Pesquisar este blog

sábado, 27 de dezembro de 2014

O filme maldito: "Sangue de Bárbaros" (1956)



O filme em questão parece ter tido dois títulos aqui no Brasil: "Domínio de Bárbaros" e "Sangue de Bárbaros". O original era The Conqueror e foi lançado em 1956 ( na imagem acima, o cartaz do filme). Nada indicava que esta grande produção hollywoodiana pudesse ter êxito. John Wayne, o grande astro dos filmes de faroeste, alguns dos quais se tornaram os mais representativos do gênero, interpretando um personagem identificado com o guerreiro mongol Gengis Khan? Algo que, na melhor das hipóteses, seria considerado um tanto quanto exótico. Por outro lado, Howard Hughes, o milionário e megaprodutor norte-americano, proprietário dos estúdios RKO e ligado à indústria aeronáutica, achava que era uma boa oportunidade de emplacar um grande sucesso nas bilheterias.


John Wayne (na imagem acima, ao lado de Susan Hayward), sem refletir muito sobre as possibilidades do personagem, acabou aceitando o papel, bem como os demais astros que fizeram parte do elenco, como Susan Hayward, Agnes Moorehead, o mexicano Pedro Armendariz, Ted de Corsia e dois outros atores que ficariam mais conhecidos alguns anos depois, Lee Van Cleef e William Conrad. Muitos desses astros não poderiam imaginar o que os aguardavam.

 
E a trama? Um roteiro sem muitos recursos, onde o guerreiro mongol Temujin ou Genghis Khan, aquele que teria criado o maior império da História em termos territoriais, apaixonou-se por uma nobre de origem tártara, chamada Bortai (interpretada por Susan Hayward, na imagem acima). Temujin acabou por sequestrar a bela mulher, dando origem a uma guerra entre as duas tribos. Bortai rejeitou, inicialmente, o seu audacioso amante que tanto a desejava, sendo depois resgatada por sua tribo tártara e Temujin feito prisioneiro. Foi exatamente nesse momento que os dois personagens se aproximaram mais e Bortai se viu apaixonada pelo líder mongol, ajudando-o a escapar, a perseguir um traidor e, finalmente, vencer os tártaros.


Sim caros leitores, trata-se de mais um filme histórico. Mas, desta vez não é esse fato que iremos destacar nesta postagem. Antes fosse, para o bem do próprio elenco. A questão é a época e o local onde ocorreram parte das filmagens desta produção, em 1954, próximo à cidade de St. George, no sul do Estado de Utah, Estados Unidos (imagem acima). A cidade estava situada a aproximadamente 220 quilômetros a leste da área onde eram feitos testes nucleares a céu aberto, no Estado de Nevada.


Desde 1951, durante 12 anos, foram realizadas mais de uma centena de explosões nucleares de superfície em Nevada (na foto acima, um teste nuclear nesse local, em 1960). Muitos anos depois se descobriu que esses testes trouxeram consequências letais para os próprios militares e técnicos que participaram desses experimentos. Além disso, nuvens de radiação, da mesma gravidade daquelas provenientes da explosão da usina de Chernobyl, na União Soviética, em 1986, foram carregadas pelos ventos, indo parar até mesmo na Nova Inglaterra, no norte dos Estados Unidos. Muitos moradores da região sofreram de vários tipos de câncer nos anos seguintes, em proporções muito acima do normal.
O mundo vivia um momento de grande expectativa nos primeiros anos da Guerra Fria e a corrida armamentista trazia a possibilidade de uma nova guerra mundial, uma vez que a União Soviética iniciava a sua entrada na era nuclear e os norte-americanos já desenvolviam a bomba de hidrogênio ou termonuclear, 50 vezes mais potente do que a bomba atômica convencional.
Mas, voltemos ao filme em questão. As locações em St. George não foram concluídas em tempo hábil e por isso, o produtor Howard Hughes teria tido uma ideia interessante, retirar 60 toneladas de terra desse local e enviar para Hollywood, onde as filmagens deveriam ser concluídas em estúdio, mantendo a semelhança com o local da locação. Sim, existia conhecimento dos testes nucleares, mas o governo norte-americano teria assegurado que não haveria nenhum risco de contaminação.

 
O fato é que existem sérias suspeitas de que, uma boa parte do elenco e da equipe teriam sido vítimas da radiação das explosões. Para muitos, não se trata de simples coincidência o que ocorreu anos depois. Vamos aos fatos. Dick Powel, o diretor do filme, foi diagnosticado com linfoma e morreu em 1963, sete anos após a finalização da película. Pedro Armendariz (imagem acima) descobriu um câncer nos rins e se suicidou em 1963, após perceber que não haveria possibilidade de cura. A atriz principal, Susan Hayward, faleceu em 1975, de um tumor cerebral, depois de ter lutado durante dez anos contra a doença em outras partes do corpo.
 
 
Agnes Moorehead, conhecida do público brasileiro pelo papel de Endora, no seriado "A Feiticeira" (na imagem acima, a atriz nesse mesmo seriado), faleceu um ano antes de Susan, também vítima de câncer. Outro ator do elenco secundário, Thomaz Gomes, também sofreu com a doença.


O caso emblemático foi o de John Wayne (acima, em uma cena do filme), que travou uma longa luta contra o câncer, inicialmente nos pulmões. Em 1964, foi duas vezes para a mesa de cirurgia. Na primeira para a retirada de um tumor no pulmão esquerdo e logo em seguida para a extração do próprio orgão. A grave doença de Wayne foi escondida do público na época, sendo revelada depois pelo próprio ator. Existia, no início da década de 1960, um receio das celebridades (detesto esta palavra, mas enfim...) de revelar ao público que sofriam de doenças sérias, pois isso poderia dar uma demonstração de fraqueza, sobretudo para um ator como John Wayne, o próprio símbolo da América. Seria algo como revelar que o "Super-Homem" estivesse doente, por exemplo.  Mas John Wayne era John Wayne. Pouco meses depois, ele já estava em uma locação no México, a 2.600 metros de altitude e com o único pulmão que lhe restou, para as filmagens de "Os filhos de Katie Elder" (1965). 
Segundo nos relata o jornalista e escritor Ruy Castro, em seu livro "Um Filme é para Sempre" (Companhia das Letras, 2006), os filhos de Wayne, Michael e Patrick, e o filho de Susan Hayward, Tim Barker, também foram acometidos pela doença, pois acompanharam as filmagens de seus respectivos pais. Outro ator, John Hoyt, também faleceu de câncer em 1991.
Do total de 220 pessoas da equipe de filmagens, 91 delas foram vitimadas por alguma forma de câncer até o ano de 1981 e destas, 46 faleceram da doença até essa mesma data. O filme não foi sucesso de bilheteria, como esperava o produtor Hughes. Também não foi bem recebido pela crítica e chegou a figurar na lista das piores produções da década de 1950.
Bem, nem todos os atores que atuaram na produção de "Sangue de Bárbaros" morreram da mesma doença. Ted Corsia, Lee Van Cleef (conhecido depois nos filmes de faroeste "sphagetti" da década de 1960) e William Conrad (do seriado policial Cannon, da década de 1970) não tiveram as suas mortes associadas ao câncer.
A questão da alta incidência de casos dessa doença entre os que participaram das filmagens de "Sangue de Bárbaros" nunca foi devidamente investigada. Contudo, é praticamente certo que muitos dos moradores das áreas próximas aos testes nucleares desenvolveram a doença devido à radioatividade liberada dos testes e alguns receberam indenizações do governo norte-americano, muito tempo depois. Suspeita-se também que filhos dessas pessoas também teriam sido afetados. Tudo pela causa americana. E o herói dos faroestes e filmes de guerra, John Wayne? Foi mesmo vítima de "fogo amigo"? Tirem as suas conclusões...
Crédito das Imagens: Cartaz do filme "The Conqueror": Diccionario del cine de aventuras de Javier Coma. Barcelona: Plaza & Janes Editores, 1994, pag. 216.
Teste nuclear em Nevada, 1960:
Imagem de Agnes Moorehead como Endora: fotograma do seriado "A Feiticeira".
Demais imagens: fotogramas do filme "Sangue de Bárbaros".
 


