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sábado, 31 de janeiro de 2015

Comodoro Cinerama: O Melhor Cinema do Brasil parte I



Houve uma época em que as principais capitais do Brasil já tiveram, nas suas áreas centrais, uma grande concentração de salas de cinema, as chamadas "cinelândias". No caso da cidade de São Paulo, essas salas se localizavam em torno do eixo formado pelas avenidas Ipiranga e São João. Praticamente todos esses cinemas desapareceram, com a honrosa exceção feita ao cine Marabá, que sobreviveu em meio à degradação do chamado "centro histórico" da capital paulista. O público que frequentava os cinemas de rua foi se retirando, desde a década de 1970, inicialmente para a região da avenida Paulista e rua Augusta e, em seguida, para os centros comerciais ou shoppings, que ofereciam maior segurança, comodidade, limpeza e, sejamos francos, deixando as classes ricas mais distantes dos mendigos, pedintes e da nossa triste realidade social. O público de hoje é menos diferenciado e menos democrático. Até a década de 1960, os cinemas de rua agregavam indivíduos da elite, das camadas médias e das classes populares, pois existiam também os cinemas de bairro.



Pois bem, uma dessas salas teve grande destaque em São Paulo: o cine Comodoro (na imagem acima, a anúncio da inauguração, em 1959). Em várias ocasiões, mesmo já no limiar de sua decadência, o Comodoro foi apontado como a melhor sala de cinema da capital paulista e, para muitos, do Brasil. Não tanto pela qualidade dos filmes que exibia, mas no que se referia aos quesitos técnicos, que o colocavam na condição de poder apresentar as grandes produções de Hollywood ou os chamados filmes épicos. A gigantesca tela em curva e o som estereofônico eram os grandes diferenciais do Comodoro em relação aos outros cinemas da capital paulista.


Inaugurado no dia 14.08.1959, em uma festa de gala para a imprensa e convidados (na foto acima, imagem da festa) foi a primeira sala de cinema do Brasil projetada especialmente para a exibição no processo Cinerama. A inauguração contou com a presença da Banda de Música da Força Pública. Uma viatura do Corpo de Bombeiros levou refletores para serem projetados à noite e iluminar a fachada do  cinema. Cordões de isolamento demarcavam a passagem dos convidados especiais para a sessão noturna. A presença do Presidente da República, Juscelino Kubitschek, chegou a ser anunciada, mas o mesmo não pode comparecer. 



O cine Comodoro foi idealizado pelo empresário Paulo Sá Pinto (foto acima, sem data), diretor-presidente das Empresas Cinematográficas Paulista e Sul, proprietária de outras salas importantes na capital paulista, como o já citado cine Marabá, além dos cines Ouro, República, Olido e Ritz. Sá Pinto nasceu em Minas Gerais, mas se estabeleceu em São Paulo, onde entrou para o ramo das salas de espetáculos e cinemas. Posteriormente, expandiu os seus negócios para o sul do Brasil, nas cidades de Curitiba e Porto Alegre. O empresário chegou a ter o controle de 60 salas de cinema em sete capitais do país. Mas foi em São Paulo que a sua empresa adquiriu maior prestigio e ficou conhecida, quebrando a hegemonia de outro empresário do ramo, Francisco Serrador. Sempre entusiasmado com as novas técnicas cinematográficas vindas de Hollywood, foi por sua iniciativa que foi exibido o primeiro filme em cinemascope (tela panorâmica) no Brasil, "O Manto Sagrado" (The Robe, 1953), no cine República, em São Paulo. Ao conhecer em Nova Iorque o processo Cinerama, resolveu trazer a novidade para cá. Para exibir filmes nesse novo formato, foi construído o Comodoro.


Todo o projeto do cine Comodoro foi feito com a supervisão de técnicos norte-americanos, que vieram ao Brasil especialmente para esse trabalho, uma vez que o cinema teria de obedecer aos padrões estabelecidos para a exibição em Cinerama (na foto acima, a instalação da tela do Comodoro, onde podem ser observados os alto-falantes frontais). Até hoje, os projetos do cine Comodoro se encontram arquivados nos Estados Unidos.


