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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Comodoro Cinerama: O Melhor Cinema do Brasil parte final



Sucesso de público, mas não de crítica! E por quê? O formato cinerama, como destacamos nas postagens anteriores sobre o cine Comodoro (Comodoro Cinerama: o Melhor Cinema do Brasil partes I e II), não era apropriado aos chamados "filmes de arte", cujos enquadramentos poderiam ser distorcidos pela tela panorâmica e em curva. Tal situação aplicava-se muito às produções europeias. Nenhum filme de Fellini, Bergman, Visconti, Buñuel ou Truffualt foi exibido na conhecida sala. O mesmo ocorria com os filmes nacionais, que nem sequer eram copiados no formato 70 milímetros (mm). Para os críticos mais rigorosos no que se refere à arte cinematográfica, como Rubem Biáfora, que por muitos anos comentou os lançamentos semanais de filmes no jornal "O Estado de S. Paulo", o cinerama era um desserviço à sétima arte. Claro que essas observações, pertinentes aliás, não prejudicaram o gosto do público pela sala e pelos filmes lá exibidos, como por exemplo, o suspense "Terror na Montanha Russa" (Rollercoaster1977), lançado no sistema sonoro Sensurround (o mesmo de "Terremoto") e em cartaz no ano de 1978 (imagem acima). 




Pois bem, feitas essas ressalvas, iniciamos aqui a última parte da trajetória do Comodoro Cinerama. Na segunda metade da década de 1970 a sala exibiu inúmeras reprises de clássicos de Hollywood e produções épicas. Além de "...E o vento levou", "Jesus Cristo Superstar", "Lawrence da Árabia" e "A Filha de Ryan" tivemos em 16.10.1976 a reestréia de "2001: Uma Odisséia no Espaço" (2001: A Space Odyssey, 1968). A passagem pelo Comodoro deu ao filme do diretor Stanley Kubrick uma notoriedade ainda maior. A fita veio em cópia nova, no formato 70 mm e com 6 faixas de som estereofônico (nas imagens acima, o anúncio publicado nos jornais da época e uma cena do filme). Evidentemente, a belíssima trilha sonora, com destaque para "Assim Falou Zarathustra" de Richard Strauss e "Danubio Azul" de Johann Strauss, na execução da Orquestra Filarmônica de Berlim, ganhava um brilho muito maior no Comodoro do que nas salas convencionais. Aqueles que tiveram o privilégio de assistir ao filme nesse cinema (é o caso deste que vos escreve) jamais esqueceram do belo espetáculo visual e sonoro. 



Os musicais eram um espetáculo à parte quando exibidos no Comodoro Cinerama, em função da ótima qualidade do som (na imagem acima, o documentário "Isto Também Era Hollywood", em cartaz no ano de 1977). 



Um fato marcante para o Comodoro nessa época foi a vinda do diretor italiano Franco Zeffirelli. No dia 29.06.1979 ele participou da "avant premiére" de seu filme "O Campeão" (The Champ, 1978) estrelado por John Voight (pai da atriz Angelina Jolie) e Faye Dunaway. A renda dessa sessão especial do cine Comodoro foi revertida para o Fundo de Assistência Social do Palácio do Governo de São Paulo (cujo governador, na época, chamava-se Paulo Maluf). O filme era um drama que girava em torno da briga de um boxeador decadente com a ex-esposa, pela posse do filho. A fita foi um enorme sucesso de bilheteria em São Paulo (na imagem acima, o anúncio do filme). 
Nesse distante ano de 1979, os cinemas de rua do centro de São Paulo já começavam a dar os primeiros sinais de declínio, que depois veio a se mostrar irreversível. Na edição do dia 30 de dezembro daquele ano, uma pequena matéria publicada no jornal "O Estado de S. Paulo" divulgava uma pesquisa feita junto ao público frequentador, de algumas salas de exibição na região, entre as quais estavam os cines Ipiranga, Marrocos, Copan e Coral. As maiores reclamações referiam-se ao sistema de ar condicionado, os quais apresentavam constantes defeitos, a presença de pulgas nos assentos e a condição imprópria dos banheiros. Os exibidores e proprietários das salas pareciam não mostrar grande preocupação com a manutenção das mesmas e até culpavam o próprio público frequentador, de levar as tão temíveis pulgas para as salas de exibição, algo que não eximia os responsáveis em fazer o controle desse tipo de praga. O cine Comodoro não foi mencionado na matéria com relação aos problemas apontados. Por outro lado, a sala era reconhecida como sendo a mais rentável do centro da cidade. 



O Comodoro não era obrigado a exibir curtas metragens (o famoso Canal 100, por exemplo) e nem os filmes nacionais, uma vez que alegava operar com projetores para cópias em 70 mm. O normal, para a grande maioria das salas, era o formato 35 mm (na foto acima, um técnico manuseia uma película de filme com largura de 7o mm). Mais tarde, percebeu-se que os equipamentos eram compatíveis para o formato 35 mm. 



Talvez em função das reclamações do público em relação aos cinemas de rua da capital paulista, o cine Comodoro fechou temporariamente para uma grande reforma, que durou 90 dias, sendo anunciada pela direção como uma remodelação completa. Ar condicionado, piso e os banheiros foram renovados. Além disso, foi feito um revestimento interno em gesso, poltronas novas foram instaladas, troca dos equipamentos de som e colocadas novas cortinas douradas. De acordo com a direção do cinema, em matéria no jornal Folha de S. Paulo de 01.09.1979, a reforma foi a primeira que o cinema recebeu desde que foi inaugurado, em 1958. 
A direção atribuía o mau estado em que a sala se encontrava, antes dessa reforma geral, ao aumento da frequência do público muito jovem, que deixou o cinema "arrebentado". A reforma foi feita inclusive, de modo a desviar a atenção do público para os objetos mais frágeis. Bom, de fato esse público pode ter crescido durante a exibição do musical "Grease, nos Tempos da Brilhantina", com os astros da onda "disco" John Travolta e Olivia Newton-John, entre os anos de 1978 e 1979 (imagem acima). Os espectadores chegavam até a dançar dentro do cinema durante o filme e muitos tiveram que assistir as sessões em pé, nos horários mais concorridos dos finais de semana. 



Filas enormes chegavam a dobrar o quarteirão onde o cinema estava localizado (como na foto acima, do início de 1979). 



A reforma contrariava a tendência de alguns cinemas tradicionais de São Paulo, sobretudo aqueles que dispunham de platéia no andar superior (na imagem acima, uma foto rara da platéia superior do Comodoro Cinerama). A opção era a de dividir as salas, como ocorreu com o cine Metro, fazendo surgir o Metro 1 e o Metro 2. O cine Ipiranga também foi dividido. 



No dia 22.12.1979, um sábado, o Comodoro reabriu as suas portas, após três meses, para estrear o filme "O Sargento Pepper e sua Banda", musical inspirado no disco dos Beatles "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" (na foto acima, a fachada do cinema em janeiro de 1980, logo após a reabertura). O cinema se preparava para a sua fase derradeira como sala de exibição de grandes produções. 




Na primeira metade da década de 1980, o Comodoro pareceu ter vivido o seu ultimo período de esplendor, entre as reexibições e os lançamentos, agora não mais exclusivos da sala como na década anterior. Entre as reprises, o destaque vai para o recordista de Oscars "Ben Hur" (idem, 1959). O épico foi apresentado para as gerações mais novas que não haviam visto o seu lançamento e nem as reapresentações em outras salas de cinema da capital paulista, como no cine Windsor (nas imagens acima, o anúncio do filme no Comodoro e um fotograma da cena panorâmica da corrida de bigas). O filme veio em cópia nova de 70 mm e com som dolby stereo



A cena da corrida de bigas acabou por se tornar o grande destaque, uma vez que a película em 70 mm expandia a imagem (como pode ser observado na ilustração acima, tendo à direita o filme 70 mm e à esquerda, o filme convencional de 35 mm, que era o mais utilizado). A trilha sonora (composta por Miklos Rosza) era ainda mais valorizada pelo sistema de som estereofônico dolby



Também nessa fase tivemos os filmes da série Indiana Jones, como "Os Caçadores da Arca Perdida" e "Indiana Jones no Templo da Perdição" dirigidos por Steven Spielberg, sendo que neste ultimo a bela sequência de abertura com as bailarinas sapateando, no qual era possível sentir o som dos sapatos batendo no chão, tornou-se um espetáculo inesquecível para aqueles que, como eu, tiveram o privilégio de ver o filme nessa sala (na foto acima, abertura de "Indiana Jones no Templo da Perdição"). Outra produção de Steven Spielberg, "ET: o Extraterrestre" foi exibida no Comodoro, em 1982. "De Volta para o Futuro", filme que originou duas boas sequências, foi cartaz na sala em 1985. 