 


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Sugestão de Filme: "Um Conto Chinês"



Nestes tempos de férias escolares, nada como aproveitar para assistir a um bom filme e, ao mesmo tempo, selecionar um material que possa vir a ser aproveitado em sala de aula ou em um debate com os alunos. É o caso, por exemplo, da produção argentina "Um Conto Chinês" (Um Cuento Chino, 2011), dirigida por Sebastian Borensztein. O elenco tem o consagrado ator  Ricardo Darin e os excelentes Huang Sheng Huang e Muriel Santa Ana.
Trata-se de uma história aparentemente fora do comum e até inverossímil. Contudo, além de seu ponto de partida basear-se em um fato verídico, uma vaca caindo do céu, os desdobramentos desse fato que repercutem na vida dos dois principais personagens, um argentino e um chinês,  permitem uma série de reflexões importantes sobre alguns temas fundamentais no mundo contemporâneo. As marcas deixadas pela Segunda Guerra Mundial, o processo de globalização, a história recente da Argentina, além de aspectos que podem ser abordados nas aulas de geografia e sociologia, como a questão da desterritorialização, do nacionalismo e da multiculturalidade, que repercutem em nosso cotidiano. E ainda na literatura, um exemplo de como uma situação aparentemente tão inusitada, pode render um excelente roteiro, um ótimo filme e mesmo servir de ponto de partida para uma narrativa escrita.


 
O enredo começa com um cena perturbadora, uma vaca caindo do céu e atingindo um barco, onde um casal de chineses celebrava o noivado. O animal atinge fatalmente a noiva, deixando o rapaz, Jun, completamente atordoado e perdido. Em busca de um parente seu que vivia na América do Sul, Jun vêm parar na Argentina e cruza no caminho com o carrancudo e pessimista Roberto (vivido por Ricardo Darin, na imagem acima contracenando com Muriel Santa Ana). Após encontra-lo abandonado no centro de Buenos Aires e incapaz de falar uma única palavra em espanhol, Roberto, sem ter como encaminhar o chinês às autoridades, acaba acolhendo Jun em sua casa, na expectativa de logo poder encontrar o tio do rapaz e resolver o problema.



O convívio entre os dois expõe (na imagem acima, o ator Huang Sheng Huang, como Jun) as diferenças de cultura e coloca o personagem Roberto em contato com uma realidade, da qual tentava se manter distante, em sua vida reclusa e tradicional, como um típico representante da classe média argentina e proprietário de uma tradicional loja de ferragens. Em sua vida solitária, Roberto passa o tempo livre colecionando recortes de notícias de jornais.



Sua vida passará por uma reviravolta, das reflexões como ex-combatente da Guerra das Malvinas, o insano conflito entre argentinos e ingleses ocorrido em 1982, de seu pai, que deixou a Europa justamente para fugir de uma outra guerra (a Segunda Guerra Mundial), do temor de se entregar a uma relação amorosa (na foto acima, Muriel Santa Ana como Mari) e a forma como enfrenta os efeitos da globalização, procurando resistir ao avassalador processo na condição de pequeno comerciante de um bairro portenho.
O final, absolutamente inesperado, dá um toque a mais a essa excelente produção, que prima pela forma como trata aspectos do cotidiano de pessoas absolutamente comuns, nestes tempos onde as antigas fronteiras políticas e culturais se mostram cada vez mais próximas de nossas vidas. Um exemplo da excelência do atual cinema argentino e que faz com que muitos de nós estejamos pensando de como um bom cinema, nem sempre depende de recursos milionários. E de como os aspectos que dizem respeito às nossas vidas cotidianas estão ficando cada vez mais distantes nas grandes produções hollywoodianas.
Para ver:
Um Conto Chinês (Argentina, 2011). Direção: Sebastian Borensztein. Elenco: Ricardo Darin, Huang Sheng Huang, Muriel Santa Ana. Disponível em DVD pela Paris Filmes. Duração: 93 minutos.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Anúncio Antigo 32: o filme "Spartacus"

 


Nas décadas de 1950 e 1960, era comum os grandes astros de Hollywood vestirem saia e sandália, para atuarem em grandes produções épicas, cujos temas faziam referência aos tempos bíblicos ou à Antiga Roma. Foi assim com Richard Burton, Victor Mature, Paul Newman, Robert Taylor, Marlon Brando, Charlton Heston, entre outros, que emprestaram a sua interpretação e, sobretudo, o vigor físico, para essas grandes produções. O astro Kirk Douglas não ficou atrás. Ele próprio produziu e atuou no clássico "Spartacus", de 1960. O roteiro, assinado por Dalton Trumbo, baseava-se no romance homônimo de Howard Fast, lançado em 1951, cujos direitos de filmagem foram adquiridos por Douglas. Trumbo era um dos inúmeros profissionais de Hollywood que foram vítimas da "caça às bruxas" contra o comunismo, promovida pelo senador norte-americano Joseph MacCarthy (daí essa perseguição ser conhecida pelo nome de macarthismo) no início da década de 1950.



 
O estúdio Universal impôs um diretor que não era o preferido por Douglas, Anthony Mann, o qual chegou a dirigir a primeira parte do filme. Os desentendimentos com Kirk Douglas (na imagem acima) levaram à escolha de um novo diretor, o então desconhecido Stanley Kubrick, que oito anos depois dirigiu "2001: Uma Odisseia no Espaço". As filmagens foram cheias de incidentes e alguns problemas de saúde envolvendo o elenco principal, como Jean Simmons e Tony Curtis. O roteiro audacioso de Dalton Trumbo permitiu que se pudesse fazer um paralelo entre a história da luta dos escravos na Roma Antiga com o período contemporâneo e os enfrentamentos  entre opressores e oprimidos. Nesse sentido, justificava a razão pela qual o filósofo alemão Karl Marx (pai do socialismo científico) considerava o escravo rebelde como um de seus personagens históricos favoritos.



O título do filme remete à forma latina do nome do personagem: o escravo trácio "Spartacus". Trácio pois teria nascido no extremo norte da Península Balcânica, onde atualmente está localizado o sudoeste da Bulgária, conhecido na antiguidade como Trácia. A figura de Espártaco inspirou pensadores políticos (além de Marx, seu seguidor, Lenin), escritores, autores de peças teatrais, além de filmes e séries de TV (na imagem acima, o ator Tony Curtis à esquerda, ao lado de Kirk Douglas). 
Pouco se sabe a respeito deste personagem da Roma Antiga. Algumas linhas escritas pelos historiadores da antiguidade fazem referência a ele e à rebelião que teria liderado, entre os anos 73 e 71 a.C. . Trata-se de algo muito semelhante ao que ocorreu com o personagem Zumbi, associado à luta de resistência dos escravos na época do Brasil Colônia, no Quilombo dos Palmares, guardadas as diferentes épocas históricas.
Os registros referentes ao personagem Espártaco são basicamente atribuídos a três escritores antigos: Plutarco, Florus e Apiano. Este último descreveu o escravo rebelde em seu livro Guerras Civis.


