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sábado, 27 de outubro de 2012

Anúncio Antigo 24: as eleições de 1982


 


No Anúncio Antigo de hoje vamos lembrar as eleições para governador de São Paulo de 1982. O país vivia os derradeiros suspiros da Ditadura Militar comandada por seu último general, João Baptista Figueiredo. A abertura transcorria como prevista pelo ex-presidente Ernesto Geisel e por seu braço direito, o general Golbery do Couto e Silva: "lenta, gradual e segura". E ponha lenta nisso. As primeiras eleições diretas para presidente vieram apenas em 1989, sendo que a Ditadura havia terminado em 1985. Em um período de 10 anos vieram o fim da censura; do AI-5 (Ato Institucional que permitia a cassação de parlamentares pelo presidente, entre outras coisas); a anistia aos presos políticos, mas sem punições aos criminosos e torturadores; a reforma partidária que pôs fim ao bipartidarismo (e que fez surgir muitos dos partidos que ainda estão por aí, entre eles o PMDB, o PT, o PTB e o PDT) e finalmente a eleição direta, mas em um primeiro momento apenas para governador de Estado. Eleição para as prefeituras das capitais veio somente em 1985.
A reforma partidária em 1979 foi uma tentativa de perpetuar ainda mais a Ditadura Militar, pois manteve o partido do governo, chamado de PDS (Partido Democrático Social, que na verdade era a antiga ARENA) e que na prática desmembrou o antigo MDB (Movimento Democrático Brasileiro) para que surgissem os demais partidos de oposição. A eleição de São Paulo foi importante para testar esses novos partidos e se a estratégia de manter o partido do governo forte funcionaria. Era também a oportunidade para a oposição do antigo MDB, que foi capitaneado pelo deputado federal Ulysses Guimarães, de obter o controle do Estado politicamente mais importante da federação.


Em São Paulo, os candidatos mais fortes eram Franco Montoro pelo PMDB e Reynaldo de Barros (imagem acima, na década de 1990, quando foi secretário de Maluf na Prefeitura de São Paulo) pelo PDS. Os demais teriam poucas chances, entre eles, Luis Ignácio "Lula" da Silva pelo PT, o ex-presidente Jânio Quadros pelo PTB (Jânio fazia o seu retôrno à vida política após o afastamento imposto pela Ditadura) e Rogê Ferreira pelo PDT. A eleição ainda incluia a escolha de deputados federais e o destaque, no caso de São Paulo, foi o ex-governador Paulo Maluf, com o seu número muito fácil de guardar: 111. Lula e o Partido dos Trabalhadores passaram pela primeira grande experiência nas urnas e os candidatos da legenda, em grande parte, vieram dos sindicatos e das lideranças trabalhistas. O partido fazia jus ao nome. O bordão da campanha era: "Trabalhador vota em trabalhador, Lula para governador". Em sua primeira experiência eleitoral, Lula obteve o quarto lugar. Naquele momento havia muita resistência por parte do eleitorado conservador ao discurso radical do PT e a candidatos oriundos da classe operária.
A grande expectativa que existia era com relação à sucessão do general Figueiredo e como esta seria encaminhada. Seria a reta final da abertura ou o prolongamento da Ditadura por meio de um candidato civil apoiado pelos militares e eleito pelo Colégio Eleitoral (Congresso e delegados estaduais que na época elegiam, por via indireta, o presidente)? Neste último caso, um nome já estava sendo colocado, o do ex-governador de São Paulo, Paulo Salim Maluf. Bem, o que veio depois já virou história. A emenda do deputado federal Dante de Oliveira que previa as eleições diretas foi rejeitada pelo Congresso em 1984 e a eleição acabaria sendo indireta com a vitória de Tancredo Neves do PMDB sobre Paulo Mafuf (que não conseguiu unir todo o PDS em torno de seu nome e gerou dissidências que possibilitaram a eleição de Tancredo).
O destaque da eleição para governador daquele distante ano de 1982 (há exatos trinta anos) foi a vitória oposicionista nos Estados mais importantes. Em São Paulo, Franco Montoro derrotou Reynaldo de Barros, em Minas Gerais venceu Tancredo Neves, no Paraná a vitória foi de José Richa e no Rio de Janeiro... Bem, no Rio existe até hoje uma história mal contada das apurações que teriam sido manipuladas, com o apoio da TV Globo, para impedir a eleição de Leonel Brizola do PDT. Ao final da contagem, a sua vitória acabou sendo confirmada.
Embora tenha obtido 59% dos votos em todo o país, a oposição (que agora contava com o PT, PTB, PDT, além do PMDB) não conseguiu a maioria no Congresso Nacional (considerando Câmara e Senado juntas) e no Colégio Eleitoral que deveria escolher o novo presidente em 1985. A Ditadura Militar entrava em uma agonia prolongada.