A película escolhida para a inauguração foi "Isto é Cinerama" (This is Cinerama), lançada em 1952 em Nova Iorque. Esse filme, na verdade um documentário, foi produzido especialmente para promover o processo de exibição da nova técnica (na foto acima, anúncio do filme, com imagem da fachada do cine Comodoro). 



Exatamente por isso, para entendermos o aparecimento desse cinema, que marcou a memória de muitos paulistanos (na imagem acima, a sala do Comodoro na época da inauguração), é necessário lembrarmos da técnica do Cinerama, surgida no início da década de 1950, a qual, juntamente com a terceira dimensão (sim, o 3D é antigo), o cinemascope, panavision e o som estereofônico, procuravam capacitar o cinema para enfrentar o seu grande inimigo naquele momento: a televisão. Era necessário encontrar formas de fazer a classe média norte-americana continuar a frequentar as salas de espetáculos, uma vez que o formato tradicional de exibição dos filmes não se mostrava mais tão atraente.
No mês anterior à inauguração do Comodoro, Harry Goldberg, diretor-publicitário da Stanley Warner Cinerama Corporation, organização produtora e distribuidora das películas em Cinerama, veio ao Brasil para promover o lançamento. Em um coquetel para a imprensa, ele descreveu a evolução e o funcionamento do Cinerama. O desenvolvimento desse sistema levou aproximadamente 15 anos, culminando em 1952 com a apresentação do já citado filme "Isto é Cinerama". Fred Waller (1896-1954) foi o inventor do processo, que também teve a participação do engenheiro de som Hazard Reeves, que aperfeiçoou a distribuição dos alto-falantes nas salas de cinema. Além desses dois, o produtor Lowell Thomas foi o responsável pela realização dos primeiros filmes pelo novo processo.


A palavra "cinerama" (acima, o logo do sistema) é o resultado da fusão dos termos cinema e panorama, em função da boa visualização proporcionada por essa tecnologia, para imagens em grandes dimensões. Ao contrário do processo em terceira dimensão, que dá a impressão de que a pessoa ou objeto focalizado sai da tela, indo de encontro ao espectador, no Cinerama é o espectador que é "absorvido" pela imagem. Por exemplo, na apresentação de uma viagem de montanha-russa, quem está assistindo tem a sensação visual de estar no próprio carrinho.
Fred Waller desenvolveu uma forma de expandir a tela de cinema convencional, dando a ilusão da profundidade, fazendo com que o público se tornasse parte do espetáculo. Na imagem de cinema comum, apenas o centro da cena é visualizado. O que estiver fora desse enquadramento só poderia ser visto se a câmera promovesse a sua focalização. Waller criou uma câmera com 3 lentes objetivas (ou câmera trifocal), as quais funcionavam com três rolos de filmes, um para cada lente. Cada uma delas cobria um terço dos 146 graus formados na tela que receberia a projeção. Todas as cenas eram filmadas nessa câmera trifocal. Ao mesmo tempo, tudo era acompanhado por um sistema de som adaptado especialmente para a filmagem nesse processo. Microfones eram espalhados por toda a área que a câmera cobria e o som gravado em sua própria fonte de origem. Dessa forma, Waller substituiu o sistema tradicional, onde um único microfone recebia todos os sons.
Em 1939, Fred Waller conheceu o engenheiro de som Hazard Reeves na Feira Mundial de Nova Iorque e o trabalho dos dois levou ao aperfeiçoamento definitivo do Cinerama, na parte visual e sonora. Na sala de cinema, alto-falantes espalhados por todo o recinto, criavam a impressão do som vir de todos os lados, como ocorre na realidade. Era um sistema de som multidimensional.  Em 1949, a técnica já estava plenamente desenvolvida, combinando som e imagem em grandes dimensões.


Dessa forma, a exibição sob o processo Cinerama exigia salas e equipamentos especiais. A começar pela tela, que tinha 146 graus de curvatura, 20 metros de comprimento por 7 metros de altura (na foto acima, a tela com o formato para Cinerama, do cine Comodoro).


