região. O destaque cabe ao altar principal, ricamente ornamentado, obra do entalhador português João Ferreira Sampaio. As belas pinturas presentes no teto, de autoria de Manoel Vitor e o magnífico órgão trazido de Portugal são outros destaques. O assoalho da igreja é um grande cemitério, pois as famílias mais importantes enterravam os seus membros dentro do templo, sendo que cada sepultura está numerada. A de número 49, por exemplo, pertence a uma prima de Tiradentes. Quanto maior a proximidade com o altar-mor, maior o prestígio social do indivíduo. Os mais pobres eram enterrados em um outro cemitério, do lado de fora. O frontispício da Igreja de Santo Antônio foi desenhado pelo mestre Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como o Aleijadinho, em 1810, quase no final de sua vida.


Ainda em Tiradentes é possível visitar a antiga residência do padre Carlos Correia de Toledo (foto acima), um dos envolvidos na Inconfidência Mineira de 1789. A mais opulenta residência da cidade hoje é um museu com valiosas obras de arte e com exposições temporárias. 



Destaque para as pinturas no forro das salas e com poltronas especialmente instaladas para que o visitante possa olhar para o teto e apreciar o conjunto decorativo.



Sugerimos uma permanência de dois dias em Tiradentes para essas visitas. Para aqueles que estão ligados no turismo ecológico e interessados em conhecer a natureza, Tiradentes ainda reserva trilhas e passeios a cavalo. Por exemplo, a visita ao topo da serra de São José, no alto de seu exuberante paredão (foto acima). A trilha, de sete quilômetros, requer um certo preparo e é recomendada para aqueles que estejam minimamente acostumados a uma boa caminhada. O grau de dificuldade para a mesma é considerado médio, sendo necessário o acompanhamento de um guia.



A partir de Tiradentes, é possível visitar São João Del Rei (na foto acima, parte do seu centro histórico), pois as duas cidades são muito próximas. Esse passeio pode ser feito, de quarta a domingo, em uma antiga "Maria Fumaça".


Em São João Del Rei, tire um dia para conhecer o centro histórico e a igreja de São Francisco de Assis (foto acima), com os seus altares preparados para serem banhados a ouro. Contudo, na segunda metade do século XVIII, o precioso metal começou a diminuir pelo esgotamento das minas e lavras. Por isso, muitos altares não foram contemplados com o banhamento. 



Por outro lado, isso não tira a beleza das obras (como vemos na foto acima). O projeto arquitetônico é do Aleijadinho. Esta é uma das poucas igrejas da região onde é permitido tirar fotos em seu interior. 



Em São João Del Rei, além das igrejas e das casas típicas dos séculos XVIII e XIX, é possível observar o solar da família Neves, onde morou o ex-presidente Tancredo Neves (na foto acima).
Após a visita a São João, é hora de tomar o caminho para Ouro Preto, pela rodovia que leva a Belo Horizonte. Cuidado com as sinalizações, são confusas! No caminho, a estrada atravessa várias cidades, entre elas Lago Dourado, a terra do rocambole. Não deixe de experimentar!



Em Ouro Preto, a Vila Rica dos tempos de Tiradentes, prepare-se para pelo menos dois dias inteiros de visita à antiga capital do Estado de Minas Gerais. Trata-se da nossa "Atenas", um verdadeiro museu a céu aberto e, por isso, vá preparado para andar, com um bom tênis para suportar o calçamento de pedra da cidade (para os homens evitar os sapatos sociais e para as mulheres, nem pensar em salto alto).
Tome como referência no centro a praça Tiradentes (foto acima), local onde ficou exibida a cabeça do mártir da Inconfidência Mineira em 1792, até que o tempo a consumisse, de acordo com a sentença. 


Interessante começar pelo Museu da Inconfidência (foto acima), que não pode deixar de ser visitado. Esse museu está instalado no antigo edifício do Tribunal, que também serviu de cadeia nos séculos XVIII e XIX. Foi projetado e construído pelo governador português Luis da Cunha Meneses, a partir de 1784, com a utilização de presos e escravos para ser erguido. A edificação destoa do estilo barroco e já revelava uma influência arquitetônica do neoclassicismo vindo da Europa e que predominou no século seguinte no Brasil. 