 

Muitas controvérsias envolveram a vida de Espártaco, existindo informações de que ele teria servido na condição de soldado auxiliar do Exército Romano, como afirmou Apiano e, após ter desertado, foi preso e escravizado. Em função de seu porte físico, foi aproveitado para as lutas no circo romano e encaminhado para uma escola de gladiadores (imagem acima, alto-relevo com gladiadores em luta), que pertencia ao romano Lentulus Batiatus, localizada em Cápua, na Itália. No ano 73 a.C., Espártaco reuniu um grupo de aproximadamente 70 gladiadores e fugiu do local.




O motim adquiriu um aspecto grave, uma vez que os participantes eram homens preparados para o combate e tinham também se apossado de um carregamento de armas, que estava a caminho de Cápua (na foto acima, punhal utilizado pelos gladiadores). O grupo de rebeldes arregimentou outros escravos, camponeses pobres e também mulheres, que acompanharam os seus maridos pelo interior da Itália. Os combatentes liderados por Espártaco acabaram se estabelecendo nas encostas do vulcão Vesúvio, próxima a atual Nápoles.
No século I a.C., Roma era abalada pelas lutas sociais, envolvendo plebeus, homens-novos (plebeus enriquecidos), patrícios (antigos aristocratas) e a população escrava, a qual crescia no mesmo ritmo da expansão territorial romana. As lutas políticas e sociais, que marcaram o período da Guerra Civil, acabaram levando ao processo de centralização do poder com os imperadores.  
Mas, voltemos ao nosso personagem. Espártaco reuniu em torno de si uma força com mais de 70 mil homens, formada por escravos das mais variadas origens (germânicos, trácios e gregos). A liderança de Espártaco pode ter sido compartilhada com outros guerreiros, como por exemplo, Crixus, embora seja algo que as fontes documentais não esclarecem de forma clara. O levante dos escravos ocorreu em um momento em que o Exército Romano enfrentava rebeliões em outras regiões, como na Espanha, o que prejudicou a ação do Estado no combate à revolta. Inicialmente, o movimento de Espártaco não era considerado como uma guerra pelas autoridades romanas, pelo menos até o momento em que começaram as primeiras derrotas do lado romano.
 

 
As tropas de Espártaco utilizavam táticas diferentes para enfrentar os romanos, como ataques de surpresa e pela retaguarda, o que demonstrava que o nosso personagem, além de um grande lutador, era também um bom estrategista. No inverno entre os anos 73 e 72 a.C., os escravos treinaram táticas militares, se armaram ainda mais e equiparam novos recrutas, ampliando a sua área de influência (na foto acima, um elmo ou protetor de cabeça, utilizado pelos gladiadores romanos).
 
 
 
Segundo relata o historiador romano Salústio, o comandante Espártaco procurou disciplinar as suas tropas, agindo mais pela persuasão e pelo convencimento, do que pela rigorosa disciplina militar romana, combatendo os excessos cometidos pelos escravos nos saques e ataques à Itália (na foto acima, estátua de gladiador, esboçando defesa). Salústio também apontou alguns sinais de divisão entre os escravos, como no caso de Crixus, que se separou dos rebeldes, sendo depois derrotado e morto pelos romanos.

 
Em 72 a.C., os escravos de Espártaco iniciaram um movimento para o norte, em direção aos Alpes (acima, na imagem do filme, Espártaco e seus guerreiros). Nesse momento, duas legiões romanas (algo em torno de 10 mil soldados) foram derrotadas pelos guerreiros de Espártaco e o caminho parecia estar aberto para os escravos rebeldes deixarem a Itália. Contudo, por razões não muito bem esclarecidas, Espártaco deu meia volta e se dirigiu ao sul. Talvez pretendesse atacar Roma ou rumar em direção à ilha da Sicília para sublevar os escravos de lá e ampliar ainda mais a área de ação de suas forças. Os historiadores não conseguiram determinar qual teria sido o objetivo maior de Espártaco. Talvez organizar uma sublevação geral na Itália ou apenas promover a volta dos escravos às suas regiões de origem. Muitos contingentes de guerreiros tinham grande interesse nos saques e isso dificultava a imposição de um comando a todo o movimento.
 
 

 
Alarmados diante da ameaça de Espártaco, o Senado romano, principal instituição política da época, incumbiu Marcus Licinius Crassus (na imagem acima, o recinto do Senado, reconstituído para o filme), um rico general, de dar combate a Espártaco e desbaratar o seu exército. Crassus recebeu oito legiões (cerca de 40 mil soldados) para executar a tarefa.
 
 
 
 
Enquanto isso, as tropas de Espártaco receberam a promessa de ajuda dos piratas do sul da Itália, para conseguir barcos e atravessar o estreito de Messina, rumo à Sicília. Contudo, Espártaco foi traído pelos mesmos, depois de já ter pago o transporte de suas tropas. Sem poder retornar para o norte, se viu obrigado a enfrentar as tropas de Crassus (na imagem acima, o ator inglês Laurence Olivier, como Crassus) em um combate decisivo, no qual, como narra o escritor romano Apiano, Espártaco foi morto no campo de batalha, após oferecer dura resistência. Apiano ainda acrescentou que o seu corpo nunca foi reconhecido. Uma outra versão, do historiador Plutarco, afirmava que antes de morrer, Espártaco buscou encontrar Crassus para enfrentá-lo, sendo abatido pelos legionários romanos. Portanto, a parte final do filme, onde Espártaco e Crassus se colocam frente a frente nunca ocorreu, baseando-se apenas na versão romanceada de Howard Fast. Da mesma forma o destino de sua esposa é completamente desconhecido.
 
 
 
O que restou do exército de escravos foi sendo desbaratado aos poucos por outros generais romanos, um deles foi Pompeu. Após a derrota de Espártaco, 6 mil escravos foram crucificados por ordem de Crassus (como na imagem acima extraída do filme), ao longo da estrada que ligava Roma a Cápua. Posteriormente, o general Crassus participou da luta pelo controle do poder em Roma, junto com Pompeu e outro ilustre general romano, Júlio César, mas poucos anos depois, acabou morto em um combate no Oriente Médio.
Em relação ao filme, uma das cenas marcantes mostradas no final, que em termos históricos não pode ser comprovada,  quando após a batalha contra Crassus, os legionários romanos chamam por Espártaco entre os prisioneiros e todos gritam em coro: "Eu sou Espártaco". Por outro lado, algumas cenas não foram mostradas ao público por ocasião do lançamento do filme, em 07.10.1960. Apenas em 1991, uma versão restaurada foi lançada com os acréscimos deixados de lado, como a cena que insinuava uma suposta relação homossexual entre Crassus e o seu escravo Antoninus (vivido por Tony Curtis) e algumas sequências de batalhas consideradas violentas demais. O filme recebeu 4 Oscars, inclusive para o excelente Peter Ustinov, como melhor ator coadjuvante, no papel de Batiatus.
O Anúncio Antigo de hoje foi tirado de uma edição do jornal "O Estado de S. Paulo" de 1976. Infelizmente não consegui determinar a data precisa, mesmo consultando o arquivo do Estadão. Em São Paulo, o filme foi lançado no antigo Cine Rio Branco, em 23.03.1961.
Crédito das Imagens: Fotogramas do filme "Spartacus" de 1960. As fotos do punhal, do elmo e da escultura de um gladiador em luta foram extraídas do catálogo da exposição "Roma: a vida e os imperadores", exibida em São Paulo, no MASP, no ano de 2012.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

João Goulart e o Golpe de 1964 parte II



O impasse havia sido instalado em 25 de agosto de 1961 com a renúncia de Jânio Quadros. Os militares não desejavam ver o vice, João Goulart (Jango), na presidência e este não tinha garantias de retornar ao Brasil em segurança para poder tomar posse, aliás, como mandava a Constituição. A renúncia de Jânio foi um fator desestabilizador para o regime democrático liberal, que o Brasil vivia naquele início da década de 1960. Os próprios ministros militares (na época, cada uma das Armas tinha um ministério) prevendo os problemas futuros, pediram a Jânio Quadros que reconsiderasse a decisão e o presidente teria respondido: "Com este Congresso não posso governar. Formem uma junta." E foi o que os militares, na prática, fizeram. 