Três projetores para películas de 35 milímetros, funcionando de forma simultânea, exibiam o filme. Cada projetor cobria um terço da tela, sendo que as três partes formavam a cena completa. O som de "alta fidelidade" ou estereofônico era reproduzido por 10 alto-falantes distribuídos em cada lado da sala, inclusive atrás da tela. Além dos indivíduos que cuidavam dos projetores, um operador de som ficava na extremidade direita da sala e um técnico de imagens trabalhava no centro inferior da tela (como no desenho mostrado acima).



Contudo, a técnica do Cinerama apresentava imperfeições na junção das três imagens na tela (na foto acima, as linhas verticais das emendas, separando as três partes que eram projetadas) e no sincronismo dos aparelhos de projeção. Outro aspecto negativo, apontado pelos críticos de cinema, referia-se ao fato de que a técnica era na verdade uma forma de entretenimento visual, adequada para cenas panorâmicas com grandes espaços ou paisagens. Para o cinema de arte ou para cenas que exigiam o foco da câmera, o sistema se mostrava inadequado. Tanto isso foi um fato, que a maior parte dos filmes realizados nesse processo eram, na verdade, documentários. Apenas um filme de longa-metragem e com história foi produzido no processo Cinerama original: "A Conquista do Oeste" (How the West Was Won, 1962). O curioso é que a fita não foi exibida no Comodoro. 


Além da primeira produção, "Isto é Cinerama", vieram depois "Cinerama Holiday" (1955), "As Sete Maravilhas do Mundo" (Seven Wonders of the World, 1956), "Cinerama Em Busca do Paraíso" (Search for Paradise, 1957), "Aventuras nos Mares do Sul" (South Seas Adventures, 1958) e "Velas ao Vento" (Windjanmer, 1958). Todos esses filmes produzidos em Cinerama foram exibidos e reprisados no Comodoro, entre 1960 e 1965 (como no anúncio acima, de "As Sete Maravilhas do Mundo", de 1960).
Contudo, o Cinerama deixou de ser uma novidade e os filmes voltados apenas para a diversão visual se tornaram repetitivos. Além disso, as películas nesse formato não podiam ser exibidas em todas as salas de cinema, limitando a distribuição. A fim de adequar o processo aos filmes com enredo, passou-se a utilizar a película de 70 milímetros de largura, garantindo a exibição em grandes telas, sem a necessidade dos três projetores e permitindo, em grande parte, a exibição das cenas panorâmicas. Em função disso, o Comodoro passou por uma adaptação e reabriu em 1966, exibindo filmes nesse novo formato. 
Muitas superproduções, como "Os Dez Mandamentos", "E o Vento Levou", "Ben-Hur", "Lawrence da Arábia", entre outros, puderam ser exibidos em tela grande e em cópias novas no formato 70 mm. O cine Comodoro chegou ao seu auge nas décadas de 1970 e 1980, e ainda conheceu uma outra novidade técnica vinda de Hollywood, embora também passageira: o Sensurround. O Comodoro dispunha de uma aparelhagem sonora de grande capacidade e chegou até a receber concertos musicais ao vivo. É o que veremos na segunda parte desta postagem...

Para saber mais: grande parte das informações contidas nesta postagem foram obtidas em consultas aos arquivos digitais dos jornais da época: O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Folha da Manhã. Além dos jornais, recorremos também ao excelente blog Salas de Cinema de São Paulo: salasdecinemadesp.blogspot.com.br. 
Crédito das Imagens:
Fotos da inauguração do cine Comodoro, do empresário Paulo Sá Pinto, da montagem da tela, da platéia, anúncio do filme "Isto é Cinerama" e da tela em curva foram tiradas do blog Salas de Cinema de São Paulo,
Anúncio do filme "Cinerama Holiday": jornal Folha de S. Paulo, 20.12.1960, caderno Ilustrada, pag. 14. 
Anúncio da inauguração do Comodoro, com "Isto é Cinerama": Folha da Manhã, 26.07.1959, pag. 6. 
Anúncio do filme "As Sete Maravilhas do Mundo": jornal Folha de S. Paulo, 20.03.1960, caderno Ilustrada, p. 8.
Ilustração mostrando a exibição dos três projetores: agência Estado (acervo do jornal O Estado de S. Paulo). 
Foto das imperfeições no Cinerama: compiscentro.info/blog/csc/bad-cinerama.html.  
Foto do logo Cinerama: capa da trilha sonora do filme "2001: Uma Odisséia no Espaço". 