Nesse museu é possível encontrar peças do antigo mobiliário das residências mais opulentas, exemplares da fabulosa coleção de arte sacra com destaque para vários trabalhos do Aleijadinho e do pintor Manuel da Costa Ataíde (como o quadro acima, São Simão Stock com Nossa Senhora do Carmo). Além disso, peças e documentos referentes ao episódio da Inconfidência Mineira, como por exemplo, um relógio usado por Tiradentes e duas traves da forca utilizadas em sua execução, podem ser vistas. 



Um panteão com os restos mortais dos inconfidentes (na fotografia acima), muitos dos quais foram repatriados mais de um século depois, inclusive o de Tomás Antônio Gonzaga e de sua amada Maria Doroteia Joaquina de Seixas, a "Marília de Dirceu" dos seus poemas. Não é permitido tirar fotos nesse museu. Portanto, se o visitante quiser lembranças terá que recorrer à lojinha dentro da instituição.
Outro museu que não deve deixar de ser visto é o da Escola de Minas, também na praça Tiradentes. Trata-se de uma instituição federal que preserva um valioso acervo de minerais da região e do mundo. Além disso, fósseis que contam a origem de nosso planeta e a sua evolução geológica apresentados de forma clara e didática. Nesse museu também não são permitidas fotos, mas dê uma passada na lojinha, que possui itens como livros e lembranças, a preços bem mais acessíveis do que nos demais museus da região.


Ah, claro, as igrejas. A igreja de São Francisco é uma das mais importantes e que concentra um bom número de obras do mestre Aleijadinho. A própria igreja é um projeto do artista e no seu interior, uma boa mostra do Barroco e do Rococó dos séculos XVIII e XIX. O teto da nave foi obra do pintor Manuel da Costa Ataíde (1762-1830), talvez o nome mais importante do Barroco brasileiro na pintura. Aliás, essa pintura ainda está por merecer uma atenção maior por parte dos historiadores da arte. Nas visitas é possível vislumbrar inúmeras obras desses pintores. 



A igreja Nossa Senhora do Pilar começou a ser construída em 1736 pelo arquiteto português Francisco Antonio Pombal (tio do Aleijadinho), sendo conhecida pela enorme quantidade de ouro utilizada na confecção de seus altares. Necessário lembar que as famílias mais importantes da cidade mandavam erguer altares na parte lateral do interior do templo, algo que conferia prestígio e refletia a riqueza das mesmas, inclusive na quantidade de ouro que era oferecida na confecção.


Outra visita que não deve deixar de ser feita é a Casa dos Contos (na foto acima). Antiga residência de um dos homens mais ricos de Minas Gerais no final do século XVIII, João Rodrigues de Macedo. 


Em função de suas dívidas com a Fazenda Real, a casa foi confiscada e depois transformada em local para arrecadação do quinto, imposto de 20% do ouro que cabia à Coroa Portuguesa (na foto acima, barras de ouro "quintadas", já com o desconto do tributo). Atualmente, pertence ao Ministério da Fazenda, que mantém um Centro de Estudos do Ouro, com um arquivo e documentos referentes aos séculos XVIII e XIX. O local serviu também de prisão para alguns dos inconfidentes em 1789, inclusive Claudio Manoel da Costa, que foi encontrado morto em sua cela.


As casas de alguns dos inconfidentes podem ser vistas em Ouro Preto, inclusive a de Tomás Antônio Gonzaga, aberta à visitação (na foto acima, a sala superior do solar do poeta Gonzaga, local de encontro dos inconfidentes) e a de Claudio Manoel da Costa. A casa onde viveu Tiradentes, na conhecida rua São José (próxima à Casa dos Contos) foi demolida, como previa a sentença, que declarou o alferes Joaquim José da Silva Xavier infame perante a Coroa Portuguesa.


A partir de Ouro Preto, reserve um dia para conhecer Mariana (imagem acima), a pouco mais de 15 quilômetros da antiga Vila Rica. A cidade, que já foi chamada de Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo, foi o berço de toda a organização administrativa e institucional da região do ouro em Minas Gerais. Primeiro núcleo a ser elevado à categoria de cidade e que recebeu o primeiro bispado da capitania das Minas Gerais em 1745.
A igreja da Sé ou Matriz de Nossa Senhora da Conceição merece uma visita, com destaque para o fabuloso órgão do século XVIII, trazido da Europa. Uma única instrumentista permanece na cidade para manter o instrumento em funcionamento e realizar apresentações duas vezes por semana (quem tiver interesse, consultar os dias e horários). Em seguida, uma visita obrigatória ao Museu Arquidiocesano de Arte Sacra, com uma das melhores coleções do gênero no Brasil, incluindo trabalhos de Aleijadinho. A praça do Pelourinho onde está a Câmara Municipal, uma das edificações mais importantes do século XVIII e as igrejas de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Carmo também devem ser vistas (na foto mais ao alto, que abre esta postagem). Aproveite bem Mariana, cidade absolutamente hospitaleira e simpática.