 
Apesar do presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazilli, ter legalmente assumido a presidência, uma vez que o vice João Goulart se encontrava em viagem à China, a tutela do governo estava nas mãos dos três ministros militares: o almirante Silvio Heck, o general Odílio Denys e o brigadeiro Grum Moss (respectivamente, da esquerda para a direita, na imagem acima). Os militares pretendiam evitar a posse de João Goulart pressionando o Congresso a aprovar o impedimento do vice-presidente. O fato de Jango estar visitando a China comunista foi usado como mais um motivo para apontar as inclinações esquerdistas do vice-presidente e inviabilizar a sua posse. 
Sem garantias de desembarcar no Brasil em segurança e ameaçado de ser preso pelos militares se viesse a tentar, Jango iniciou um périplo por várias cidades do mundo, como Cingapura, Zurique, Barcelona, Paris e finalmente, Montevideu, no aguardo de uma saída para o desfecho do impasse gerado pelo veto militar à sua posse. 

 
Enquanto isso, o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (na imagem acima, Brizola armado com uma submetralhadora), iniciava uma enorme mobilização popular a fim de dar a João Goulart apoio para retornar ao país e assumir, de forma constitucional, o cargo de presidente da República. Populares saíram às ruas de Porto Alegre e se concentravam em frente ao Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, em apoio a Jango. Por meio de uma cadeia de rádio, Brizola enviava mensagens à população pedindo calma e atacando os ministros militares, acusando-os de tentativa de golpe. 



 
A situação começou a caminhar para um conflito armado. O serviço de radio do governo gaúcho teria interceptado uma mensagem, na qual o ministro Odílio Denys ordenou o bombardeio, por jatos da Força Aérea Brasileira (FAB), ao Palácio Piratini, onde se encontrava o governador Brizola e seus assessores. Além disso, com o apoio da Marinha, uma esquadra capitaneada pelo porta-aviões Minas Gerais (na imagem acima, o Minas Gerais ruma para o litoral gaúcho) era deslocada em direção ao sul. Os ministros militares deram ordens ao III  Exército (que reunia as tropas de toda a região Sul do Brasil) para que também participasse do ataque à sede do governo gaúcho. 
Enquanto isso, Brizola mobilizou a Brigada Militar (uma espécie de Polícia Militar na época), que se posicionou em pontos estratégicos no centro de  Porto Alegre, para resistir à uma possível ação das Forças Armadas contra ele. Da sede do governo, Brizola disse: "O primeiro tiro não será nosso, mas com certeza o segundo sim."


 
A grande expectativa estava em torno do posicionamento do general Machado Lopes, comandante do III Exército, que solicitou uma audiência com Brizola. Era esperado que o governador recebesse um ultimato para deixar o governo e ser imediatamente preso. Em reposta a essa ameaça, Brizola declarou: "se ocorrer a eventualidade do ultimato, ocorrerão, também, consequências muito sérias. Porque nós não nos submeteremos a nenhum golpe. A nenhuma resolução arbitrária. Não pretendemos nos submeter. Que nos esmaguem! Que nos destruam! Que nos chacinem, neste Palácio! Chacinado estará o Brasil com a imposição de uma ditadura contra a vontade de seu povo. Esta rádio será silenciada. O certo porém é que não será silenciada sem balas". Pela Cadeia da Legalidade (na imagem acima, o governador enviando uma mensagem pelo rádio), Brizola atacava o general Denys, acusando-o de demente e de pretender atirar o país em uma guerra civil. Os discursos de Brizola alcançavam outros Estados e até o exterior.




A mobilização popular pela posse de Jango levou o general Machado Lopes a aderir à causa da legalidade, mesmo contra as ordens do ministro do Exército. A população gaúcha correspondeu aos apelos de Brizola. Grupos de civis formados por trabalhadores, populares e estudantes começaram a ser arregimentados para a resistência. Voluntários se apresentavam para a luta nas mais importantes cidades do Rio Grande do Sul. Até grupos antagônicos se uniram ao governador, como os integrantes do antigo partido Libertador. Os dirigentes do Grêmio e do Internacional declararam solidariedade a Brizola, em um documento. O governador, de fato, estava disposto a ir à guerra. Tropas do III Exército se mobilizavam para resistir ao avanço dos soldados do II Exército (na imagem acima, soldados do III Exército se preparam para explodir uma ponte).


Como pudemos observar, mesmo entre os militares, a oposição à posse de Jango estava longe de ser unanimidade. Entre os setores civis da sociedade também não havia uma opinião comum em relação ao impasse, e muitos governadores estaduais apoiavam a posse de Jango, entre eles, Carvalho Pinto de São Paulo, Ney Braga do Paraná e Mauro Borges de Goiás. Mas, sem dúvida, o grande foco da resistência constitucional a favor da posse de Jango era Leonel Brizola, com a sua Rede da Legalidade. Por outro lado, a liderança civil de peso contrária a Jango e que propôs o ataque ao sul do país contra Brizola, foi o governador do antigo Estado da Guanabara, Carlos Lacerda (na imagem acima). Segundo uma pesquisa do Ibope do final do mês de agosto de 1961, 81% da população da Guanabara era a favor da posse do presidente Jango, algo que não respaldava a atitude de Lacerda.



O Congresso Nacional, por meio das suas lideranças mais moderadas, entre elas Tancredo Neves, articularam uma saída vista como honrosa para os dois lados, uma solução de conciliação: o parlamentarismo. Goulart assumiria com os seus poderes de presidente limitados e apenas como chefe de Estado, cabendo a um primeiro-ministro o comando efetivo do governo. A solução implicava na aprovação emergencial de uma emenda constitucional, permitindo a implantação do novo regime de governo. Coube ao próprio Tancredo Neves chefiar uma delegação do Congresso Nacional, enviada a Montevideu, no Uruguai, para convencer Jango a aceitar a alternativa parlamentarista. Dessa forma, Goulart pode retornar ao país (na foto acima, Jango acena após chegar a Porto Alegre) e assumir a presidência em 07.09.1961. O desembarque de Jango no Brasil não deveria ser acompanhado de discursos ou manifestações, de acordo com a vontade dos ministros militares. Para muitos aliados de Jango, na época, como o então petebista Almino Affonso, existiam condições plenas para que Goulart assumisse a presidência dentro do regime presidencialista. Seus opositores no setor militar não teriam condições, naquele momento, de juntar forças suficientes para impedi-lo de retornar ao país e tomar posse. De qualquer forma, Jango não quis "pagar para ver" e aceitou as condições que lhe foram impostas, sendo muito criticado e até chamado de covarde. Jango alegou que a alternativa permitiu a sua posse e evitou um confronto armado de consequências imprevisíveis. A emenda constitucional nº 4, que foi aprovada pelos parlamentares, previa a realização de um plebiscito (consulta popular) a ser marcado pelo Congresso Nacional, a fim de manter ou não o parlamentarismo. Durante todo o ano de 1962, Jango buscou articular a aprovação da consulta popular, como forma de recuperar os seus poderes, com a possível volta do presidencialismo.