Segundo nos relata o leitor João Carlos Reis Pinto, foi na exibição do filme "De Volta para o Futuro" que foram instalados os decodificadores de som Dolby Stereo, em 25.12.1985. A partir desse filme, os anúncios do cinema mudaram para: "No Comodoro o mais moderno sistema de som Dolby Stereo em 70 mm" (como aparece no anúncio acima de "De Volta para o Futuro III" de 1990). Antes, era avisado apenas que o filme era em 70 mm com som estereofônico. 






Nessa época veio o primeiro sinal do declínio do cine Comodoro: a perda da exclusividade nos lançamentos. Tal privilégio era um dos grandes referenciais da sala e, ao que parece, ajudava a compensar o alto custo da cópia do filme de 70 mm, que vinha do exterior (nas imagens acima, fachada do cinema e o anúncio de "Fuga à Meia-Noite" em 1988). 
Por sua vez, já tinha ficado evidente a decadência do centro de São Paulo no que se referia ao público mais elitizado. A avenida Paulista, os Jardins e, na década de 1990, a expansão dos shoppings centers deslocou esse público para locais tidos como mais seguros e com cinemas novos. Novos, mas sem a mesma qualidade de projeção e som do Comodoro. 
Nas avaliações e enquetes feitas até o início dos anos de 1990, a sala ainda era apontada como a melhor de São Paulo. Por exemplo, em pesquisa publicada no jornal "O Estado de S. Paulo" em 24.03.1989, foi informado que, no ano anterior, 17 novas salas de cinema foram abertas e as perspectivas eram boas para os anos seguintes. Parecia estar ocorrendo um resgate das salas com boas instalações e projeção, embora sem o luxo e o glamour das décadas anteriores. Em 1989, a cidade contava com 119 salas, menos do que em 1954, quando eram 126 cinemas, dos quais 102 nos bairros. Para avaliar esses cinemas, uma equipe do jornal visitou 29 salas de exibição. Os itens mais importantes estavam relacionados com a reprodução dos filmes, como a qualidade da projeção e o som. Os demais itens referiam-se às condições de conservação das instalações, conforto do público, higiene e segurança. O Comodoro Cinerama, mais uma vez, saiu-se bem! 
Nessa mesma avaliação, o organizador da famosa Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o crítico Leon Cakoff, afirmou que o cine Comodoro era o melhor da cidade "apesar de ser localizado na avenida São João". Além de elogiar a tela, composta de tiras elásticas que não distorciam a projeção, Cakoff destacou também as outras condições do cinema, como o ar condicionado, som e imagem, tido por ele como "de excelente qualidade". Apenas o CineSesc, localizado na rua Augusta, poderia ser equiparado em termos técnicos ao Comodoro. Tratava-se de uma sala para grandes plateias, algo que era visto como essencial para os cinemas da década de 1990, ainda na opinião de Leon Cakoff. 


Naquele momento, os videocassetes já frequentavam as casas das famílias de classe média e o centro de São Paulo, como já assinalamos, continuava o seu processo de declínio e abandono que se estende até os dias atuais. Além disso, tínhamos o "boom" dos shoppings centers, com a abertura do Eldorado, do Shopping Paulista, do Shopping Metrô Tatuapé, do Shopping Aricanduva, entre outros. Finalmente, no final da década de 1990, a implantação das salas chamadas de "multiplex" foi o golpe de misericórdia nos cinemas de rua, mesmo aqueles localizados fora do centro velho da capital paulista.
Em abril de 1990, quando o filme "Lawrence da Arabia" foi relançado em São Paulo, em cópia 70 mm restaurada, o crítico de cinema Luiz Carlos Merten comentou que teria sido melhor que o filme fosse exibido novamente no Comodoro, a maior tela de São Paulo, para que o espectador percebesse o quanto foi perdido do filme nos anos anteriores, quando o mesmo foi mostrado apenas na televisão. Mas, o cine Comodoro ainda exibia grandes produções naquele início de década de 1990, entre as quais, "Além da Eternidade", "Ghost, do Outro Lado da Vida", "Dias de Trovão", "O Poderoso Chefão - 3ª parte", "Jogos Patrióticos" "True Lies", "Forrest Gump" e a refilmagem de "Cabo do Medo", entre outros sucessos (na imagem acima, "O Enigma da Pirâmide" exibido em 1986).
Mas, em 1991, a sala sofreu um duro golpe! Em matéria publicada no jornal "Folha de S. Paulo", o articulista Adilson Laranjeira comentou que o Comodoro tinha desistido de exibir filmes com cópias em 70 mm, desde o final do ano anterior, quando havia entrado em cartaz o filme "Alta Tensão". Laranjeira escreveu para lamentar e destacar que a aparelhagem do cinema deveria ser utilizada em toda a sua capacidade, uma vez que proporcionava uma imagem perfeita. Com isso, era óbvio que o Comodoro perdeu o seu grande atrativo e se tornava um cinema igual aos demais, exibindo filmes em 35 mm, tendo o inconveniente de estar localizado "num ponto perigoso da cidade". Filmes em 35 mm? Adilson Laranjeira afirmou que isso ajudou a desvendar um blefe cometido pelos responsáveis da sala durante décadas. Sim, o Comodoro tinha condições técnicas de exibir filmes nacionais copiados em 35 mm! A empresa responsável pela sala, a U.I.P. ou United International Pictures (que antes era chamada de Cinema International Corporation) sempre alegou o contrário.
Por outro lado, a mesma U.I.P. argumentava com relação a não exibir mais os filmes em 70 mm, o custo elevado da importação dessas cópias, em torno de 20 mil dólares cada uma. Para se ter uma ideia, as cópias em 35 mm custavam em torno de 2 mil dólares! O filme teria que render muito para cobrir esse custo. A exibição no antigo sistema road show, onde apenas uma sala de cinema na cidade exibia os filmes no formato 70 mm poderia cobrir esse preço. Mas isso se a sala voltasse a ter exclusividade nos lançamentos. 
O Comodoro deixava de ser o Comodoro conhecido há tanto tempo! Pior, a sala não cumpria mais o que prometia nos seus letreiros da fachada: cinerama com filmes em 70 mm. Resultado: o cine Comodoro foi enquadrado no artigo 67 da lei 8.078/90, do Código de Defesa do Consumidor. Um inquérito foi aberto a partir da matéria publicada na Folha de S. Paulo e o cinema teve que retirar de sua fachada os letreiros do "Cinerama" e da exibição de fitas em "70 mm". Tal procedimento foi feito no dia 09.08.1991. 