De qualquer forma, a oposição capitaneada pelo PMDB obteve uma importante vitória em São Paulo. Esse partido era ainda formado pelo chamado "MDB histórico", com Ulysses Guimarães, Montoro, Tancredo Neves, Freitas Nobre, Orestes Quércia e que representava a esperança de reverter os descaminhos dos governos ditatoriais. Montoro (na imagem acima, quando era governador) recebeu um Estado cheio de dificuldades em função da gestão malufista, que o antecedeu e teve que passar boa parte do governo colocando as finanças em ordem. Além disso, o país se encontrava em recessão e com os problemas decorrentes da dívida externa, o que reduziram as possibilidades de novos investimentos. Além, é claro, da inflação. Montoro dizia ter feito um governo de "pequenas obras" e não as "obras faraônicas" e dispendiosas de seu antecessor. Aliás dois antecessores, Maluf (que deixou o Governo para concorrer a deputado) e José Maria Marin, que era o vice de Maluf e terminou o seu mandato (ele mesmo, que agora é presidente da CBF). Montoro pagou um alto preço por isso, mas o PMDB conseguiu eleger o sucessor, Orestes Quércia. Aliás, foi a eleição seguinte para governador, em 1986, que gerou a dissidência dos históricos do PMDB com Quércia, que se assenhoreou do partido. A dissidência formou depois o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira). O "PMDB histórico", como o próprio termo indica, ficou na história...
O Anúncio Antigo de hoje foi publicado no jornal "O Estado de São Paulo" de 12.11.1982.
Crédito das imagens: Revista Veja (Reynaldo de Barros) e Wikipédia (Franco Montoro).






quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A mostra "Elvis Experience"





Para todos aqueles que de uma forma ou outra se interessam pelas raízes do rock'n'roll, a exposição "Elvis Experience" em cartaz no Shopping Eldorado na capital paulista é um bom momento para ver de perto algumas relíquias relacionadas a esse gênero musical e ao seu primeiro grande astro: Elvis Presley (1935-1977). Da sua origem pobre na cidade de Tupelo, no Estado do Mississipi, até a fama e riqueza conquistadas através de sua carreira artística, a mostra totaliza em torno de 500 peças originais provenientes da mansão do cantor em Graceland, atualmente um museu. Por iniciativa de sua viúva, Priscila Presley, o Brasil foi escolhido para sediar a primeira grande exposição relativa ao cantor fora dos Estados Unidos, muito em função da enorme quantidade de fãs que o artista tem por aqui.



A mostra obedece a uma ordem cronológica, começando com a infância do cantor (na foto acima, Elvis entre os seus pais, Gladys e Vernon). Dessa fase, podem ser vistos os seus boletins escolares originais, como também uma ficha para emprego onde um Elvis já adolescente manifesta o desejo de trabalhar com o público. A influência da cultura afro-americana e da "black music" foi muito forte na formação do cantor, sobretudo depois que a família Presley transferiu-se para Memphis, no Estado do Tennessee, em 1948. Nesta cidade, Elvis passou a ter contato com o blues, a música gospel, o country, o rhythm and blues que vieram a influenciar o nascimento do rock'n'roll propriamente dito. Pelo rádio, Elvis ouvia o jovem B. B. King, Muddy Waters, Charles Brown entre outros artistas negros. Ao mesmo tempo, passou a frequentar o reduto da música negra, na famosa Beale Street de Memphis. Vale lembrar que essa região do meio-oeste americano era o centro da resistência contra a discriminação racial nos Estados Unidos (o pastor e líder negro Martin Luther King foi assassinado nessa cidade em 1968).
A família de Elvis passou por muitas dificuldades na década de 1940, incluindo a prisão de Vernon Presley por oito meses, após ter falsificado um cheque. A mudança de Estado e de cidade teve relação com a procura por trabalho e a oportunidade de receber ajuda do governo para conseguir moradia. Sim, parte da sociedade americana ainda dependia da estrutura de apoio social criada pelo New Deal do governo Roosevelt, como por exemplo, a Lei Nacional de Habitação de 1934, que permitiu a construção de casas populares geridas pelos municípios.