Era evidente que a solução parlamentarista era desconfortável para Jango, principalmente porque o novo sistema não permitia ao presidente dissolver o Congresso e convocar novas eleições. Além disso, as funções do chefe de Estado e do chefe de governo (primeiro-ministro) não eram bem definidas. Sem poder exercer plenamente os poderes de governo, Jango teve que se submeter aos três gabinetes parlamentaristas escolhidos em 1962. O primeiro foi chefiado por Tancredo Neves (ao centro, na imagem acima), depois Brochado da Rocha e por último, Hermes Lima. Os três mostraram uma linha de governo que se colocava entre moderada e conservadora, e muito influenciada pelo PSD (Partido Social Democrático), o partido que tentava ser um ponto de equilíbrio entre a UDN (União Democrática Nacional) mais conservadora e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), com a suas propostas reformistas seguindo a tradição do trabalhismo de Getúlio Vargas.
Na fase parlamentarista, a política externa independente, iniciada ainda no governo de Jânio Quadros, foi mantida, visando a ampliação dos mercados para os produtos nacionais. A aproximação com o bloco socialista, o reatamento das relações diplomáticas com a União Soviética e a posição do governo brasileiro, contrária ao bloqueio proposto pelos Estados Unidos contra Cuba, estavam inseridas dentro dessa política. O governo norte-americano não recebia bem esse posicionamento, uma vez que o combate ao comunismo caracterizava a postura da Casa Branca no contexto latino-americano.  



Para amenizar o atrito com os Estados Unidos, em abril de 1962 Jango viajou até Washington para um encontro com John Kennedy (na imagem acima, os dois presidentes). A recepção do presidente americano foi amistosa. Goulart recebeu a promessa de ajuda financeira e maiores investimentos no Brasil por parte dos empresários daquele país. As desapropriações de empresas americanas, como as que foram realizadas pelo governador Leonel Brizola, no Rio Grande do Sul, eram entraves nas relações entre os dois países e requeriam mais negociações. Na visita, Jango teve a oportunidade de conhecer uma base aérea situada em Omaha, no Estado de Nebraska, onde observou de perto o comando dos mísseis atômicos de longo alcance e dos aviões bombardeiros B-52, que portavam ogivas nucleares. Antes de voltar ao Brasil, João Goulart passou pelo México, onde se percebeu que o presidente brasileiro tinha problemas cardíacos, após ter um mal estar.
Em 1962, o país passava por dificuldades econômicas, com o aumento da inflação e da dívida externa, proveniente da política de crescimento acelerado dos anos de Juscelino Kubitschek (1956-1961). A fase parlamentarista não conseguiu propor soluções efetivas para tais problemas, os quais acabaram se agravando, diante da falta de uma diretriz econômica mais clara por parte do governo. Ao mesmo tempo, as classes sociais menos favorecidas encaminhavam uma pauta de reformas e compensação salarial. O campo era um setor problemático, pois a demanda pela reforma agrária, encaminhada pelos sindicatos rurais e pelas Ligas Camponesas no Nordeste, entrava em choque com a resistência dos grandes proprietários e fazendeiros. As reformas sociais ou "de base" como eram chamadas, soavam como sendo algo "esquerdizante" por parte dos setores conservadores, empresários, Igreja Católica e setores da classe média brasileira.
Para promover o combate ao comunismo que estaria por detrás dessas propostas, surgiram organizações articuladas nos setores empresariais e que teriam recebido apoio financeiro do governo norte-americano, como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD). Essas instituições realizavam palestras, exibiam filmes em empresas, campanhas no sentido de defender a livre iniciativa e o livre mercado, diante da ameaça comunista. Nas eleições, patrocinavam e financiavam a candidatura de políticos mais conservadores e que combatiam os movimentos de esquerda, atuantes na época.



Finalmente, em 06.01.1963, a população brasileira aprovou, por uma maioria esmagadora, o retorno ao presidencialismo. Agora, Jango (na imagem acima, em uma solenidade em 1961) poderia assumir com os poderes de chefe de governo e estabelecer as pautas de ação, com uma equipe de ministros nomeada por ele. Figuras de destaque, como San Thiago Dantas, Celso Furtado, José Ermírio de Moraes, Evandro Lins e Silva, Darcy Ribeiro, Almino Afonso, entre outros, compuseram o novo governo, que tomou posse em 24.01.1963. Tratava-se de um ministério de "notáveis", quando comparado aos padrões atuais.
Como forma de rearticular a economia, Celso Furtado, ministro extraordinário do Planejamento, propôs o Plano Trienal. Um dos principais objetivos era o de conter a inflação e restaurar o crescimento econômico, que chegou a alcançar 7% do PIB (Produto Interno Bruto) nos tempos de Juscelino. Contudo, não previa, inicialmente, uma política salarial que estivesse de acordo com o que os trabalhadores pleiteavam. Ao mesmo tempo, pretendia reduzir os gastos públicos e os subsídios, apesar de se referir às reformas estruturais, como a redistribuição da terra. Apesar dos esforços de Goulart, o Plano Trienal não conseguiu angariar apoio para ter continuidade plena.
 Jango começava a se colocar em uma encruzilhada. De um lado, a necessidade de atender as camadas populares dentro da tradição trabalhista e de outro, conter os ataques que sofria dos setores mais à direita e que ansiavam pela estabilidade econômica. A UDN canalizava a oposição a Jango, através do governador da Guanabara, Carlos Lacerda, o "demolidor de presidentes". A busca de apoio social para realizar um amplo programa de reformas, que ficariam conhecidas como as Reformas de Base, poderia colocar contra Jango esses setores e os militares, que tanto o rejeitavam, mas que agora poderiam ter um respaldo maior do que tiveram em 1961, inclusive o apoio do governo norte-americano.
O início de 1964 seria decisivo para Jango e para o destino do país. A tal da "guinada para a esquerda" do presidente Goulart veio a precipitar a situação tensa, já desenhada no final de 1963, com a Revolta dos Sargentos. Os "idos de março", como ocorrera outrora com o governante romano Julio Cesar, encaminharam a solução para o governo Jango e para o futuro do Brasil. É o que veremos na ultima parte desta postagem......
Para saber mais:
Caio Navarro de Toledo. O Governo Goulart e o Golpe de 64. São Paulo: Editora Brasiliense (Coleção Tudo é História), 1982.
Crédito das Imagens:
As fotos de Tancredo Neves, Kennedy e Goulart e do presidente Jango em solenidade de 1961, foram retiradas do livro Arquivo em Imagens número 4: Série Ultima Hora Política. São Paulo: Arquivo do Estado, 1999, páginas 92, 96 e 95. As demais imagens foram extraídas da revista "Fatos e Fotos", edição de 09.09.1961.