Agora, a sala era apenas Cinema Comodoro! No anúncio acima, de 1994, podemos observar que o cinema já não exibia mais o logotipo "Cinerama" que o tornou tão famoso (no mesmo anúncio, o primeiro, na coluna das salas de exibição à esquerda). 
Ainda em 1994, uma matéria publicada no jornal "O Estado de S. Paulo" do dia 04 de setembro mencionava que, apesar de não exibir mais filmes no formato 70 mm, o Comodoro ainda cativava o público pelo som de alta qualidade. Contudo, eram "apenas" quatro faixas de som estereofônico e não mais as seis de antigamente (isso, desde 1985). A projeção ainda era boa. Ao que parece, no ano anterior, foi exibido o último filme no Comodoro com bitola 70 mm: "Um Sonho Distante". O gerente da sala já reclamava da queda de público. De acordo com o mesmo, as pessoas tinham receio em ir ao centro velho da capital paulista. 
Para manter o seu público familiar, a gerência da sala fazia uma recomendação aos lanterninhas para fiscalizar e impedir "cenas escandalosas fora da tela"! Mas existiam outros problemas. Também em 1994, o cinema chegou a ser fechado pela prefeitura, por apresentar laudos sobre segurança que estavam irregulares. No ano anterior, a sala ainda viu o êxito da exibição de "Parque dos Dinossauros" (Jurassic Park, 1992) com três mil pessoas, em um sábado do mês de junho. Talvez, o ultimo grande momento da história do Comodoro.
Os saudosistas, a partir daí, lembrariam apenas que um dia existiu o cinerama em São Paulo. E esse saudosismo veio rápido! O escritor Ignácio de Loyola Brandão, em uma crônica dominical publicada em 10.11.1995, no jornal "O Estado de S. Paulo" lembrava esses antigos cinemas, entre os quais o Comodoro. Brandão apontou os fatores da decadência dessas salas, os mesmos que assinalamos anteriormente e lembrou que, até o início dos anos de 1960, alguns cinemas exigiam trajes sociais para os frequentadores, como paletó e gravata. O escritor cometeu um engano, ao afirmar que o Comodoro exibia filmes em terceira dimensão. Mas o sentimento saudosista era claro e a sala, tardiamente, ganhava o respeito da crítica. Contudo, o Comodoro Cinerama entrava em seu crepúsculo! 
Ainda no início da década de 1990 foi inaugurado o sistema Dolby Stereo Spectral Recording, durante a exibição do filme "Dança com Lobos". Contudo, como nos informa João Carlos Reis Pinto, a nova tecnologia foi instalada no Cine Marabá e não no Comodoro. Um dos sinais de declínio daquela que foi a mais bem equipada sala de cinema da capital paulista. 


No dia 23.03.1997, quando estava em cartaz o musical "Evita" (foto acima) estrelado pela cantora Madonna, o Cinema Comodoro (lembramos que era assim que estava sendo chamado) fechou as suas portas, em definitivo! Decisão inesperada da empresa controladora da sala. Uma matéria publicada no dia seguinte, no jornal Folha de S. Paulo, novamente de forma errada, citava que a sala foi a responsável por lançar os filmes em 3D no Brasil. As gerações mais novas ainda confundiam o cinerama com o 3D!


Mas esse detalhe pouco importava para o simpático casal João Araújo e Camila D'Antola. Simbolicamente, são os últimos espectadores da inesquecível sala. Na verdade, os dois compareceram apenas para que a jovem conhecesse o local. O cinema não estava mais funcionando quando a foto acima foi tirada! Quantos casais não tiveram momentos inesquecíveis nesse cinema. Possivelmente milhares!
O responsável pela U.I.P., empresa mantenedora da sala, afirmou que o Comodoro, embora não lotasse mais, tinha com as suas 985 poltronas uma ocupação alta ao longo da semana. Mas, isso não impediu o fim dessa e das demais salas de exibição do centro velho de São Paulo. Naquele mesmo ano, dois outros cinemas de rua encerraram as suas atividades: o cine Metro e o cine Marrocos. Era o fim de uma era para a cidade!  


Mesmo estando fechado, o famoso cinema ainda teve que passar por um "golpe de misericórdia". Na noite do dia 25.08.2000, um incêndio destruiu completamente as instalações do velho Comodoro Cinerama. O sinistro foi provocado por um curto circuito e atingiu o telhado, o qual desabou (foto acima).  



O Comodoro Cinerama virou uma lembrança do passado da cidade de São Paulo, que ficou na memória de muitos (nas duas fotos acima, a fachada do Comodoro em 2014). Um deles tornou-se presidente da República: Luiz Ignácio "Lula" da Silva. Em um encontro com personalidades do meio artístico, inclusive cineastas, em 2009, o presidente Lula lembrou dos cinemas que frequentava na sua juventude e um deles era o cine Comodoro. O mesmo referiu-se à tela em "cinemascope" e afirmou que 10 salas de cinema de shoppings juntas não caberiam dentro do Comodoro. Quem viveu e viu os tempos de glória dessa inesquecível sala de exibição, pelo menos nessa afirmação, concordará com o presidente Lula........
Crédito das Imagens:
Anúncio com o filme "Terror na Montanha Russa": edição do "Jornal da Tarde" de 1978 (infelizmente sem a data específica). Acervo do autor. 
Anúncio do filme "2001: Uma Odisséia no Espaço": edição do "Jornal da Tarde" de 1976 (sem a data específica). Acervo do autor. 
Fotograma do filme "2001: Uma Odisséia no Espaço". DVD Warner B., Coleção Stanley Kubrick. 
Anúncio do filme "Isto Também Era hollywood": edição do "Jornal da Tarde" de 1977 (sem a data específica). Acervo do autor. 
Anúncio do filme "O Campeão": jornal "O Estado de S. Paulo", edição de 29.06.1979, p. 22.
Técnico examina filme em 70 mm:
http://sennhausersfilmblog.ch/2009/02/04/berlinale09-weiter-tiefer-und-viel-viel-breiter-mit-der-70mm-retrospektive/
Anúncio do filme "Grease: nos Tempos da Brilhantina": jornal "O Estado de S. paulo", edição de 02.11.1978.
Fila na entrada do cine Comodoro em 1979: site Pinterest.
Platéia superior do cine Comodoro: http://www.spshow.com/gay/mem%F3riagay/cinemas/comodoro-cinerama-page.htm
Fachada do cine Comodoro após a reforma: jornal "O Estado de S. Paulo", edição de 09.02.1996. 
Anúncio do filme Ben Hur: jornal "O Estado de S. Paulo", edição de 29.10.1981, p. 67.
Fotograma do filme Ben Hur: DVD Comemorativo, Warner B. , 2005. 
Películas 35 mm e 70 mm: http://www.astortheatre.net.au/about-the-astor/35mm-70mm-prints
Fotograma de "Indiana Jones no Templo da perdição": Caixa As Aventuras de Indiana Jones, Lucasfilm Ltd. 
Anúncio do filme "De Volta para o Futuro III": jornal "O Estado de S. Paulo", edição de 14.07.1990, p. 11. 
Fachada do Comodoro em 1988: http://salasdecinemadesp.blogspot.com.br/2007/10/comodoro-visitado-antes-do-incndio.html
Anúncio do filme "Fuga à Meia Noite": jornal "O Estado de S. Paulo", edição de 20.11.1988, p. 93.
Anúncio do filme "O Enigma da Pirâmide": jornal "O Estado de São Paulo", edição de 04.05.1986, p. 156. 
Cartaz do filme "Perigo Real e Imediato": jornal "O Estado de S. Paulo", edição de 17.11.1994, p. D11. 
Fachada do Comodoro em 1997 com o filme "Evita": http://cinemafalda.blogspot.com.br/2010/04/cine-comodoro-sao-paulo.html
Casal visitando o cine Comodoro: jornal "Folha de S. Paulo", edição de 24.03.1997, p. A-12.
Incêndio do cine Comodoro: jornal "Folha de S. Paulo", edição de 26.08.2000. 
Fachada atual do cine Comodoro: acervo do autor.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Mensagem de Boas Festas e Feliz 2016!