No retorno para São Paulo sugerimos a visita a Congonhas do Campo para conhecer o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Em torno dessa igreja encontram-se os famosos profetas de Aleijadinho (na foto acima, o profeta Jeremias), esculpidos em pedra-sabão entre os anos de 1800 e 1805. 


Os profetas estão inseridos na fase de amadurecimento de Aleijadinho, onde o artista adquiriu sua plena expressão estética para se tornar o nome mais importante do Barroco no Brasil (acima, o profeta Isaías). 


Diante da igreja estão as seis capelas onde encontramos outra preciosidade do fabuloso artista: as passagens da Via Crucis de Jesus Cristo (acima, detalhe do Caminho para o Calvário). As esculturas foram executadas entre os anos de 1796 e 1799. 


Um inconveniente, os portões das capelas estão fechados e as obras precisam ser vistas do lado de fora. Mesmo assim, é possível admirar as esculturas, sobretudo na passagem referente à Santa Ceia (na foto acima) e a Crucificação. Para esta última etapa do roteiro sugerimos um dia inteiro. Em seguida, cumprido o que foi sugerido, voltar para casa.
Resumindo o nosso roteiro:

primeiro dia: Tiradentes.

segundo dia: Tiradentes com a sugestão de um passeio ecológico (trilha, andar a cavalo ou um passeio de bicicleta);
terceiro dia: visita a São João Del Rei e ida para Ouro Preto.
quarto dia: Ouro Preto e o seu centro histórico (sugestão: visita à Casa dos Contos);
quinto dia: museus de Ouro Preto (sugestão: Museu da Inconfidência e Museu da Escola de Minas, ambos na praça Tiradentes);
sexto dia: visita de um dia inteiro em Mariana.
sétimo dia: visita a Congonhas do Campo e retorno.
custo aproximado: R$ 1.800,00 para duas pessoas ou um casal.

O roteiro acima é apenas uma sugestão básica. Por exemplo, é possível sair de Tiradentes, visitar São João Del Rei e voltar no mesmo dia. Vá preparado para deixar o automóvel encostado enquanto estiver dentro das cidades. Um problema grave nesses centros históricos é o excesso de veículos, sobretudo em Ouro Preto, o que prejudica demais a circulação dos turistas. Futuramente, algo terá que ser feito para limitar ou mesmo proibir em alguns locais a passagem de automóveis.
Regra geral: na dúvida, pergunte. O povo mineiro é muito atencioso e hospitaleiro!
No mais, aproveite bem e boa viagem.......

Informações úteis (inclusive para obtenção de mapas turísticos):
Em Ouro Preto, Secretaria de Cultura e Turismo: Rua Claudio Manoel, 61, centro (exatamente no solar onde morou o poeta Tomás Antonio Gonzaga). 
Em Mariana: Centro de Atenção ao Turismo: telefones (31) 3558-2314/3558-1062
Em Tiradentes as próprias pousadas dispõem de mapas com as principais atrações da cidade. 
Crédito das Imagens:
Pintura representando Aleijadinho: Ouro Preto: Museus. Ouro Preto Editora, 2014, pag. 52.
Altar-mor da igreja de Santo Antonio em Tiradentes. Cartão postal. 
Panteão dos Inconfidentes e pintura de Manuel da Costa Ataíde: Museu da Inconfidência, MinC/IPHAN/Museu da Inconfidência, 1995, pags. 103 e 117. 
Demais fotos: acervo do autor. 