           

 

           

           




 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Anuncio Antigo 31: Pasta para os Seios

 
 
 
 
Muitos consideram que a época atual é marcada pela extrema preocupação com o corpo e com os padrões de beleza impostos pela sociedade de consumo, que privilegiam a mulher magra ou "sarada", utilizando uma expressão do nosso cotidiano. O mesmo também vale para os homens, mas não há duvida que a mídia em geral, a publicidade e as imagens que vemos quando olhamos as capas de revista, os filmes no cinema e os programas de televisão, privilegiam as modelos com esse perfil de beleza, até com um certo exagero nas silhuetas, parecendo muitas vezes que as mesmas estejam em estágio avançado de desnutrição. Uma verdadeira "ditadura da beleza" é imposta às mulheres, muitas das quais sentem enorme frustração em não poder alcançar tais padrões.
Por outro lado, em nossa sociedade machista, certas partes do corpo feminino são mais destacadas, como os glúteos e os seios, levando muitas mulheres e modelos às clinicas de cirurgia plástica para realizar enchimentos e ressaltar os aspectos anatômicos, tidos como os mais desejados pelos homens. Trata-se de uma visão distorcida do sexo feminino, como se as mulheres fossem objetos de consumo. Muitas vezes não há limites para isso, alcançando-se excessos, os quais, inclusive, podem levar à morte, como as infiltrações de silicone industrial ou o conhecido hidrogel, um composto de poliamida e soro fisiológico, utilizado para reduzir rugas, celulites e cicatrizes. Esse produto é muito usado também para "redesenhar" partes do corpo, como o bumbum e as pernas. Quando aplicado em quantidades acima do recomendado, o composto pode se espalhar por outras partes do organismo, gerando infecções ou até mesmo penetrando nos vasos sanguíneos, provocando morte por embolia.
Contudo, houve uma época em que métodos mais inofensivos eram utilizados para ressaltar algumas dessas partes do corpo da mulher. Que o diga o Dr. Ricabal e a sua brilhante invenção do início do século XX: a Pasta Russa. Sem dúvida, nessa época, as partes do corpo feminino que tinham maior visibilidade eram os seios e a cintura, neste último caso com o uso dos espartilhos, uma verdadeira tortura para as mulheres no século XIX e início do XX. Já a maior visibilidade das pernas teria que aguardar o advento da minissaia, na década de 1960.
Não temos maiores informações a respeito da eficácia da "Pasta Russa", algo pouco provável. Porém, uma coisa é certa, também não temos notícia de casos fatais registrados a partir do manuseio desse produto.
O Anuncio Antigo de hoje foi publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" de 20.11.1917.
 
 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Anúncio Antigo 30: Televisor Submetido a Tortura



No mínimo, este anúncio de aparelho de televisão deveria ser considerado de um enorme mau gosto para a época em que foi publicado. Era o ano de 1969. O país estava sob a vigência do Ato Institucional  No. 5 ou AI-5, que estabeleceu restrições às manifestações políticas, à liberdade de informação e de se fazer qualquer tipo de denúncia contra os atos repressivos promovidos pela Ditadura Militar (1964-1985) e pelos organismos policiais e militares de segurança. Ao mesmo tempo, a censura a imprensa estava em pleno vigor. Nesse mesmo ano, havia chegado ao poder o general Emílio Garrastazú Médici, sendo que seu governo (1969-1974) marcou o pior momento da ditadura em termos repressivos. Foram os chamados "anos de chumbo". 
Na impossibilidade da participação política em razão do fechamento do regime, muitos jovens e estudantes universitários aderiram à luta armada e à atuação nos muitos grupos guerrilheiros que surgiram naquela época. Em 1969, o sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, acabou levando à libertação de vários presos políticos, muitos dos quais já estavam sendo submetidos a violentas torturas, em troca da libertação do diplomata. Entre os 15 prisioneiros que foram libertados, estavam três dos mais importantes líderes estudantis da época, José Dirceu, Vladimir Palmeira e Luís Travassos, além do militante comunista Gregório Bezerra. Por outro lado, na sequência, a brutalidade com que o governo perseguiu os autores do sequestro e outros grupos políticos foi enorme. 
Pois bem, o anúncio acima, de um televisor da marca Philips, fazia alusão explícita à prática da tortura, ao colocar que: "Na câmara de torturas, o TV Philips 550 resistiu a tudo." O Brasil começava a viver a hegemonia da televisão como veículo de comunicação de massa e exatamente nessa mesma época, a Rede Globo se tornava a grande "campeã de audiência" com suas novelas e programas de entretenimento. A televisão ainda era em preto e branco, mas apenas três anos depois, em 1972, começaram as transmissões em cores no Brasil. O primeiro evento colorido transmitido pela televisão brasileira foi a abertura da Festa da Uva em Caxias do Sul, que contou com a presença do próprio presidente Médici. 
O Anúncio Antigo de hoje foi  publicado no jornal "O Estado de São Paulo" do dia  5 de outubro de 1969. 















domingo, 19 de janeiro de 2014

História Mundi no Facebook




Para os caros leitores do História Mundi, um outro espaço foi reservado para a divulgação do acervo de imagens e pequenos resumos referentes ao material publicado. Trata-se de uma página no Facebook com o mesmo título "História Mundi". Com isso, o blog dispõe de mais uma alternativa para aqueles que se interessam pelos temas relacionados ao conhecimento histórico ou por assuntos que podem servir como uma janela para a interpretação de uma determinada época. 
A página do Facebook é identificada com a imagem acima, um detalhe da cabeça do imperador romano Augusto, que é parte da estátua conhecida pelo nome de "Prima Porta" e que se encontra no Museu do Vaticano. 
O endereço da página é:
https://www.facebook.com/histormundi

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

João Goulart e o Golpe de 1964 parte I



O golpe de 31 de março de 1964 não foi apenas militar como a maioria dos jornais e livros indicam ao senso comum. Não ficou restrito aos quartéis e aos que vestiam farda. Na verdade, ao derrubarem o presidente constitucional e legal, os militares demonstraram estar em sintonia com alguns setores da sociedade civil identificados com uma boa parte da elite brasileira, desejosos de ver afastado João Belchior Marques Goulart (acima, em uma foto de 1962) da presidência da República. As suas propostas de reformas sociais e econômicas não foram bem recebidas por esse segmento, por setores ligados ao capital estrangeiro e pelo governo norte-americano. 
O início da década de 1960 era um momento turbulento no Brasil e na América Latina com o fantasma do comunismo rondando o continente mais de perto. A Revolução Cubana de 1959 e sua guinada para o socialismo demonstraram a possibilidade de que movimentos populares pudessem ter êxito no continente e ameaçassem a influência norte-americana nas Américas. Temia-se por aqui o chamado "efeito dominó" que ocorreu na Ásia a partir da Revolução Chinesa, ou seja, com a queda de uma "peça" as demais caem juntas. Primeiro foi a China, depois a Coréia do Norte e em seguida o Vietnã do Norte. Era preciso conter a influência das esquerdas e evitar que a mesma se alastrasse pelo continente.
A esse quadro internacional típico dos anos da Guerra Fria, o conflito ideológico e político que envolvia Estados Unidos e União Soviética desde o final da Segunda Guerra Mundial em 1945, devemos associar a situação interna do Brasil. De um lado uma elite ligada aos setores empresariais, financeiros e latifundiários que era refratária a qualquer programa de reformas sociais, identificando estas ao comunismo e de outro os setores ligados aos movimentos populares, sindicais e os partidos mais à esquerda, que viam a necessidade de realizar avanços sociais, como por exemplo, estender ao trabalhador rural as conquistas da legislação trabalhista, ampliar a participação política com o voto aos analfabetos, promover a legalização do Partido Comunista, combater a influência de um capital estrangeiro voraz na busca de lucro e realizar a reforma agrária.