Houve uma época......



em que o óleo Maria e o Sal Cisne patrocinavam equipes de Fórmula 1 (na foto acima, o carro da equipe Fittipaldi pilotado por Chico Serra em 1982);



em que as novelas da TV Globo alcançavam até 100% de audiência (na foto acima, Regina Duarte e Francisco Cuoco na novela Selva de Pedra, que foi exibida em 1972);



em que um professor era herói de seriado de televisão (na foto acima à esquerda, o ator Guy Williams, o professor John Robinson da telessérie "Perdidos no Espaço" em foto de 1965);



em que o serviço militar podia interromper a carreira de um astro do rock (acima, Elvis Presley nos exames médicos para o Exército Norte-Americano em 1958);



em que a escola pública era excelência em qualidade, embora para poucos (na foto acima, meninas da Escola Normal na praça da República, centro de São Paulo, em uma aula de Educação Física no ano de 1920);



em que se a pessoa estivesse "rigorosamente em dia" com as prestações do Carne do Baú da Felicidade, poderia retirar o seu saldo final em mercadorias em qualquer loja do Baú (acima, uma foto do carne do Baú de Silvio Santos);



em que a Seleção Brasileira de Futebol era, de fato, uma seleção dos melhores jogadores que atuavam em nosso futebol (na foto acima, o time Campeão do Mundo em 1958 na Copa da Suécia);



em que a mulher não precisava adquirir anorexia para ser modelo (na foto acima, a modelo Marivalda, que foi capa da revista "O Cruzeiro" em 1966);

Por essas e por outras é que eu continuo gostando de estudar História. 

Um abraço a todos e um ótimo 2016.................

                                            blog História Mundi


Crédito das imagens:
Carro da equipe Fittipaldi de F1: site Pinterest 
Fotograma da Novela Selva de Pedra: DVD Selva de Pedra.Globo Marcas, 2013. 
Foto do ator Guy Williams: Caixa de DVDs Perdidos no Espaço (1ª temporada completa), 20th. Century Fox, 2003. 
Foto de Elvis Presley fazendo exame médico no Exército Americano: Century. Londres, Phaidon Press Limited, 2202, p. 624. 
Aula de ginastica na Escola Normal: Cotidiano: um dia na vida de brasileiros. Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil 11. São Paulo, Folha de S. Paulo, 2012, p. 56.
Carne do Baú da Felicidade: site do Mercado Livre.
Foto da seleção de 1958: http://dnasantastico.com/2013/01/20/o-anjo-das-pernas-tortas/garrincha-blog-dna-santastico-002/
Foto da modelo Marivalda: Revista "O Cruzeiro", edição de 26.03.1966, p. 50. 



segunda-feira, 30 de novembro de 2015

17ª Festa do Livro da USP





Não caros leitores, não se trata de falsa promoção do tipo "Black Friday". Aqui o desconto é para valer! Trata-se de uma forma que as grandes editoras encontraram de promover as suas marcas junto ao público universitário. A Feira do Livro da USP já se tornou um evento cultural da capital paulista e atrai milhares de pessoas. A feira retorna ao seu local de origem, o prédio da História e da Geografia, do qual nunca deveria ter saído. Sim, porque lá está o seu grande público. Editoras como a Companhia das Letras, Paz e Terra, Edusp, Casacnaify, Editora da Unesp, Contexto, Brasiliense, num total de 150 exibidores, deverão marcar presença oferecendo os seus títulos mais importantes, com descontos em torno de 50%. Nada mal levando-se em consideração o preço dos livros em nosso país.
A sugestão é ir no primeiro dia, uma vez que, em certos casos, alguns títulos podem se esgotar. O evento ocorrerá nos próximos dias 9, 10 e 11 de dezembro de 2015, na Cidade Universitária, localizada próxima ao bairro do Butantã, na capital paulista, e como já lembramos, nas dependências do prédio da História e Geografia.
Para maiores informações é só acessar o site da Edusp:
http://www.edusp.com.br/festadolivro/

Atenção!
A Festa do Livro da USP precisou alterar novamente o local de sua realização, passando para a travessa C da avenida professor Mello Moraes, entre a Raia Olímpica e Praça do Relógio Solar, na Cidade Universitária. Uma estrutura de galpões e tendas totalizará 3.600 metros quadrados para comportar as cerca de 150 editoras que normalmente participam do evento e seu público. 









sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Anuncio Antigo 41: Presente de Natal



Está chegando o final de ano! Hora de pedir ao Papai Noel o presente de Natal. Tratando-se dos tempos atuais de consumo descartável e obsolescência programada (as empresas determinam a vida útil de um produto, para que o mesmo não demore muito para ser posto de lado), sem dúvida, o mais solicitado provavelmente será o celular de ultima geração. Mas, no distante ano de 1970, um toca discos portátil ou vitrola parecia ser um presente que agradaria aos jovens pré-adolescentes. O aparelho, fácil de ser transportado, permitia tocar disquinhos de vinil ou os chamados "compactos simples" de 33 rotações. A tampa do aparelhinho, quando  aberta, virava caixa de som. Cada disco compacto vinha com duas musicas gravadas: uma no lado A e outra no lado B. Havia uma vantagem, você poderia comprar, praticamente, apenas a música desejada dentro do catálogo do artista. Mas, não depreciem tanto esse pobre e aparentemente primitivo aparelho sonoro, pois o mesmo podia tocar um Long Play, popularmente chamado de LP, com seis gravações de cada lado em média. Ah, estava esquecendo, tinha o opcional do rádio também. 
Ainda não se pensava nos aparelhos de som de alta fidelidade (som estereofônico) para serem presenteados aos jovens de pouca idade. No máximo, nas famílias mais abastadas, tal equipamento poderia aparecer na sala de estar, como parte da mobília doméstica, assim como a televisão.
Os tempos mudaram, o vinil deu lugar ao CD e este às musicas disponíveis e baixadas na internet. As lojas de discos praticamente acabaram. Excetuando alguns nostálgicos, que ainda dispõem de "bolachões" guardados, sobretudo aqueles que não ganharam formatação nova, o público em geral não pensa mais nesses presentes do "tempo do Onça".
O Anuncio Antigo de hoje foi publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" do dia 6.12.1970. 

sábado, 21 de novembro de 2015

Imagens Históricas 18: a Princesa Isabel e a Lei Áurea



A libertação dos escravos: 13 de maio de 1888. Nesse dia tivemos a assinatura da conhecida lei Áurea pela princesa Isabel, como mostra a foto acima, tirada diante do Paço Imperial no Rio de Janeiro e tendo a regente do trono (o imperador D. Pedro II encontrava-se na Europa para tratamento de saúde) na sacada do palácio, aclamada pela multidão, no mesmo dia da assinatura da famosa lei. Todos nós poderíamos imaginar que os problemas da população afrodescendente do Brasil estavam solucionados. Claro, deixar de ser escravo, de ser considerado uma simples mercadoria e sim um indivíduo livre, representou um avanço. Mas, um avanço que necessitava seguir adiante na promoção dessa massa populacional e da sua plena integração à sociedade brasileira, ou seja, que a mesma alcançasse plena cidadania. Isso está demorando para ocorrer, uma vez que, quase quatro séculos de escravidão deixaram sequelas. Uma população de ex-escravos que permaneceu ainda submetida ao controle dos fazendeiros na condição de arrendatários ou trabalhadores rurais. A outra opção, poderia ser ir para as cidades maiores, como Rio de Janeiro, Recife e Salvador, vivendo em condições miseráveis e dando origem às famosas favelas. O racismo e o preconceito social também ficaram arraigados em nossa sociedade, às vezes de forma pouco perceptível. 
Mas, vamos lembrar que a escravidão, naquele final de século XIX estava inserida dentro de um processo de transição para o trabalho livre. Desde 1850, com a lei Eusébio de Queiroz, que extinguia o tráfico de escravos da África para o Brasil, já se vislumbrava um futuro para o país sem o trabalho compulsório. A Inglaterra se engajava em uma campanha humanitária internacional contrária a permanência dessa ignóbil forma de trabalho e os Estados Unidos se dividiam em uma sangrenta guerra civil, entre outras razões, pela questão da manutenção ou não da escravidão. Em 1864, o presidente norte-americano Abraham Lincoln determinou a abolição do trabalho escravo, inclusive como forma de enfraquecer os Estados Confederados na Guerra de Secessão (1861-1865). 
Pois bem, na história brasileira, como nos lembra o historiador José Honório Rodrigues, em seu livro "Conciliação e Reforma no Brasil: um desafio histórico-cultural" de 1965, as mudanças se processaram mais como transições (ou conciliações) do que por rupturas violentas. Basta lembrar como ocorreu a nossa independência em 1822, promovida pelo próprio filho do rei de Portugal D. Pedro I (1822), o fim da monarquia (1889), a queda da Primeira República (1930) e da ditadura de Getúlio Vargas (1945). Eu ainda acrescentaria, dentro do raciocínio do grande historiador, as negociações que colocaram fim à ditadura militar e a aceitação pelos generais de um presidente civil, desde que fosse o moderado Tancredo Neves, em 1985. Tais conciliações eram realizadas tendo em vista a atender (muitas vezes, parecer atender) o desejo por mudanças, mas sem prejudicar as elites econômicas e os seus interesses.