domingo, 12 de julho de 2015

O jovem Adolf Hitler




Ser um grande artista plástico! Pelo menos era esse o desejo do adolescente Adolf Hitler (1889-1945) ainda em seu país natal, que não era a Alemanha e sim a Áustria. O homem que muitos afirmaram ter sido inteligente e que poderia ter usado a sua genialidade para o bem, não pareceu ter demonstrado isso em sua juventude. Nunca foi um bom aluno na escola e nem mesmo na sua frustrada tentativa de se tornar um pintor. Em termos artísticos, Hitler (na foto acima, ainda um simpático bebê) não conseguiu evoluir para além de um simples pintor de cartões postais e pequenas aquarelas, muito embora seja errôneo afirmar que não tivesse condições de ter desenvolvido melhor a sua arte. 
Por outro lado, muitos se perguntam a respeito da origem de seu antissemitismo (aversão aos judeus). Na sua vida pessoal, nenhum israelita teria feito algo contra o jovem que o tivesse marcado negativamente, muito pelo contrário. Nem o doutor Bloch que cuidou com grande esforço de sua mãe, quando esta sofria de câncer ou a família Epstein, mantenedora de muitos albergues para pobres que Hitler utilizou em seus piores momentos, no início do século XX. Finalmente, foi um tenente judeu chamado Gutmann que propôs o nome de Hitler para ser condecorado com a Cruz de Ferro de primeira classe como soldado do Exército Alemão, na Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Contudo, o contexto em que Adolf Hitler cresceu e viveu a sua juventude era permeado pelo antissemitismo e pelo pangermanismo, a ideia da expansão da comunidade alemã que vivia sob o II Reich ou Segundo Império Alemão (1871-1918). Hitler passou boa parte de sua infância e adolescência em um território onde os sentimentos antissemitas eram fortes, sobretudo diante das diferenças étnicas existentes no Império Austro-Húngaro, onde viviam católicos, judeus, cristãos ortodoxos, ciganos, entre outros. 



Adolf Hitler nasceu na pequena cidade de Braunau, na Áustria, próxima à fronteira com a Alemanha, em 20 de abril de 1889, apenas quatro dias depois do nascimento de outro conhecido personagem do século XX, que iria satirizá-lo no cinema: Charlie Chaplin. O pai do futuro ditador e líder da Alemanha, Alois Hitler (na foto acima) era um funcionário público da alfandega (local onde são vistoriados os produtos que entram e saem de um país) e pode dar à família uma vida relativamente confortável. 


A mãe de Hitler, Klara Polzl (imagem acima) era prima em segundo grau de Alois. Já em seu segundo casamento, o pai de Hitler trouxe a moça para tomar conta de seus filhos enquanto a esposa esteve doente. Após a morte desta, Alois desposou Klara, a qual adotou o sobrenome Hitler e que deu ao marido seis filhos, dos quais apenas dois sobreviveram: o próprio Hitler e sua irmã Paula. 
Ao que tudo indica, pai e filho tiveram alguns desentendimentos, sendo um dos motivos o desempenho ruim de Hitler nos estudos. Alois não tolerava notas baixas e era rigoroso no aspecto disciplinar. Hitler foi reprovado duas vezes no exame de admissão (uma espécie de vestibular) na escola secundária. Por sua vez, em sua fase de adolescente, Hitler demonstrou simpatias pelo antissemitismo e pela ideia de expansão do Império Alemão.




Em casa, Hitler (na foto acima em 1899 na escola, Hitler é o que aparece mais ao alto, no centro da primeira fileira e em detalhe na foto menor) parece ter se tornado mais próximo da mãe, a qual, ao que tudo indica, era compreensiva. 
A desavença com o pai ganhou contornos mais graves quando Hitler anunciou o seu desejo de se tornar um artista plástico. Sim, Hitler adorava pintura e arquitetura. Por outro lado, a intenção de Alois era que o filho tentasse uma carreira mais tranquila no serviço público e por isso, desaprovou a escolha de Adolf. Teria dito que, enquanto fosse vivo, seu filho não seria um artista. Pois bem, em 1903 Alois faleceu e Hitler, aos 14 anos, pode pensar em tentar a sorte na carreira que escolhera. Mas, pouco tempo depois, a vida de Hitler foi abalada pela perda da mãe, vítima de cancro (câncer nos seios). 
Não havia mais razão para Hitler permanecer em uma cidade pequena. Apesar de ter se tornado órfão, surgiu a oportunidade para Adolf Hitler realizar o desejo de ser um artista. O local para isso era Viena, capital do Império Austro-Húngaro e um grande centro cultural naquele início de século XX. A Academia de Belas Artes era a escola ideal para Hitler entrar no meio artístico, ou talvez, tornar-se um arquiteto. Contudo, o jovem foi reprovado em duas oportunidades no exame de admissão. Além disso, a herança dos pais estava acabando, como também a ajuda para os órfãos, que expirou quando ele completou 21 anos.