domingo, 18 de janeiro de 2015

Anúncio Antigo 33: As Torres Gêmeas



"Uma sombra ronda Nova Iorque, a sombra do terrorismo". Parafraseando a famosa frase do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, publicado em 1848, parece ser isso o que este anúncio, da Pakistan International Airlines (PIA), sugere. O material publicitário foi publicado em 1979, ou seja, muitos anos antes dos ataques de 11.09.2001. Contudo, não deixa de ser algo estarrecedor esta antevisão da tragédia, que o governo norte-americano não nos deixa esquecer e insistir que a mesma seja também uma tragédia de toda a humanidade. Não há dúvida que se deva lamentar pelas vítimas, que morreram sem saber exatamente o que estava ocorrendo e muito menos qual era o objetivo daquele ataque, atribuído aos terroristas islâmicos, mais precisamente à organização Al Qaeda, de Osama Bin Laden. Mas, como o conhecimento histórico teima em se fazer presente, sabemos que ataques dessa natureza não são privilégios dos muçulmanos e as bombas atômicas lançadas sobre Hiroxima e Nagasaki, pelos norte-americanos, na Segunda Guerra Mundial, aparecem como exemplos a serem lembrados. O próprio termo Terror, utilizado no sentido político, tem a sua origem na Revolução Francesa. 


Verdadeiro símbolo do capitalismo norte-americano, embora não mais do que o Empire State Building ou o Chrysler Building, as torres gêmeas (na imagem acima, as mesmas vistas do rio Hudson, em foto de 1998) foram inauguradas oficialmente em 04.04.1973 e eram, na ocasião, os edifícios mais altos do mundo. A construção durou de 1966 a 1973. Na verdade, era um complexo de 7 edifícios (incluindo as duas torres famosas), que formavam o World Trade Center ou WTC, como os novaiorquinos conheciam. O complexo foi planejado para revigorar a área do Lower Manhattan, no sul da ilha. A ideia do WTC surgiu em 1943 e os planos originais foram suspensos em 1949. Na década de 1960, as pendências entre a Prefeitura e a Autoridade Portuária de Nova Iorque começaram a ser resolvidas. Minoru Yamasaki foi escolhido como arquiteto-chefe do projeto. Em 1964, o plano foi apresentado ao público. A construção do complexo começou em 05.08.1966. A chamada Torre Norte recebeu inquilinos em seus escritórios em dezembro de 1970 e a Torre Sul em janeiro de 1972. Segundo alguns cálculos, talvez exagerados, em um dia normal, perto de 50 mil pessoas trabalhavam nas torres e até 200 mil passavam pelas mesmas, na condição de visitantes.
Os ataques de 11.09.2001 não foram os primeiros a serem feitos por terroristas islâmicos ao WTC. Um primeiro atentado ocorreu em 26.02.1993, quando um caminhão cheio de dinamites, foi colocado na garagem do complexo WTC e explodiu. Um terrorista chamado Ramzi Yousef foi apontado como responsável por colocar o veiculo e a ideia era de que a explosão derrubasse uma torre sobre a outra. Seis pessoas morreram nesse atentado, sendo que seis terroristas foram presos e condenados à morte. Em julho de 2001, pouco antes dos atentados que destruíram definitivamente as torres gêmeas, o complexo WTC foi transferido pela Autoridade Portuária de Nova Iorque a um consórcio particular, ou seja, foi privatizado.
Pois bem, como é de amplo conhecimento, dois aviões da American Airlines foram sequestrados e jogados em direção às duas torres, em 11.09.2001. O voo 11 atingiu a Torre Norte às 8:46 e apenas 11 minutos depois, o voo 175 atingiu a Torre Sul, que foi a primeira a desabar. Outros edifícios do complexo WTC também foram afetados, como o hotel da rede Marriot e o edifício 7, que desabou. Os outros três edifícios restantes sofreram danos tidos como irreversíveis e posteriormente condenados. Um número de 2.752 atestados de óbitos foram emitidos referentes às vítimas do ataque ao WTC. Mas há que considerar também, o grande número de pessoas que sobreviveram ou que participaram dos trabalhos de resgate, sobretudo bombeiros, que ficaram com sequelas, muitas das quais irreversíveis. Nesse sentido, o número de vítimas pode ser calculado em uma proporção bem maior. 