Voltemos ao caso da escravidão. Antes da Lei Áurea, uma série de medidas paliativas haviam sido tomadas para atender aos abolicionistas e, ao mesmo tempo, não desagradar os grandes fazendeiros que ainda necessitavam dos escravos (na foto acima, de Marc Ferrez, escravos em um cafezal na província do Rio de janeiro, em 1882). Por exemplo, a Lei do Ventre Livre de 1871, que, em tese, garantia a liberdade do escravo recém-nascido, mas na condição de que este continuasse sob os cuidados do dono da mãe até atingir a maioridade. Que tal a Lei do Sexagenário (ou Saraiva Cotegipe) de 1885, que determinava a liberdade dos escravos com mais de 60 anos, em uma época em que a expectativa de vida da população era baixíssima, sobretudo da escrava. Como se dizia na época, eram leis "para inglês ver".


Ao mesmo tempo, muitos fazendeiros, sobretudo os cafeicultores de São Paulo, já se antecipavam ao futuro e começavam a recorrer ao imigrante europeu como alternativa ao escravo africano. O primeiro a fazer isso foi o senador Nicolau de Campos Vergueiro, proprietário da fazenda Ibicaba, na região de Limeira, interior de São Paulo, que em 1847, trouxe alemães e suiços para trabalharem em sua propriedade. Na época em que a Lei Áurea foi assinada (na foto acima, a princesa Isabel, ainda jovem, em foto sem data), a presença dos imigrantes no Brasil já era um fato irreversível e o trabalho livre no campo uma realidade, em que pesem o péssimo tratamento reservado aos italianos, portugueses e espanhóis, quase como se fossem mesmo escravos.


O mais incrível de tudo é que, mesmo tendo o fim da escravidão como fato consumado, quando a Lei Aúrea surgiu (na imagem acima, o decreto assinado pela princesa Isabel), muitos fazendeiros se sentiram prejudicados e reclamaram uma indenização do governo imperial pela perda dos cativos. Muitos historiadores apontam esse descontentamento como um fator que ajudou na queda de D. Pedro II e da monarquia, exatamente no ano seguinte ao fim da escravidão, em 1889. Claro que isso não explica, por si só, o fim do império. Inclusive a assinatura da Lei Áurea era uma forma do regime monárquico buscar mais prestígio diante do avanço do movimento republicano.  
A imagem histórica de hoje foi extraída do livro "Protestos e Passeatas: a construção da democracia", da Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil (2012), volume 13, página 13 (que coincidência, para lembrar o dia 13 de maio).
Crédito das demais imagens:
Escravos em um cafezal na província do Rio de Janeiro: O Café: uma moeda forte para o país. Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil. Editora Folha de S. Paulo, 2012, vol. 16, pag. 23. 
Foto da princesa Isabel ainda jovem: coleção Brasiliana Fotográfica
http://brasilianafotografica.bn.br/
Foto do decreto da lei Áurea: Coleção Grandes Personagens da Nossa História. Abril Cultural, 1969. 






quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos



Houve época em que o pesquisador das áreas de História, Sociologia, Antropologia, Economia e demais disciplinas, tinha a necessidade de se deslocar a uma biblioteca, arquivo público ou aos acervos de jornais e revistas, para realizar um trabalho que demandava tempo e paciência. Bem, em parte, esse trabalho talvez ainda seja necessário, dependendo do tema ou objeto de estudo do pesquisador. Mas, não há dúvida que as novas mídias digitais facilitaram em muito o serviço. Por exemplo, centenas de livros já se encontram digitalizados e disponíveis na internet. Muitos arquivos já trabalham on line com vários documentos, que podem ser acessados a partir de um simples click no teclado do computador. Mais recentemente, muitos jornais e revistas, sobretudo aqui no Brasil, já disponibilizaram o seu acervo completo na internet, embora em alguns casos, o serviço não seja gratuito. As grandes bibliotecas e acervos fornecem o material a ser pesquisado via e-mail, bastando ao interessado fazer a solicitação. Este que vos escreve já pode desfrutar desse ultimo serviço, inclusive com bibliotecas situadas no exterior. 
Por outro lado, a abrangência temática das disciplinas, entre as quais se inclui a História, necessita de um leque mais amplo de fontes de pesquisa, que vai além da simples fonte documental escrita. As imagens, fotografias (como a do imperador do Brasil, D. Pedro II, de aproximadamente 1870, vista acima), filmes e gravações sonoras também se constituem em material precioso para o pesquisador, sobretudo a partir do advento da Nova História, que trabalha com os aspectos da cultura material, da história das mentalidades e do cotidiano das sociedades. Dessa forma, quanto maior a disponibilidade dessas fontes, melhor para o historiador. 


Este é o caso, por exemplo, do imenso acervo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Por meio da mesma, podemos recorrer a um gigantesco material digitalizado, com obras raras, antes praticamente inacessíveis. A partir da digitação do assunto a ser pesquisado, o navegador poderá encontrar livros, documentos, artigos de jornais, revistas, fotos, mapas, imagens, filmes e gravações sobre o tema. Um belo acervo de fotos está disponibilizado, embora nem todas possam ser salvas. Uma delas é a foto acima, de 1913, que mostra Franklin D. Roosevelt, antes de se tornar presidente dos Estados Unidos, em uma rara foto andando. Como se sabe, o futuro presidente adquiriu paralisia infantil (poliomielite), depois de adulto. 
A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos ou The Library of Congress possibilita também o acesso a links de outras instituições, que disponibilizam o material desejado, nos mais variados formatos, facilitando o manuseio por parte do pesquisador. 



Muitos imaginam que, por ser uma instituição do governo norte-americano, não exista material a respeito do Brasil ou da América Latina. Engano! Existem dezenas de obras referentes ao Brasil escritas por viajantes europeus e norte-americanos, muitos dos quais percorreram o país do Sul até a Amazônia e deixaram as suas impressões em livros que descrevem os mais variados roteiros. Entre esses viajantes, cujas obras podem ser consultadas, destacamos Alfred Russel Wallace, Louis Agassiz, Paul Marcoy, Henry Walter Bates, Matthew Fontaine Maury, entre outros, que percorreram a Amazônia a partir de 1830. Interessante para observarmos a visão que os naturalistas europeus e americanos tinham da região. Alfred R. Wallace foi amigo de Charles Darwin e defensor da teoria evolucionista. 
Muitas dessas obras não estão disponibilizadas em bibliotecas brasileiras. Um material imenso em inglês, francês, espanhol e alemão, referentes ao Brasil, está também disponível para os estudiosos interessados.
Fotos raras do Brasil podem ser vistas, como por exemplo, a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, no início da década de 1940 (acima). 


Como vocês devem  estar percebendo, uma pequena parte deste acervo de fotos está publicada nesta postagem. Na fotografia acima, de 1890, um grupo de índios caçadores de cabeças (pelo menos é o que a Biblioteca do Congresso informa) do Alto Amazonas, foi registrado.