O início da carreira de Elvis ocorreu na minúscula gravadora Sun Records, cuja fachada localizada na Union Avenue em Memphis foi reconstituída para a exposição. Sam Phillips, proprietário dessa gravadora, teria dito que ficaria milionário se encontrasse um branco que cantasse como um negro. Justamente nesse momento, em 1954, Elvis Presley apareceu na gravadora para fazer testes e sob a orientação de Phillips estava moldado o primeiro grande astro do rock. O sucesso definitivo veio pelas mãos do polêmico empresário "Coronel" Tom Parker, que soube levar Elvis para a fama, mas também transformou-o em uma máquina de ganhar dinheiro. O escritório do empresário foi reconstituído dentro da mostra, com a mesa, a cadeira e vários objetos originais, inclusive com as miniaturas do cão Nipper, símbolo da gravadora RCA Victor (imagem acima).
A televisão projetou a imagem de Elvis em todo o território americano e pode-se dizer que ele se tornou o primeiro grande astro desse novo veículo de comunicação, que ganhava popularidade na década de 1950. Elvis apareceu nos programas mais importantes da TV americana da época, como o Steve Allen Show, o programa de Milton Berle, o show dos irmãos Dorsey e finalmente, o conhecido Ed Sullivan  Show. Este último exigiu que a imagem do cantor fosse mostrada apenas da cintura para cima, para que o seu rebolado não parecesse tão sensual ao público mais tradicional.
1956 é apontado como o "ano de ouro" da carreira do cantor. No início desse ano, pelas mãos do Coronel Parker, Elvis deixou a pequena gravadora Sun para assinar com a RCA Victor, a qual permaneceu ligado até o final de sua vida. Os seus primeiros discos feitos na Sun Records foram adquiridos pela nova gravadora e também podem ser vistos na mostra. Nesse mesmo ano, Elvis iniciava também a sua carreira no cinema com "Ama-me com Ternura", um faroeste que trazia a canção título como destaque, "Love Me Tender". O cartaz original do filme e de todos os que Elvis fez podem ser vistos na sala especialmente dedicada aos seus anos em Hollywood.



Contudo, no auge de sua popularidade em 1957, Elvis é convocado para o serviço militar. Muitos estudiosos viram isso como uma forma de enquadrar o cantor dentro dos valores morais da sociedade americana e conter um pouco o seu aspecto rebelde e libertário. Na verdade, Elvis não era tão rebelde como parecia ser, apegado à família e de certa forma inseguro, o que levou-o a depender demais dos conselhos do Coronel Parker. Um espaço da exposição é dedicado ao período militar, com os seus uniformes (imagem acima), botas e capacetes. 
A década de 1960, logo após o Exército, trouxe um Elvis mais contido, com um repertório musical voltado para as baladas e canções românticas, o que não significa que não tivesse qualidade. Por outro lado, a sua carreira cinematográfica deixou a desejar. Os seus filmes não tiveram maior significado a não ser pela sua própria presença. Os roteiros eram repetitivos, cantar e correr atrás das garotas. Elvis tinha plena consciência disso, tanto que no final da década colocou um ponto final na sua experiência como ator. 



Na sala dedicada aos seus filmes podemos observar que os dois últimos, "Elvis é Assim"(1970) e "Elvis Triunfal" (1972), foram documentários de seus shows. Na imagem acima, vemos um dos destaques da mostra, o macacão branco que aparece no filme "Elvis é Assim" e que se tornaria a marca registrada do cantor no seu retorno aos espetáculos a partir de 1969.