Até então, os novaiorquinos pareciam não ter tido muita simpatia pelas torres gêmeas, sobretudo em relação aos outros dois edifícios, os quais, em termos arquitetônicos, representariam melhor a cidade: os edifícios Empire State e o Chrysler (na imagem acima, o Chrysler Building, em 1998). Existia até uma piada, de que as torres gêmeas nada mais seriam do que as "caixas de presentes" onde foram embalados os dois outros edifícios citados. 



O anúncio antigo de hoje traz algumas coincidências em relação aos atentados contra as torres gêmeas, além da sombra do avião projetada sobre as mesmas. Trata-se de uma companhia aérea paquistanesa, ou seja, de um país muçulmano, conhecida e tradicional, tendo sido fundada em 1946 (na imagem acima, o logotipo de empresa). O logo da companhia aparece na caligrafia ocidental e local. O outro detalhe interessante, diz respeito ao fato do Paquistão ter sido o pais onde Osama Bin Laden, apontado como o maior responsável pelos atentados de 11.09.2001, morreu.
O Anúncio Antigo de hoje foi extraido da seção "Reclames do Estadão" e a mesma não cita o local e o veículo onde o material foi publicado originalmente, a não ser o ano de 1979. O anúncio está em francês.
Crédito das Imagens: 
Anúncio da PIA: http://blogs.estadao.com.br/reclames-do-estadao/category/aviacao/ Acessado em 05.08.2012.
Logo da PIA: Wikipédia.
Fotos do WTC e do edifício Chrysler: acervo do autor. 



domingo, 11 de janeiro de 2015

Moisés, Ramsés II e o Êxodo



Não há a menor dúvida de que as narrativas da Bíblia despertam o interesse de milhões de pessoas. Primeiro por ser parte de uma tradição que influenciou diretamente três religiões: a judaica, a cristã e a islâmica. Segundo, por fazer referência aos povos da Antiguidade, cujo legado chegou até nós e moldou a nossa cultura ocidental. Por outro lado fica a dúvida para alguns, de como interpretar tais eventos: aos olhos da fé ou da razão? 
O estudo das religiões e dos mitos requer a perspectiva da compreensão de seus significados para as várias sociedades e civilizações. Para a estudiosa da História das Religiões, Karen Armstrong, os mitos se sobressaem nos momentos de profunda angústia do homem em relação aos problemas concretos da sua existência, os quais muitas vezes não podem ser solucionados de forma puramente racional. O mito busca, por meio das situações passadas, servir de modelo para que as comunidades e sociedades possam transpor determinadas etapas, sendo relembrados por meio de cerimônias ou ritos de passagem, os quais cumprem a tarefa de preparar os indivíduos para situações reais, como por exemplo, a possibilidade de uma guerra, os períodos de fome e o enfrentamento da morte. Da mesma forma que a ciência e a tecnologia, os mitos não estão desconectados do mundo real, pelo contrário, auxiliam o homem a viver de forma plena dentro do mesmo. Nesse sentido, os mitos não necessitam ser interpretados de forma literal ou vistos apenas pelo ponto de vista de serem verdadeiros ou não.
Por sua vez, para o historiador, os textos bíblicos constituem também uma importante fonte para o conhecimento histórico e como tal devem ser interrogados, analisados e confrontados com outras informações. O que mais se têm tentado fazer, por influência do cientificismo do século XIX, é a busca de vestígios arqueológicos, que pudessem amparar os fatos citados na Bíblia. Por outro lado, o estudo apurado dos textos bíblicos feito por eruditos, linguistas e especialistas em História das Religiões pode também trazer informações substanciais, inclusive sobre a influência das demais correntes religiosas da Antiguidade na formação da tradição monoteísta dos hebreus. Evidentemente, a fé em Deus é algo que cabe à individualidade de cada um, até mesmo do historiador. A analise dos fatos históricos, por sua vez, está inserida nos parâmetros metodológicos estabelecidos pela historiografia e do estudo das fontes.
Por falar em fontes, aí está o grande problema com relação aos eventos bíblicos, pois, quanto mais retroagimos no tempo, mais nos defrontamos com a escassez das mesmas, sobretudo as escritas. Em muitas situações, dispomos apenas da própria Bíblia. É o caso dos tempos em que ocorreu a presença dos hebreus no Egito, do Êxodo e da figura de Moisés (na imagem acima, estatua representando o personagem bíblico, esculpida por Miguel Ângelo e concluída em 1515). 