Nesta outra imagem acima, a praia do Botafogo e a entrada da baia de Guanabara, são observadas em uma foto tirada do alto do morro do Corcovado, ainda sem o Cristo Redentor, em 1909. 
Portanto, como sempre fazemos, deixamos aqui o link para que os interessados possam navegar e aproveitar mais esse recurso virtual:
http://www.loc.gov/







segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Editorial: Nota de Esclarecimento

Caro leitor, em todos os locais em que se estabelece um convívio social, são necessárias determinadas normas para que as pessoas possam emitir as suas opiniões, de forma respeitável. Como todos sabem este blog trata de temas relacionados à História. Como todos os ramos do conhecimento, esta disciplina têm a sua metodologia de trabalho e de pesquisa, seguidas nos centros de estudo e universidades de todo o mundo. 
Por outro lado, ninguém espera que todos concordem com o que está escrito, razão pela qual, o administrador do blog permite o envio de comentários e críticas. Contudo, tais comentários devem se ater ao tema em questão e com o devido respeito aos demais leitores, sem o uso de palavras ou termos impróprios ao respeito comum.
O administrador se reserva o direito de monitorar e, eventualmente, excluir os comentários que não atendam aos quesitos acima especificados. 
Tais normas estão sendo adotadas em respeito ao leitor e à liberdade de opinião, que deve ser exercida com responsabilidade e sobriedade, sobretudo nos tempos atuais, onde alguns desejam impor suas "verdades" aos outros. 
No mais, boa leitura e reflexão a todos...................

Anúncio Antigo 40: Leite Condensado Moça




Caros leitores, já pararam para pensar por que esse leite é chamado de condensado? Pois é, foi uma das maravilhas industriais da era contemporânea e usado em época de guerra para alimentar os soldados, como bem mostra o Anúncio Antigo de hoje, publicado em 1932, durante a guerra civil de São Paulo contra o Governo Provisório de Getúlio Vargas (chamada também de Revolução Constitucionalista). O produto era consumido como bebida substitutiva do leite, sendo acrescentada água, daí o nome de leite condensado. Em épocas de escassez de leite, como nas guerras, poderia ser armazenado por bastante tempo e era fácil de ser transportado. 
As primeiras experiências com o leite condensado começaram em 1820 por Nicolas Appert. Em 1828, um inventor francês aplicou o método criado por Appert para o leite fresco retirado das vacas. No ano de 1853, a novidade chegou aos Estados Unidos através de Gail Borden, que acabou patenteando o produto três anos depois.
O sucesso do leite condensado começou com a Guerra Civil Norte-Americana (1861-1865), como alimento dos soldados e depois vendido ao público comum. Contudo, o aperfeiçoamento ainda maior do produto foi feito na Europa, quando o suiço J. B. Meyenberg, aprimorou o processo de produção do leite condensado utilizando um sistema de esterilização em autoclave, um aparelho de desinfecção por meio de vapor a alta pressão e temperatura (120° C). A partir daí, o produto começou a ser comercializado em latas. No ano de 1884, Meyenberg viajou para os Estados Unidos promovendo a abertura de fábricas para a produção desse novo leite condensado, com ou sem açúcar e enlatado. 


Ainda na Europa, aproveitando esses aprimoramentos, Charles e George Page fundaram a Anglo Swiss Condensed Milk, na Suiça, no ano de 1866. O sucesso do produto foi rápido e o mesmo começou a ser exportado para vários lugares do mundo. Porém, a concorrência poderia vitimar as empresas que produziam esse novo tipo de leite e, como ocorria nas etapas mais avançadas da economia capitalista, a tendência à concentração do mercado nas mãos de grupos monopolistas tornou-se forte. Em função disso e após décadas competindo entre si nas vendas, a Anglo Swiss Condensed Milk fundiu-se com a empresa fundada pelo farmacêutico alemão Henry Nestlé (na foto acima, de 1876), que já era a fabricante de uma conhecida farinha nutritiva para a alimentação de bebês, à base de leite e cereais, a conhecida farinha láctea. Daí para a conquista do mundo foi apenas mais um passo.
Por intermédio da Anglo Swiss Condensed Milk Nestlé (depois, apenas Nestlé) o leite condensado chegou ao Brasil em 1890, importado diretamente da Suiça. Tratava-se de uma alternativa ao leite fresco, que enfrentava problemas de distribuição no mercado local. O produto era vendido em farmácias e drogarias, sendo que o primeiro estabelecimento a realizar a venda desse produto foi a Drogaria São Paulo, localizada na rua São Bento, no centro da capital paulista. 


O rótulo do produto era fácil de ser identificado em função da camponesa suíça que carrega um balde de leite, que no país de origem era "La Laitière" ou vendedora de leite. Como nos informa Marcelo Duarte em seu "O Livro das Invenções" (editora Companhia das Letras, 1997), quando a Nestlé começou a exportar o produto, procurava colocar um nome equivalente na língua de cada país. No Brasil, entretanto, adotou-se o nome em inglês, "Milkmaid", de difícil pronúncia pelos compradores daqui (imagem acima). Devido a essa dificuldade, o público consumidor referia-se ao produto como sendo "esse leite da moça". Quando a Nestlé abriu a sua primeira fábrica aqui no Brasil, em 1921, na cidade de Araras, interior do Estado de São Paulo, começando a fabricar aqui o leite condensado, optou-se por usar o nome criado espontaneamente pelo público: Leite Moça. 


A popularização definitiva do leite condensado ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), devido à escassez do açúcar refinado. Em função disso, o produto começou a ser utilizado para a confecção de doces e sobremesas. A partir da década de 1960, as embalagens do Leite Moça vinham com receitas de doces e bolos, tendo como ingrediente o produto, recurso publicitário que popularizou ainda mais a marca (na foto acima, um rótulo do Leite Moça com receita, da década de 1970). 


Um desses doces ficou muito conhecido: o brigadeiro. No final de 1945, após a queda de Getúlio Vargas e o processo de redemocratização do país, ocorreram eleições presidenciais e um dos candidatos era o brigadeiro Eduardo Gomes, que concorria pelo partido da União Democrática Nacional (UDN), de linha conservadora (no quadro acima, Eduardo Gomes com o uniforme de brigadeiro). Algumas mulheres que integravam o comitê de campanha deste candidato, começaram a produzir um doce de chocolate em pó, misturado ao leite condensado, para distribuir aos eleitores e arrecadar fundos para a campanha do brigadeiro. Eduardo Gomes foi derrotado por outro militar, o general Eurico Gaspar Dutra. Mas, o docinho ficou, até os dias atuais, com o nome de "brigadeiro".........
O Anúncio Antigo de hoje foi publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" do dia 18.08.1932 e ainda pedia a doação de uma latinha de leite condensado para os soldados constitucionalistas que lutavam contra o Governo Provisório de Getúlio Vargas (1930-1934). 
Crédito das imagens: 
Foto de Henry Nestlé:
http://www.nestle.com/aboutus/history/company-founder-henri-nestle 
Foto da embalagem antiga do Leite Moça:
http://www.leitecondensado.com/?p=4 
Rótulo com receita da década de 1970:
http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-698712818-antigo-rotulo-de-leite-moca-nestle-anos-70-_JM 
Quadro representando o brigadeiro Eduardo Gomes: 
http://www.11gaaae.eb.mil.br/index.php/resumo-historico.html




  

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Frida Kahlo no Instituto Tomie Ohtake






A obra da pintora mexicana Frida Kahlo (na imagem acima, um dos seus autorretratos expostos em São Paulo) é o próprio retrato de sua vida dolorosa e tumultuada. Esposa do renomado pintor Diego Rivera, seu trabalho permaneceu durante muito tempo em segundo plano e um pouco à sombra do marido, conhecido por levar aos seus murais modernistas a história do México, inclusive o período pré-colombiano, anterior à chegada dos espanhóis no início do século XVI. O engajamento político de Rivera com os ideais de transformação social, trazidos pela Revolução Mexicana de 1911 e após o seu ingresso no Partido Comunista do México, o tornaram uma figura muito conhecida na cultura de seu país. 