De fato, a volta de Elvis aos palcos ocorreu em 1968 no "Elvis Comeback Especial" pela rede de TV NBC. Foi quase uma década longe das apresentações ao vivo. Este especial foi o momento mais importante de Elvis na televisão, revivendo os antigos sucessos de sua carreira e mostrando energia para um recomeço. O final desse show é mostrado em um telão onde ele interpreta "If I Can Dream", canção que encerra o programa. Na sala seguinte está o famoso terno branco usado nesse mesmo especial (imagens acima, mostrando o final do especial e o terno usado no programa). 



Em seguida vêm a parte mais importante da exposição com as peças originárias da mansão do cantor e as roupas utilizadas por Elvis em vários momentos de sua carreira. No primeiro item vieram alguns exemplares de sua coleção motorizada, como as motos e dois automóveis, uma Ferrari Dino e um MG conversível (imagem acima) usado no filme "Feitiço Havaiano" (1961).








Mas, não há dúvida de que a parte mais interessante é a referente ao vestuário do cantor, principalmente os macacões ou "jumpsuits", onde o destaque maior é o que foi utilizado no especial "Aloha from Hawai" de 1973 e conhecido como "Eagle", por ter a estampa da águia americana (imagens acima). Esse show foi o primeiro a ser transmitido ao vivo, via satélite, para vários países. Foi o último grande momento de Elvis. A partir dessa época, a carreira do cantor entrou em um declínio irreversível.



Os críticos afirmam que a década de 1970 foi a pior fase de Elvis, quando ele recorreu a um repertório musical mais popular e distante do "hard rock" do início de sua carreira. Mas, a mostra "Elvis Experience" traz mais referências dessa época, que têm também os seus fãs, com os exageros do cantor e as roupas exuberantes, no melhor estilo Las Vegas. Em 1969, Elvis formou uma banda que o acompanhou até a sua morte. Vários desses músicos, entre os quais o guitarrista James Burton, o baterista Ronnie Tutt, o pianista Glen Hardin e o maestro Joe Guercio se apresentam neste mês de outubro no Brasil, no espetáculo "Elvis in Concert".  
Na década de 1970, Elvis já não estava mais no topo das grandes estrelas do rock e era visto como brega ou ultrapassado. Além disso, já estava mais gordinho. Mas teve também os seus bons momentos, como o já citado show no Havaí e a única apresentação feita por Elvis em Nova Iorque, no Madison Square Garden em 1972 (na imagem acima, o paletó e a camisa usada pelo cantor, na entrevista coletiva que antecedeu a esse show). 




Um exemplo do ritmo intenso de trabalho de Elvis nessa década é o contrato feito em uma toalha do International Hotel de Las Vegas pelo Coronel Parker em 30.07.1969. O empresário de Elvis exigiu que a extensão para mais duas temporadas fosse assinado na própria toalha, na falta de papel (imagem acima).
Os abusos alimentares e o uso indiscriminado de remédios contribuíram para o excesso de peso, sobretudo nos seus últimos dois anos de vida (o cantor faleceu em 1977). Poucas informações sobre os últimos momentos de Elvis podem ser vistas na exposição, exceto uma sala onde estão colocadas as manchetes dos jornais que anunciaram a sua morte e um curioso videotape do Jornal Nacional do dia 16 de agosto daquele ano, onde o apresentador Cid Moreira apresenta a notícia sobre o óbito do cantor.




As imagens e fotos que ilustram o "Elvis Experience" mostram o cantor em pleno vigor físico e magro. Contudo, dois meses antes de ser encontrado morto no banheiro de sua mansão, Elvis já estava completamente fora de forma e mostrando sinais do declínio de sua saúde (como mostra a imagem acima do fotógrafo Peter Gould, tirada pouco antes da morte do cantor). As imagens de Elvis Presley no final de sua vida estão sendo depuradas ou mesmo escondidas do grande público. Contudo, para os que escrevem e comentam a respeito do primeiro grande ídolo do rock é importante lembrar que a máquina de fazer dinheiro o consumiu no final de sua vida. 