Sem poder estudar e sem trabalho, Hitler viveu maus momentos, tendo que pintar pequenos cartões postais e aquarelas para sobreviver (nas imagens acima, desenho da cabeça de um cachorro e de uma catedral em Viena feitos por Hitler). Muitas dessas pinturas chegaram até nós e mostram uma tendência para a arte acadêmica e pelas paisagens, como também o gosto pelo desenho de casas, edifícios e igrejas. Hitler conseguia até tirar alguns trocados com a venda dessas pinturas, o que mostra que um pouco mais de persistência poderia te-lo tornado um artista razoável. Nessa época, Hitler chegou a dormir em albergues para mendigos e até, segundo as suas próprias palavras, a passar fome. Por outro lado, Hitler frequentou a Ópera de Viena e tornou-se admirador do compositor Richard Wagner pelo fato deste exaltar a tradição cultural germânica. 
Ao que parece, o ambiente antissemita da capital austríaca influenciou Adolf Hitler. Em Viena, Hitler teve contato com textos e panfletos hostis aos judeus. A comunidade judaica da capital austríaca era numerosa e se distinguia dos demais grupos étnicos pelas suas roupas e costumes tradicionais, sobretudo os judeus ortodoxos. O antissemitismo evoluiu para o plano político, com muitos parlamentares defendendo a doutrina e a tese da superioridade da raça ariana, inclusive com o surgimento do Partido Pangermânico. Nessa doutrina existiria uma inimizade natural entre os arianos e os judeus, sendo estes últimos vistos como contrários ao nacionalismo germânico.
Em 1913 aproveitando o que restou da herança do pai, Hitler deixou Viena, atravessou a fronteira com a Alemanha e se fixou em Munique, capital da Bavária (ou Baviera e também Bayern para os alemães). Dessa forma, realizava o desejo de morar em uma cidade mais identificada com a cultura germânica. Hitler também tinha aproveitado a mudança para tentar escapar do serviço militar no Império Austro-Húngaro. O plano não deu certo e ele foi obrigado a se alistar, sendo dispensado no exame médico por ser considerado inapto para a atividade militar.


De volta a Munique, Hitler voltou a vender cartões postais pintados por ele mesmo para sobreviver. Foram os momentos mais difíceis na sua vida. Alguns biógrafos, entre os quais Lothar Machtan chegaram a sugerir que Hitler teria realizado programas com homossexuais, que o teriam ajudado a sobreviver nessa época, algo difícil de ter uma comprovação mais precisa. Mas, eis que começou a Primeira Guerra Mundial em agosto de 1914. O conflito acendeu o nacionalismo germânico e Hitler alistou-se no Exército Alemão (na foto acima, Hitler exalta a mobilização para a guerra no meio da multidão em Munique). 


Durante o conflito, Hitler serviu na França e na Bélgica atuando como mensageiro e expondo-se ao perigo, por estar diante do fogo inimigo fora das trincheiras. Com uma folha de serviços considerada muito boa, Hitler foi promovido a cabo, a patente mais elevada dada a um soldado estrangeiro no Exército Alemão (na foto acima, Hitler ao lado de seus companheiros na guerra, o primeiro sentado à esquerda). 


Duas vezes condecorado com a Cruz de Ferro, sendo a última após ferimentos recebidos em combate que chegaram a tirar-lhe temporariamente a visão (na foto acima no hospital militar, Hitler é o segundo que está em pé, da direita para a esquerda). Quando recuperou a visão, Hitler viu a sua querida Alemanha derrotada na Grande Guerra.