Por outro lado, ao contrário do que poderia ter ocorrido, o trabalho de Frida Kahlo guarda pouca ou nenhuma semelhança com a obra de seu esposo (na foto acima de 1937, Frida Kahlo com as vestimentas tradicionais mexicanas). Inicialmente influenciada pelo figurativismo moderno e depois pelo surrealismo, Kahlo imprimiu um estilo pessoal forte, como se desejasse expressar, por meio de sua pintura, todos os percalços pelos quais passou em sua vida pessoal, os seus problemas de saúde, as traições de Rivera e a própria realidade de sua época turbulenta, tanto em seu país como no mundo. A presente mostra no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, é uma excelente oportunidade para conhecer o trabalho dessa artista e o agitado período em que viveu. 
Nascida em 1907, no então povoado de Coyoacán, atualmente um bairro elegante da Cidade do México, Frida Kahlo viveu a sua infância no período inicial da Revolução Mexicana, que colocou abaixo a ditadura do general Porfírio Diaz em 1911. A extrema desigualdade social, sobretudo no meio rural, gerou dois grandes focos revolucionários no país. Ao norte, as forças lideradas por Pancho Villa e mais ao sul, os camponeses reunidos em torno de Emiliano Zapata. As demandas por uma redistribuição mais igualitária da terra acabaram impulsionando o movimento popular, em um processo que levaria vários anos. Com a Revolução Mexicana, uma onda nacionalista emergiu como reação à dependência externa verificada nos anos do chamado "Porfiriato" (1884 a 1911). Esse sentimento nacionalista afetou também a arte, sobretudo entre os artistas modernos, que buscavam uma estética independente dos padrões clássicos europeus, que até então predominavam. 
Frida Kahlo era a terceira filha de uma família de classe média. O seu pai, o fotógrafo Guilhermo Kahlo, tinha origem alemã e a sua mãe, Matilde Calderón era uma mestiça. Os infortúnios de Frida Kahlo com a sua saúde tiveram início aos seis anos, quando contraiu paralisia infantil (poliomielite), que prejudicou o desenvolvimento de uma de suas pernas. Em função disso, passou a ter problemas para andar e mancava, algo que para uma mulher na sua fase de adolescente representava um terrível tormento. Muito próxima ao pai, que a considerava uma jovem propensa ao gosto pela cultura e pela arte, Frida via de perto o drama de Guilhermo, que sofria ataques de epilepsia. Em relação à mãe, Frida mantinha uma relação um pouco mais distante, talvez em função de seu conservadorismo. Matilde era uma católica fervorosa, mas que não escondia estar insatisfeita com o casamento.



No ano de 1922, Frida Kahlo ingressou na Escola Nacional Preparatória, voltada para os futuros estudantes do curso de medicina. Dos 2.000 alunos da escola, apenas 35 eram mulheres. Foi nessa instituição que Frida conheceu aquele que seria o grande amor de sua vida, o pintor Diego Rivera, quando este trabalhava no mural intitulado "A criação". Na verdade, Frida o vira apenas de forma fortuita, admirando o trabalho do renomado artista (na foto acima, Frida nos tempos de estudante, em uma foto tirada por seu pai em 1926). 
No dia 17.09.1925, ao retornar da escola para a casa, o ônibus em que estava sofre um violento choque com um bonde, na capital mexicana. Um corrimão de metal penetrou no corpo de Frida, como se ela tivesse sido empalada e afetou seriamente a sua coluna, além de ter sofrido múltiplas fraturas nos ossos do pé, nas vértebras e na bacia. Suas chances de sobreviver eram pequenas, de acordo com os médicos. Contudo, contrariando a previsão, a jovem conseguiu uma recuperação. Durante o mês em que permaneceu no hospital, Frida Kahlo começou a pintar e a desenhar. Anteriormente, já havia tido algumas aulas de desenho no estúdio do publicitário Fernando Fernandez. Após conseguir se recuperar, Frida deixou o hospital, mas as sequelas do terrível acidente a acompanharam pelo resto de sua vida. 



Como resultado de sua intensa participação nas atividades culturais e na política, junto com os seus colegas estudantes, Frida ingressou no Partido Comunista do México em 1928. Foi nessa ocasião que ocorreu o seu reencontro com Diego Rivera e o relacionamento amoroso entre os dois teve início (na foto acima, Diego Rivera, o mais alto ao centro com camiseta e chapéu, tendo do lado direito Frida Kahlo, em uma manifestação no dia 1º de maio de 1929). 



Tratava-se de um casal absolutamente improvável. Ele vinte anos mais velho do que ela, com mais de 1,80 de altura e ela bem mais baixa, ele gordo e ela magra (na foto acima, o casal no ano de 1928). De qualquer forma, tinha início uma relação notável que marcou a vida dos dois e o casamento ocorreu no ano seguinte. Em 1930, Frida sofre o primeiro aborto, ainda como decorrência do acidente ocorrido cinco anos antes e que afetou o osso da pélvis, impossibilitando uma gestação normal. Nesse mesmo ano, o casal viaja para os Estados Unidos, onde Rivera recebeu várias encomendas para murais nas cidades de São Francisco, Detroit e Nova Iorque. Entre idas e vindas, o casal permaneceu quase quatro anos em território norte-americano, ocasião na qual Frida buscou tratamento médico e onde veio a sofrer um novo aborto. Nesse período, a relação da casal sofreu abalos, muito em função da infidelidade do marido, algo ainda visto como natural na tradicional sociedade mexicana, além do desejo de Frida de voltar à sua terra natal e à sua cultura. 



Mas, após o retorno definitivo ao México em 1934, Frida soube que Rivera (acima, retratado por Frida em 1937) estava tendo um envolvimento amoroso com a sua própria irmã, Cristina Kahlo. A descoberta foi um duro golpe para Frida, que a partir dessa época adotou uma postura extremamente independente do marido, tendo inclusive, vários casos amorosos, com homens e até mesmo com mulheres. Além desse enorme abalo emocional, Frida ainda fez várias intervenções cirúrgicas no pé direito, tendo inclusive, que amputar alguns dedos. 



Nesse momento, até como forma de conter suas decepções pessoais, Frida parece se dedicar mais à pintura. Os seus trabalhos são basicamente figurativos, onde se destacam os primeiros autorretratos, que se tornaram muito conhecidos, mas também outros retratos de amigos e do próprio casal (na foto acima, Frida diante de um autorretrato, presente na mostra de São Paulo, em 1933, na cidade de Nova Iorque). 



Os dramas pessoais de Frida também aparecem nesses trabalhos, como as várias interrupções de sua gravidez (como no quadro acima "Nascimento" de 1932). A obra de Frida Kahlo não pode ser vista sem observarmos a sua vida pessoal e o contexto histórico das décadas de 1930 e 1940, quando tivemos a institucionalização de alguns dos ideais revolucionários de 1910, sobretudo no governo de Lázaro Cárdenas (1934-1940). Nesse período foi efetivado um plano de reforma agrária, o crescimento industrial e a nacionalização do petróleo mexicano. 



Por sua vez, Frida Kahlo assimilou de forma ímpar a influência modernista e surrealista em seus trabalhos, a ponto de ser difícil encaixa-la dentro de uma corrente artística específica. Frida Kahlo pinta no estilo Frida Kahlo (na foto acima, Frida em uma exposição de Picasso, em Nova Iorque, no ano de 1946).



A década de 1940 parece ter sido a fase de pleno amadurecimento de sua arte, onde encontramos os seus trabalhos mais característicos e marcantes, muitos dos quais estão presentes na mostra do Instituto Tomie Ohtake em São Paulo, como o "Autorretrato com Macacos" de 1943 (imagem acima). 



No "Autorretrato com Trança" de 1941, também presente na exposição (imagem acima), feito após a reconciliação com Rivera, mostram os cabelos, que antes haviam sido cortados, novamente entrelaçados, simbolizando talvez uma retomada da vida ou mesmo um renascer ao lado do esposo.