João Goulart expressava a tendência reformista no cenário político brasileiro das décadas de 1950 e 1960. Nascido em 1919, tornou-se pecuarista na região de São Borja no Rio Grande do Sul. Goulart era tido como um grande empresário rural, tendo obtido êxito na compra de gado para engorda e na venda do mesmo para os frigoríficos. Constituiu uma fortuna pessoal que se materializou no aumento do seu rebanho e na aquisição de terras (na foto acima, de botas e bombacha em sua fazenda em São Borja). A proximidade dos Goulart com a família de Getúlio Vargas ajudou muito "Jango", apelido pelo qual era conhecido desde pequeno, a se aproximar do grande líder político do Brasil da época. A família Vargas também tinha as suas propriedades e fazendas em São Borja. Essa aproximação se tornou maior quando Vargas foi deposto do governo pelos militares em novembro de 1945 com o fim da ditadura do Estado Novo.


Tendo que retornar à sua terra natal, Vargas encontrou na amizade quase filial de João Goulart um apoio fundamental durante o período de ostracismo que desfrutou dentro de seu próprio país, após ter deixado o governo. Além de ter ajudado o ex-presidente a organizar a sua pequena fazenda e torna-la produtiva, Jango foi importante cabo eleitoral na eleição de 1950 que trouxe Getúlio de volta ao poder (na foto acima, Getúlio e Jango, à direita, na campanha eleitoral de 1950), "carregado nos braços do povo" como diziam os seus seguidores. Outra tarefa importante que Vargas atribuiu a João Goulart foi a organização do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), criado a partir da liderança do próprio Getúlio e associado aos sindicatos que defendiam a ampliação das conquistas trabalhistas. Na organização do partido no Rio Grande do Sul, uma outra jovem figura do cenário político local ganhava destaque, Leonel de Moura Brizola, que se casou com Neusa Goulart, irmã de Jango. De origem humilde e tendo de trabalhar para financiar os seus estudos, Brizola se tornou um político importante depois de conquistar a prefeitura de Porto Alegre em 1955.


Jango ( na imagem acima, candidato a deputado em 1950) teria um papel de destaque no segundo governo Vargas (1951-1954), sendo alçado ao Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio em 1953. Mas a volta de Getúlio à presidência não foi tranquila. Uma feroz oposição contra o seu governo foi armada pelo principal partido de oposição, a União Democrática Nacional (UDN), por meio de seu principal líder, o deputado e jornalista Carlos Lacerda, que assumia uma postura conservadora, embora em sua juventude tenha apoiado Luis Carlos Prestes e o Partido Comunista. A UDN era um partido de tendência liberal conservadora e que representava os interesses da privilegiada elite social da época e dos setores vinculados ao capital estrangeiro que pretendiam ampliar a sua participação aqui. O discurso moralista desse partido também influenciava uma boa parte da classe média urbana. Uma das questões que dividiam na época, os nacionais reformistas e os conservadores era a campanha do "Petróleo é Nosso", que culminou com a criação da Petrobrás pelo governo Getúlio Vargas, em 1953. A criação da estatal do petróleo representou uma vitória dos setores nacionalistas. 
A forma como João Goulart atuava à frente do Ministério do Trabalho recebendo os sindicatos e os dirigentes dos mesmos, buscando uma aproximação com a classe trabalhadora e com os operários, gerou ataques por parte da oposição, de que o ministro estaria pretendendo implantar no Brasil, com a ajuda de Getúlio, uma república sindical nos moldes do peronismo argentino. Ao mesmo tempo, a imprensa oposicionista denunciava a aproximação de Jango com os comunistas. O debate político acabou envolvendo também as Forças Armadas, dividindo os militares nacionalistas e aqueles mais alinhados com os Estados Unidos na fase da Guerra Fria, os quais viam uma crescente influência do comunismo no movimento sindical e trabalhista. A proposta de aumento do salário mínimo em 100% precipitou a saída de Goulart do ministério.
Em 1954 as pressões contra Getúlio Vargas aumentaram. O atentado contra o jornalista Carlos Lacerda em agosto daquele ano, feito por um pistoleiro a mando de Gregório Fortunato, segurança pessoal do presidente, precipitou uma crise, que só poderia ser resolvida com a renúncia de Getúlio. A oposição capitaneada pela UDN e os principais chefes militares pressionaram o presidente a se retirar do governo.


Após uma tensa reunião ministerial, da qual participou o então ministro da Justiça Tancredo Neves, Getúlio concordou em pedir uma licença do cargo de presidente. Mas, na manhã seguinte, no dia 24 de agosto de 1954, um estampido foi ouvido na palácio do Catete. Getúlio tinha se suicidado com um tiro no coração. João Goulart foi um dos primeiros a chegar ao palácio e ver o presidente morto (na imagem acima, Jango no velório de Getúlio). O gesto dramático de Getúlio Vargas calou os seus opositores. A população saiu às ruas da capital e atacou os jornais oposicionistas, entre eles a Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda e O Globo do jornalista Roberto Marinho. A embaixada dos Estados Unidos foi também alvo das hostilidades dos manifestantes. Para muitos, o suicídio de Getúlio impediu a concretização de um golpe ou adiou o mesmo em dez anos.


O cortejo fúnebre de Getúlio no Rio de Janeiro foi acompanhado por centenas de milhares de pessoas e em São Borja, terra natal do presidente, políticos fizeram uma verdadeira romaria para acompanhar o enterro. Mas dentre estes últimos, o destaque ia para aquele que mais de perto acompanhara os últimos dias do presidente e sentira as pressões contra ele: João Goulart. Em um discurso dramático no sepultamento de Getúlio (na imagem acima, Jango chora diante do caixão de Vargas), Jango disse: "Até a volta, Dr. Getúlio Vargas. Vai como foram os grandes homens. Tu que soubeste morrer, levas neste momento o abraço do povo brasileiro, levas especialmente o abraço dos humildes, levas o abraço daqueles que de mãos calejadas e honradas constroem a grandeza da nossa pátria. Nós estamos contigo e contigo está todo o povo brasileiro." 
A morte de Getúlio abalou profundamente Jango, que cogitou em deixar a vida política e voltar a se dedicar às suas fazendas e à criação de gado. Contudo, o PTB precisava superar a perda de seu líder e retomar a sua organização a nível nacional. O vice Café Filho assumiu a presidência após a morte de Getúlio Vargas e formou um ministério com perfil conservador. Mas, no ano seguinte, em 1955, deveriam ser realizadas as eleições presidenciais, as quais os militares e a UDN desejavam que não ocorresse em função do país ainda enfrentar a comoção causada pelo desaparecimento de Getúlio, o qual, mesmo depois de morto, ainda assustava os seus opositores.
Contudo, um outro nome ganhou destaque na disputa pelo palácio do Catete, o do governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek de Oliveira ou simplesmente "JK". Ligado ao Partido Social Democrático (PSD) que reunia alguns setores ligados à elite e aos proprietários de terra, embora na sua origem tenha recebido o aval do getulismo e que tinha a sua base em Minas Gerais, daí ter ficado conhecido como o "partido dos mineiros", JK despontava como um político moderno e empreendedor. Mas a UDN o identificava com Getúlio Vargas e às forças que apoiavam o trabalhismo sindical. Portanto, nada melhor do que unir o nome de Juscelino ao de Jango, em uma aliança tida como quase imbatível: JK presidente e Jango vice. O resultado esperado se concretizou nas eleições de 1955. Interessante lembrar que naquela época, a eleição para vice-presidente era separada, embora os candidatos pudessem criar uma chapa para concorrer. Juscelino derrotou Juarez Távora, candidato a presidente pela UDN, mas Jango recebeu mais votos para vice-presidente do que o próprio presidente eleito, com uma diferença de 600 mil votos a favor de Goulart.