Com o final do conflito em 1918, Hitler (na foto acima, o futuro líder da Alemanha, ainda como soldado e com capacete) já recuperado dos ferimentos, continuou no Exército e considerava que a derrota alemã diante dos aliados ingleses, franceses e norte-americanos tinha sido mais uma capitulação do que uma derrota. O país havia sido traído ao final do conflito e parte da responsabilidade cabia aos políticos civis e não ao governo imperial alemão, que havia sido derrubado em 1918. O sentimento revanchista e nacionalista já estava arraigado em Hitler e em outros veteranos de guerra. 
A permanência do cabo austríaco na atividade militar coincidia com o levante comunista na Alemanha, na passagem de 1918 para 1919, quando se temia que a Europa pudesse ser tomada por um movimento comunista internacional, gerado a partir da Revolução Russa de 1917. Contudo, o levante foi controlado com a prisão de vários líderes de esquerda, entre eles Rosa Luxemburgo, assassinada pela polícia alemã. Ao mesmo tempo, a Alemanha deixava de ser uma monarquia para se tornar república: a República de Weimar (nome da cidade onde foi aprovada a Constituição do novo regime). A república parlamentarista (com um presidente, mas tendo um primeiro-ministro como chefe de governo) durou até a ascensão de Hitler ao poder, em 1933. 
Nesse momento, Hitler exercia uma espécie de trabalho de espionagem nos agrupamentos políticos alemães, sobretudo os de esquerda. Os inimigos da Primeira Guerra, os comunistas e os judeus eram apontados pelos militares alemães como os grandes responsáveis pela situação em que a Alemanha se encontrava após o conflito. De fato, o Tratado de Versalhes assinado com os vencedores ingleses e franceses impôs condições humilhantes, como uma pesada indenização de guerra, a perda das colônias alemãs na África, de territórios da própria Alemanha na Europa (corredor polonês e os sudetos) e a limitação para a formação de forças militares, imposições que criaram um ambiente propício para o nacionalismo exaltado.


Em 1919, Hitler assistiu a algumas reuniões do pequeno Partido dos Trabalhadores Alemães na condição de observador (na verdade, espião). Contudo, ao verificar que, apesar do nome, a agremiação não era um partido de esquerda e sim de direita, Hitler aderiu ao mesmo no final de 1919. Muitos integrantes do partido comungavam das mesmas ideias que Hitler, como o nacionalismo germânico e o antissemitismo, entre eles Dietrich Eckart. Em 1920, já liberado do Exército, Hitler começou a participar de forma mais intensa do partido até se tornar o seu principal dirigente. Com a sua capacidade de oratória, Hitler (na foto acima de 1921, com o visual que o tornou famoso) logo passou a ser designado como o führer (o líder). O partido começou a reunir vários seguidores, muitos dos quais veteranos da Primeira Guerra. 


Foi nesse momento que ele sugeriu a mudança no nome da agremiação para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Na língua alemã, da abreviatura de Nacional Socialista temos o termo "Nazi", nome pelo qual o partido ficou mais conhecido. A "cruz suástica" (na imagem acima de 1924, Hitler uniformizado e com a braçadeira da suástica) associada à raça ariana e a saudação romana dada aos antigos imperadores (já utilizada pelos fascistas na Itália) foram adotadas para identificar o partido. Seguindo o modelo de Mussolini, o Partido Nazista instituiu um grupo paramilitar uniformizado: as S.A. ou tropas de assalto. Tal grupo era comandando por um nazista de primeira hora, o capitão Ernest Röhm. O grande modelo de liderança para Hitler, naquele momento, era Benito Mussolini, que se propunha a restaurar a grandeza da Itália. 


Em 1923, a Alemanha viveu uma terrível crise econômica, tendo de pagar a indenização imposta pelos aliados vencedores da Primeira Guerra. Em função disso, a emissão de papel-moeda cresceu de forma desordenada. O marco alemão sofreu uma desvalorização jamais vista na história, chegando um dólar norte-americano a ser trocado por 4 bilhões e 200 milhões de marcos alemães! Foi nesse momento que os nazistas resolveram dar uma demonstração de força e realizar uma tentativa de tomada do poder na província da Bavária e na sua principal cidade: Munique. Após se reunirem em uma cervejaria, os membros do Partido Nazista, incluindo Hitler (na foto acima, assinalado com um "x" em 1923) e o general Ludendorff, tentaram tomar o governo local, sendo duramente reprimidos pela polícia alemã. Foi o chamado putsch ou "golpe da cervejaria". Com o fracasso do movimento, Hitler foi preso e condenado a cinco anos de prisão. Mas, a pena foi reduzida para apenas oito meses em função de seu bom comportamento.


Na prisão Hitler pode receber a visita de seus companheiros do Partido Nazista, entre eles, Rudolf Hess (na foto acima, vemos Hitler, primeiro à esquerda e Rudolf Hess, segundo a partir da direita, na sala da prisão em 1924). Enquanto esteve preso, Hitler redigiu, com a ajuda de Hess, a sua autobiografia, o livro Mein Kampf ou "Minha Luta". Nessa obra, iremos encontrar aquilo que tornou o nazismo uma doutrina totalitária, de forma ainda mais extrema do que o similar italiano, o fascismo. O nacionalismo exagerado, o antissemitismo, a tese da suposta superioridade da raça ariana (que seria correspondente ao próprio povo alemão), o Estado acima do indivíduo e um ferrenho anticomunismo. A ideologia comunista de Karl Marx (aliás, um judeu) pregava a união dos trabalhadores de todos os países, portanto era internacionalista, algo que entrava em choque com o nacionalismo exacerbado proposto pelo nazismo. 