A influência da arte contemporânea européia aparece nas obras de Frida Kahlo, desde o final da década de 1930, até porque nessa época viajou a Paris, onde expôs os seus trabalhos. Após a morte do pai, Guilhermo Kahlo e o divórcio com Diego Rivera em 1939, Frida instala-se definitivamente na casa paterna em Coyoacán, que ficou conhecida como "Casa Azul", atual Museu Frida Kahlo. Dessa época em que ocorreu a separação com Rivera é que foi tirada a foto colorida acima, feita pelo fotógrafo Nickolas Muray, que foi também seu namorado.
Em 1937, o governo do presidente Lazaro Cardenas recebe como exilado político o revolucionário russo Leon Trotsky, que havia sido expurgado do governo soviético por Josef Stalin. A casa paterna de Frida Kahlo é colocada à disposição do ex-líder soviético refugiado. Foi nesse momento, em que a relação com Rivera já se encontrava abalada, que Frida teria tido um envolvimento sentimental com o "velho" revolucionário Trotsky, assassinado três anos depois, em 1940. Contudo, Frida expressa em seus trabalhos a fixação na figura de Rivera e os dois resolvem se casar novamente, no mesmo momento em que viaja aos Estados Unidos, para novos cuidados médicos, em 1940.



A década de 1940 parece profícua para Frida Kahlo, apesar dos enormes problemas de saúde (na imagem acima, autorretrato de 1948). Além da sua atividade como artista plástica, até certo ponto sem grandes pretensões em relação a ter prestígio, ela começou a ministrar aulas de pintura na Escola de Arte "La Esmeralda". O seu estado de saúde a obrigou, posteriormente, a continuar com as aulas em sua residência, na "Casa Azul" em Coyoacán. 



Apesar de manter enorme respeito pelos trabalhos de Diego Rivera e de não se comparar ao marido, gradualmente a obra de Frida começou a ser reconhecida. Em 1946 teve um trabalho seu agraciado com o Prêmio Nacional de Pintura, outorgado pelo Ministério da Cultura do México. Nessa época, o seu trabalho ganha cores vivas e mostra um enorme amadurecimento (na imagem acima, "A noiva que se espanta de ver a vida" de 1943, outra obra presente na mostra). 
Ainda em 1946, vai a Nova Iorque para se submeter a uma cirurgia na coluna, afetada pelas sequelas do acidente de 1925.



Os problemas de saúde se agravam. Somente no ano de 1950, Frida Kahlo sofreu sete intervenções cirúrgicas em sua coluna vertebral e teve que permanecer nove meses no hospital. Além disso, ficou presa à cama tendo de utilizar espartilhos de gesso. Apesar disso, não deixou de trabalhar, pintar, desenhar e escrever um diário (foto acima). Impressionava a todos os amigos com o seu vigor e desejo de viver. No ano seguinte conseguiu sair da cama para andar em cadeira de rodas e suportar as dores com remédios fortes. Nessa fase, Rivera a retratou em um de seus murais, "O Pesadelo da Guerra e o Sonho da Paz".



Em 1953, sua amiga Lola Alvarez Bravo organiza a primeira mostra individual de Frida Kahlo no México. A artista comparece à exposição em uma cama. Pouco tempo antes da abertura da mostra, ela havia amputado a perna direita até a altura do joelho. Era evidente que restava pouco tempo para Frida e a exposição foi uma justa homenagem para ela, ainda em vida. Muitos de seus amigos e admiradores compareceram à inauguração da mostra (foto acima). Os seus trabalhos estavam começando a ficar conhecidos fora do México. Muitas personalidades importantes já haviam adquirido obras de Frida Kahlo, como Helena Rubinstein e o ator norte-americano Edward G. Robinson, também conhecido colecionador de obras de arte.



No ano de 1954, o estado de saúde de Frida Kahlo se agravou e em julho é atingida por uma infecção pulmonar. Militante do Partido Comunista, ela ainda participou de uma manifestação contra a intervenção dos Estados Unidos na Guatemala, mesmo contrariando as ordens médicas para não sair de casa (acima, uma de suas últimas fotos). 



Serenamente, no dia 13.07 daquele mesmo ano, Frida Kahlo morreu, em sua "Casa Azul" onde, quatro anos depois, foi aberto ao povo mexicano o Museu Frida Kahlo, de acordo com o desejo de Diego Rivera, que sobreviveu apenas três anos à morte de Frida (na foto acima, a máscara mortuária da artista). 
A obra de Frida Kahlo, aos poucos, foi obtendo reconhecimento, sobretudo a partir do final da década de 1980. Ao lado de seus contemporâneos, como os muralistas David Alfaro Siqueiros, José Clemente Orozco e o próprio Diego Rivera, Kahlo se coloca como um dos nomes mais importantes da arte moderna latino-americana. Mas, como a mostra no Instituto Tomie Ohtake revela, com uma enorme personalidade e qualidade plástica, mesmo diante das outras pintoras que lhe foram contemporâneas e que também completam a mostra que está sendo exibida em São Paulo, das quais destacamos Leonora Carrington, María Izquierdo e principalmente, Remedios Varo, com um trabalho consistente e profundamente marcado pelo surrealismo. 



Contudo, em todos os aspectos, tanto na técnica como na singularidade temática, a obra de Frida é superior a essas outras artistas. Seus trabalhos, mesmo os mais simples (pelo menos, aparentemente, como a natureza-morta que aparece acima, com o coco vertendo lágrimas) carregam marcas que apenas uma leitura mais atenta podem ser reveladas. Além disso, Kahlo soube como nenhuma outra agregar ao seu trabalho a luz, as cores e a estampa de sua terra natal. 



Por falar em estampa, outro traço notável da artista foram os seus vestidos, cujas réplicas são exibidas na mostra (imagem acima). Por meio delas, somos remetidos às cores, às tradições e à cultura do México.
A exposição, embora não prime pela quantidade de trabalhos da pintora mexicana, representa uma amostragem notável e de grande significado, sendo acompanhada por um bom documentário sobre sua vida exibido em uma sala separada. Apenas ressaltamos que, uma vez que a mostra têm Frida Kahlo como referência maior, o vídeo exibido poderia ficar restrito apenas a ela. O outro documentário sobre Remédios Varo, embora muito interessante, é longo e para ver os dois, o visitante terá que dispender quase três horas a mais. Isso, além do fato de ter que aguardar para encontrar um lugar na sala de exibição.
Mas a mostra de Frida Kahlo, além de ser inédita no Brasil, é mais do que recomendável e a quantidade de visitantes que está sendo esperada, confirmada no dia em que estivemos na exposição, apenas nos mostra que há uma grande demanda em conhecer a obra e a vida desta notável artista. Não deixe de ver..........
Para ver:
Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas no México.
De 27.09.2015 a 10.01.2016.
De terça a domingo, das 11 às 20 horas.
Instituto Tomie Ohtake.
Avenida Faria Lima 201. Entrada pela rua Coropés, bairro de Pinheiros, São Paulo (SP).
Recomendável o uso do metrô (desembarcar na Estação Faria Lima da linha amarela, a 800 metros do Instituto).
Crédito das Imagens:
Fotos de Frida Kahlo com vestimenta tradicional de 1937, ao lado de Rivera em 1º de maio de 1929, na exposição de Picasso em Nova Iorque, 1946 e máscara mortuária: Frida Kahlo: La pintora y el mito de Teresa del Conde. Instituto de Investigaciones Estéticas/Universidad Nacional Autónoma de México, 1992. 
Fotos de Frida em 1926, em Nova Iorque no ano de 1933, do quadro o "Nascimento" de 1932, autorretrato com trança de 1941, foto colorida de 1939, autorretrato de 1948, diários, exposição individual de 1953 e presença de Frida na manifestação contra a intervenção dos E.U.A. na Guatemala em 1954: Frida Kahlo: Dolor y pasión. Taschen, Alemanha, 1992. 
Obra "A noiva que se espanta de ver a vida":
http://guia.folha.uol.com.br/exposicoes/2015/09/1685957-frida-kahlo-e-mais-15-mulheres-guiam-mostra-no-instituto-tomie-ohtake.shtml
Frida Kahlo com Diego Rivera em 1928: 
http://noticiadamanha.com.br/frida-kahlo-e-sua-casa-azul-ocupam-o-jardim-botanico-de-nova-york/
Demais fotos: acervo do autor