As narrativas bíblicas apontam que, por volta do ano 1.600 a.C., os hebreus deixaram a antiga Canaã (parte da atual Israel, como mostra o mapa acima) e foram viver em terras egípcias. Os hebreus? É complicado afirmar que nessa época os hebreus constituíssem uma coletividade homogênea e que já estivessem seguindo o deus único, Iavé ou Jeová. Muito provavelmente tratava-se de um conjunto de tribos, talvez as 12 tribos citadas no Antigo Testamento (primeira parte da Bíblia). As terras de Canaã comportavam também outras populações de origem semita, que não eram necessariamente parte das famílias hebraicas, mas que conviviam no mesmo território, conhecidas de forma geral como cananeus. Possivelmente, algumas delas também tenham se deslocado para o reino dos faraós.



As condições naturais do Egito, com as cheias do rio Nilo, proporcionavam uma agricultura desenvolvida para a época. A construção dos canais de irrigação aprimorou essa atividade e, com certeza, pode ter atraído outras populações para aquele reino, em busca de alimentos. De acordo com o Antigo Testamento, os hebreus teriam permanecido lá por quase 400 anos e com o tempo acabaram sendo escravizados. A situação teria atingido o seu pior momento nos reinados dos faraós Seth I e de seu filho, Ramsés II, no século XIII a. C.. Com relação a este último monarca, relacionado por muitos estudiosos com a época do Êxodo, existem fontes materiais e documentais, inclusive a sua própria múmia (na imagem acima, a múmia de Ramsés II, no Museu do Cairo). Nenhuma dessas fontes, porém, relaciona esse faraó com os hebreus. Aliás, a própria Bíblia não cita o nome desse faraó. 



Alguns historiadores, inclusive, consideram que o Êxodo poderia ter ocorrido no reinado de algum outro rei egípcio, como Tutmés III, que reinou antes de Ramsés e promoveu a expansão do Egito em direção ao Oriente Médio. Como um evento da dimensão do Êxodo, que teria envolvido centenas de milhares de indivíduos, passou despercebido no próprio Egito, não sendo mencionado pelos escribas dos faraós? Exatamente isto é o que intriga os estudiosos e historiadores. O texto bíblico começou a adquirir forma escrita aproximadamente 700 anos após o evento ter ocorrido (na foto acima, o mais antigo fragmento de texto bíblico conhecido, escrito em folha de prata, referente ao Livro dos Números, datado do século VII a. C.). Como observamos anteriormente, isso não significa desprezar por completo as narrativas bíblicas, mas talvez coloca-las em sua devida dimensão e de acordo com o contexto histórico daquele momento.


As informações sobre a origem do povo hebreu também são imprecisas. Aliás, a referência mais antiga a respeito dos israelitas é uma inscrição encontrada no próprio Egito, datada do reinado do faraó Merneptah, que governou entre 1.224 e 1.214 a. C. e que foi sucessor de Ramsés II. Uma estela de pedra refere-se às campanhas militares desse rei egípcio em Canaã (atual Israel), onde viviam os israelitas, mencionados na segunda linha da inscrição, contada de baixo para cima (na imagem acima, a estela de Merneptah). Tal referência colocava os hebreus dentro de um conjunto de tribos de pastores espalhadas pelas montanhas de Canaã.