Ao sair da prisão (imagem acima) ainda no ano de 1924, Hitler pode reorganizar o Partido Nazista com o apoio de seus integrantes, entre eles Rudolf Hess, Ernest Röhm (chefe das S.A.), Herman Goering (ex-aviador na Primeira Guerra) e Joseph Goebbels, o mestre da propaganda do partido. 


Entre 1925 e 1930, Hitler moldou  seu personagem e o seu discurso para apresentar-se ao público, sempre com grande energia para eletrizar e envolver as massas. A sua postura era cuidadosamente trabalhada e ensaiada. Muitas fotos desses "ensaios" chegaram até nós (como na imagem acima, de 1925). Nesse momento, a situação econômica da Alemanha começou a melhorar, dando uma maior estabilidade para a República de Weimar. Em plena recuperação econômica, inclusive contando com a ajuda norte-americana, país com o qual a Alemanha começou a manter um comércio intenso, o ambiente não era tão favorável às pregações nazistas. 
Contudo, em 1929 veio a maior crise econômica do século XX, a partir do colapso da Bolsa de Nova Iorque. A Grande Depressão derrubou as exportações alemãs e impedia a importação das matérias-primas necessárias, gerando um desemprego em massa. Mais de seis milhões de trabalhadores alemães perderam as suas colocações. Nesse momento de crise, como destaca o historiador Eric Hobsbawm, o discurso nazista voltou a encontrar o ambiente propício para as suas pregações. O partido de Hitler cresceu no início da década de 1930 e elegeu muitos representantes no Reichstag (o Parlamento alemão). Contudo, os comunistas também ampliavam a sua participação. Em 1930 os nazistas tinham 107 representantes no Parlamento e os comunistas 77. O extremismo contagiou o ambiente político da Alemanha. O discurso nazista ganhava espaço dentro da classe média, entre os camponeses e junto aos capitalistas, que temiam o avanço dos segmentos mais à esquerda e ligados aos trabalhadores. 
Muitos grandes conglomerados industriais alemães apoiaram o nazismo, sobretudo a partir de 1932 e depois do mesmo chegar ao poder, no ano seguinte: os laboratórios da I. G. Farben (que depois da Segunda Guerra mudou de nome para Bayer), a Siemens, a Hugo Boss (que chegou a fabricar uniformes para o Exército Alemão e para a S.S.), o grupo siderúrgico Krupp (que teve participação ativa no rearmamento do Exército Alemão) e a Volkswagen (que surgiu dentro do próprio governo nazista a partir da proposta de fabricação de um carro popular, o nosso conhecido "Fusca"). Até empresas norte-americanas, como a Ford e a Kodak deram a sua colaboração com suas filiais na Alemanha. Muitas dessas indústrias utilizaram trabalho escravo de prisioneiros dos campos de concentração. Daí para chegar ao poder foi apenas mais um passo e pela via democrática parlamentar. 
Genialidade de um indivíduo ou o ambiente econômico e social propício é que favoreceu a chegada do nazismo ao poder? De qualquer forma, o que veio depois já é de pleno conhecimento da humanidade......
Para saber mais: Hitler (vários autores). Coleção História Viva. Ediouro Duetto Editorial Ltda., 2015. 
Crédito das Imagens: 
Hitler bebê, fotos do pai, da mãe, na escola, com os companheiros na Primeira Guerra e com capacete de soldado: Hitler.Coleção História Viva. Ediouro Duetto Editorial Ltda., 2015.
Desenhos feitos por Hitler: http://www.socialphy.com/posts/images-pics/4484/Paintings-and-drawings-by-Hitler.html.
Hitler no meio da multidão: O Segredo de Hitler: a vida dupla de um ditador. Autoria de Lothar Machtan. Rio de Janeiro. Editora objetiva, 2001, p. 60. 
Fotos de Hitler em 1921, com uniforme nazista, em 1923 dentro do automóvel, na prisão, saindo da prisão e ensaiando um discurso: http://jornalggn.com.br/noticia/a-vida-de-hitler-em-imagens.