Embora não fosse uma exigência formal, a condição de vice-presidente da República pedia que Jango tivesse uma esposa. Conhecido como namorador e com uma queda pelas estrelas do chamado "teatro de revista", Jango costumava frequentar espetáculos e shows de vedetes na capital federal. Mas, há algum tempo, Goulart flertava com uma jovem que tinha também origem em São Borja, Maria Thereza Fontella. Os dois se conheceram quando a moça tinha apenas 13 anos e quando completou 17, Jango a pediu em casamento em 1956. Maria Thereza Goulart preparava-se para se tornar a mais bela primeira dama da história da República Brasileira (na imagem acima, perfil de Maria Thereza Goulart, em foto sem data).


A eleição de Juscelino Kubitschek na coligação PTB-PSD foi contestada pela UDN, que teve o seu candidato Juarez Távora derrotado nas eleições. Os udenistas alegavam não ter havido maioria absoluta dos votos para legitimar o pleito. Uma conspiração golpista arquitetada pela UDN e pelo presidente interino Carlos Luz ameaçava a posse de JK e Jango. Para evitar isso, o general legalista Henrique Teixeira Lott colocou as tropas nas ruas da capital, destituindo Carlos Luz e aprisionando os golpistas. Foi o golpe militar "preventivo" de Lott que garantiu no ano seguinte, em 1956, a posse de Juscelino Kubitschek como presidente legalmente eleito e João Goulart como vice (na foto acima, Juscelino, à esquerda e Jango à direita, tomam posse, tendo ao centro o presidente interino Nereu Ramos, em 1956).


Os anos JK (1956-1961) foram marcados pelo seu conhecido Plano de Metas, que favoreceu o investimento estrangeiro e acelerou o crescimento industrial. O grande destaque ficou com a indústria automobilística que se estabeleceu na região do ABC próxima a São Paulo. Junto com a expansão industrial veio a construção de Brasília. Apesar do clima cordial entre o presidente e seu vice (na foto acima, Jango e Maria Thereza participam, de forma discreta, de um baile de carnaval em 1956) no final do período Juscelino as consequências do acelerado crescimento econômico começaram a aparecer: inflação e aumento da dívida externa. JK ainda sofria com os ataques da oposição capitaneada novamente por Carlos Lacerda e por militares, sobretudo da Aeronaútica e da Marinha, que eram hostis à política de tolerância com os comunistas, que apoiaram a eleição de JK. A compra do porta-aviões Minas Gerais foi parte de uma tentativa de Juscelino de apaziguar as Forças Armadas, que também criticavam o vice João Goulart e sua aproximação com os sindicatos e a classe trabalhadora.


Na campanha eleitoral de 1960, Juscelino propôs o nome do agora marechal Henrique Teixeira Lott, que em 1955 realizou a intervenção militar que havia garantido a sua posse como presidente e novamente João Goulart como candidato a vice. Era a reedição da chapa PSD-PTB. Como a eleição para vice-presidente era separada poderia ser eleito o presidente de uma chapa e o vice da outra. E foi exatamente isso o que ocorreu. Lott foi derrotado e a vitória coube ao candidato apoiado pela UDN, o histriônico Jânio da Silva Quadros (na foto acima, segurando o símbolo de sua campanha, a vassoura). Com uma campanha apelando aos valores morais e o combate à corrupção herdada do governo JK, Jânio obteve uma votação expressiva, com 5.636.623 votos ou 48% do total. O candidato de Juscelino, o marechal Lott, obteve apenas 3.846.825 votos ou 28% do total. Mais uma vez, na eleição para a vice-presidência, João Goulart teve uma grande votação, com 4.547.010 votos. Era a vitória do voto "Jan-Jan", defendida por muitos aliados do próprio Jango, umas vez que o marechal Lott não tinha experiência política e carisma para uma eleição de grande envergadura.


Mas o estilo teatral e personalista de Jânio logo veio à tona. Usando como símbolo de seu governo a "vassourinha" que iria varrer a corrupção e a "bandalheira", Jânio criou comissões para investigar a gestão do presidente anterior e as supostas fraudes nos orgãos públicos. Em termos concretos, a grande herança do período JK foi a inflação gerada pelos gastos gigantescos, inclusive com a construção de Brasília e o aumento da dívida externa. Sem um plano claro para encaminhar essas questões, Jânio apelava para o moralismo, como proibição do uso de bíquinis e das brigas de galo. A nível externo se mostrava avançado, tentando aproximar o Brasil do bloco comunista (na foto acima, Jânio em um encontro com o líder cubano Fidel Castro em 1961), mas internamente, sua política de combate à inflação e aos gastos públicos era conservadora, retirando subsídios ao trigo e à gasolina, o que prejudicavam a classe trabalhadora.
Avesso às negociações e ao trato com os partidos no Congresso Nacional, Jânio começou a ficar isolado, perdendo inclusive o apoio do líder da UDN e governador do Estado da  Guanabara (na época separado do Rio de Janeiro) Carlos Lacerda, que o ajudou a se eleger. Na televisão, Lacerda acusou Jânio de estar tramando um golpe de Estado para poder governar com plenos poderes. Num gesto inesperado, na manhã do dia 25 de janeiro de 1961, Jânio deixou um bilhetinho no qual anunciava a sua renúncia ao cargo de presidente da República.



Antes de deixar o governo, Jânio pediu ao seu vice, João Goulart, que chefiasse uma comitiva que deveria visitar a China comunista e se encontrar com o líder Mao Tsé-Tung. Para muitos historiadores e analistas, o convite seria uma armadilha preparada por Jânio para afastar do país o vice e evitar que este assumisse de imediato a presidência (na imagem acima, Jango ao lado do primeiro-ministro chinês Chu En-Lai). Jânio esperava uma reação ao seu pedido de renúncia, que as multidões saíssem às ruas pedindo o seu retorno e que as Forças Armadas em peso também fizessem o mesmo. Nenhuma coisa e nem outra ocorreu.
Contudo, se os militares não pediram a volta de Jânio, também não queriam que João Goulart assumisse. Muito embora fosse portador de um programa de reformas sociais, o vice era identificado com tudo aquilo que dizia respeito à subversão esquerdista e comunista. Ao ser perguntado o que ocorreria se Jango desembarcasse no Brasil para assumir a presidência, o ministro da Guerra, general Odílio Denys, foi categórico: "Será preso!"
O impasse estava criado com uma clara ameaça de desrespeito frontal à Constituição da República...
Para saber mais:
João Goulart: Uma Biografia  escrito por Jorge Ferreira. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2011. 
Crédito das Imagens:
Fotos de Jango em 1962, com Getúlio em 1950, no enterro de Vargas, Maria Thereza de perfil e Jânio com Fidel: Coleção Nosso Século, editora Abril, 1980.
Jango em sua fazenda: Revista Fatos e Fotos de 9.9.1961.
Jango no carnaval de 1956: Revista Manchete de 3.3.1956. 
Jango candidato a deputado e no velório de Getúlio: livro de Jorge Ferreira.
Jango com Chu En-Lai: imagem do documentário "Jango" de Silvio Tendler. 
Jânio com a vassoura: historiaporimagem.blogspot.com