Mas, voltemos ao Êxodo. Os hebreus que viviam no Egito poderiam ter feito parte de um grupo ou estamento social inferior, conhecido pelo nome de Habiru ou Apiru. Do primeiro termo, talvez tenha surgido a palavra hebreu. Nessa condição, teriam sido obrigados a participar da construção do templo de Seth I (na imagem acima, a múmia de Seth I, pai de Ramsés II) e na nova cidade de seu sucessor, Ramsés II, o qual reinou entre 1.290 e 1.224 a.C.. Estes dois reis fizeram parte da XIX Dinastia de faraós que governaram o Antigo Egito. Nessa época, teria vivido Moisés. Quando de seu nascimento, o faraó teria decretado que todos os bebês hebreus recém nascidos deveriam ser afogados no rio Nilo. Contudo, Moisés teria sido recolhido das águas e salvo pela própria filha do faraó, crescendo na condição de príncipe da corte egípcia. O próprio nome Moisés, que significa "tirado das águas" é egípcio, lembrando o nome dos reis locais, como o próprio Ramsés. Adulto, Moisés liderou a luta para que seu povo pudesse sair da escravidão e retornar à terra de origem. 


De fato, Seth e Ramsés II foram grandes construtores (na imagem acima, detalhe dos colossos de Abu Simbel com 20 metros de altura, representando o faraó Ramsés II). Contudo, muitos egiptólogos (estudiosos do Antigo Egito) atribuem também a Ramsés o fato de ter usurpado as obras de reis anteriores, mandando raspar o nome dos mesmos. De qualquer forma, isso não tirou-lhe a fama de construtor de cidades e templos.


Para pressionar o faraó, Moisés e Aarão, seu irmão, lançaram as pragas sobre o Egito, a fim de demonstrar os poderes do Deus hebreu. Novamente aqui a dúvida dos historiadores. Os papiros e inscrições não mencionam essa série de pragas, embora a possibilidade de que tais acontecimentos pudessem ocorrer no Egito, fosse verificada. Na descrição das pragas, o texto bíblico remete à alguns aspectos da ecologia do Egito Antigo, como por exemplo, os reveses que poderiam acompanhar as enchentes do rio Nilo, o excesso de lodo trazido pelas águas e os pequenos animais fugindo das inundações, como escorpiões, cobras e rãs, os quais tentavam alcançar os terrenos mais altos (na foto acima, a técnica de construção dos canais de irrigação, usada no Egito até hoje). Essas enchentes, fora dos padrões habituais, poderiam influenciar as colheitas, em função da demora para as águas baixarem e ter início a semeadura. Uma colheita ruim poderia, inclusive, prejudicar a imagem do faraó perante os seus súditos. De acordo com os textos bíblicos, a última dessas pragas atingiu o primogênito de Ramsés II, fazendo com que ele atendesse aos pedidos de Moisés. Os cálculos complexos, realizados por especialistas, apontam o ano de 1.250 a.C., como tendo sido a época do Êxodo, que coincide com o reinado desse conhecido faraó, o qual governou por mais de 60 anos.
Após o rei do Egito permitir que os hebreus retornassem a Canaã, Moisés acabou ele mesmo conduzindo a retirada de seu povo, levando-o até uma massa de água conhecida como "Mar dos Juncos", que muitos identificaram como sendo o Mar Vermelho. O mar se abriu e os hebreus o transpuseram. Posteriormente, Moisés conduziu os israelitas até as encostas do monte Sinai, na península do mesmo nome, que separa a África do Oriente Médio, onde recebeu as leis divinas ou "Tábuas da Lei", contendo os 10 Mandamentos. Os hebreus estabeleceram, nesse momento, a aliança com Deus ou Iavé e empreenderam, durante 40 anos, o retorno para Canaã. 
Do ponto de vista histórico, muitas dúvidas podem ser lançadas sobre os relatos do Êxodo. A primeira diz respeito aos hebreus terem sido escravizados. A escravidão no Antigo Egito era uma forma de trabalho suplementar, uma vez que grande parte das obras eram realizadas pela própria população camponesa, que prestava serviços ao Estado. O escravismo antigo só se desenvolveu de forma plena na Grécia e no Império Romano. Outro aspecto diz respeito à logística exigida para um deslocamento populacional no deserto, envolvendo centenas de milhares de pessoas, algo impensável naquela época. O Mar Vermelho pode não ser o local da travessia, que poderia ter sido feita pelo istmo do Sinai (onde hoje está o canal de Suez), na época o "mar dos juncos". Do ponto de vista religioso, a unidade dos hebreus em torno de seu único Deus somente seria alcançada séculos depois, nos tempos dos reis David e Salomão. 



A unidade política do tempo da monarquia é a que apresenta mais evidências arqueológicas, que podem permitir aos estudiosos analisar os fatos, além daquilo que é descrito no Antigo Testamento (na foto acima, uma inscrição em aramaico, do século IX a.C., que contém a mais antiga referência à dinastia do rei David). 
Por outro lado, a época do Êxodo foi uma fase de grandes deslocamentos populacionais no Oriente Médio. O conflito dos egípcios com os hititas (que viviam na Ásia Menor, onde hoje é a Turquia), a chegada dos "povos do mar" (procedentes de algum ponto do Mediterrâneo), que ameaçaram o Egito após o reinado de Ramsés II. Os invasores filisteus, que se estabeleceram na Palestina e se tornaram vizinhos dos hebreus e dos cananeus (daí vem a origem do nome Palestina, "terra dos filisteus"), trouxeram dificuldades para o estabelecimento de uma unidade política entre as tribos hebraicas. Isso sem contar a ascensão dos assírios, no norte da Mesopotâmia, que viriam a dominar o Oriente Médio. 
Enfim, a perspectiva de que sejam encontradas evidências materiais e documentais para o Êxodo, fora dos textos bíblicos, são muito remotas. Por sua vez, os textos bíblicos também lançam luzes sobre as origens da primeira religião monoteísta da Antiguidade. A pureza nas crenças religiosas era algo muito distante da realidade dos hebreus, no século XIII a. C.. O nome Israel, por exemplo, pode ser uma referência à antiga divindade "El", adorada pelos cananeus. Nesse sentido, o Êxodo têm um significado como marco fundador para os antigos israelitas e na sua luta para se estabelecer na Palestina, que envolveu também o enfrentamento de Iavé com outras divindades locais, como "Baal" e "Asherá".
Se, na condição de historiadores, fizermos uma leitura "ao pé da letra" do texto bíblico, muitas dúvidas ficarão sem resposta. Por sua vez, lembramos novamente que os mitos têm relação íntima com as dificuldades enfrentadas pelos indivíduos, para buscarem a sua afirmação enquanto povo ou nação. No caso dos hebreus, isso não foi diferente......
Para saber mais:
Raymond P. Scheindlin. História Ilustrada do Povo Judeu. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
Crédito das Imagens:
Estátua de Moisés: Miguel Ângelo. Editora Taschen, 1998, pag. 51.
Mapa do Oriente Médio Antigo. Raymond P. Scheindlin. História Ilustrada do Povo Judeu. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, pag. 27.
Mumia de Ramsés II. Egito: Terra dos Faraós. Coleção Civilizações Perdidas. Rio de Janeiro: Abril Coleções, 1998, pag. 8.
Fragmento de texto bíblico e estela de Mineptah: John Romer. Testamento: os textos sagrados através da história. São Paulo: Editora Melhoramentos, 1991, pags. 89 e 41.
Múmia de Seth I e colossos de Ramsés II: O Mundo Egípcio (volume 2), Coleção Grandes Impérios e Civilizações. Edições del Prado. 1996, pag. 220 e capa.
Canal de irrigação moderno. O Antigo Egito. Biblioteca de História Universal Life. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1969, pag. 46. 
Inscrição contendo referência à dinastia do rei David: Tesouros da Terra Santa: do rei David ao cristianismo. Catálogo da Exposição do MASP em São Paulo, 2012, pag. 22.