Elvis trabalhava muito, fez centenas de shows na década de 1970, às vezes dois no mesmo dia. Por outro lado, ele não foi o único a ser tragado pelo ritmo estressante de viagens e turnês. O mundo do rock está repleto de exemplos semelhantes. Como destacou o grande Eric Hobsbawn, um dos papéis do historiador é o de lembrar aquilo que os outros indivíduos querem esquecer.




Neste caso, lembramos que a vida do rei do Rock não era tão dourada quanto os objetos que estão na mostra (na imagem acima, o disco de ouro referente ao programa "Elvis Comeback Especial" de 1968, que alcançou um milhão de cópias vendidas).
Outro aspecto da vida do cantor era o grande número de auxiliares, funcionários e guarda-costas que o cercavam. Era a conhecida "máfia de Memphis", verdadeiros parasitas que giravam em torno de Elvis, que teve a fama de ser uma pessoa muito generosa com os amigos. Elvis chegou a dar aos mesmos presentes caros como automóveis e até casas. Na mostra pode ser observada uma enorme quantidade de cheques que eram doações para instituições de caridade e obras assistenciais. A arrecadação de seu famoso show no Havaí em janeiro de 1973 foi toda revertida para uma organização que promovia o combate ao câncer.
O seu último show, gravado para a rede de televisão norte-americana ABC, pouco antes de sua morte, é uma imagem lamentável de seus últimos momentos. A própria família e os seus herdeiros ainda relutam em lançar esse especial no mercado de vídeo, tal era o seu estado físico, inclusive chegando a esquecer as letras das músicas. Mas o seu talento vocal ainda podia ser apreciado.
Algumas observações cabem à mostra. As salas não estão providas de revestimento acústico para impedir a interferência das músicas dos demais ambientes. Por exemplo, no telão que mostra o final do show de 1968 é possível ouvir ruídos das músicas das outras partes da exposição. No final  da mostra está a loja de lembranças do cantor, com camisetas, bonés, canecas, copos, chaveiros e um grande número de objetos com referências ao astro. Muitos vão imaginar o predomínio do mau gosto. Não, não é o caso. Por exemplo, bonés e camisetas com a estampa do selo do seu primeiro disco na gravadora Sun Records são discretos e bonitos. O único inconveniente é o preço absurdamente alto dessas recordações. Nada abaixo de 40 reais. Portanto, quem quiser alguma lembrança vá com o bolso (ou o cartão) preparado...
Para ver:
PERÍODO: 05/09/2012 (quarta-feira) a 05/11/2012 (segunda-feira)
LOCAL: Shopping Eldorado (estacionamento descoberto)
ENDEREÇO: AV. Rebouças, 3.970 – Pinheiros. São Paulo (SP).
HORÁR
IO: De segunda a segunda, das 10h às 22h.
Classificação Etária: Livre
VENDAS: http://www.ingressorapido.com.br/BuscaPrincipal.aspx?pesq=elvis
INFORMAÇÕES: 4003-1212

Para saber mais:
DANCHIN, Sebastian. Elvis Presley e a revolução do rock. Rio de Janeiro, Editora Agir, 2010. 
Crédito das Imagens: Fotos de Elvis nos shows: Guia do visitante do Elvis Experience. Foto de Elvis feita por Peter Gould: Getty Images 1970s. Köneman, 2004, p. 218. Demais fotos: acervo do autor.



domingo, 7 de outubro de 2012

Hebe Camargo e os Anos de Chumbo




Não há como negar a importância que teve a apresentadora Hebe Camargo para o cenário artístico. Sua trajetória se confunde com a própria história da televisão brasileira inaugurada em 1950. Hebe esteve presente no porto de Santos quando os equipamentos importados pelo jornalista Assis Chateaubriand chegaram ao Brasil para a inauguração da TV Tupi naquele mesmo ano. 
Por outro lado, também não há como negar que o seu público apresentava um nítido traço conservador característico da classe média urbana, sobretudo a paulistana, da qual ela representava uma espécie de modelo a ser seguido. Hebe acompanhou o crescimento desse segmento social com a acelerada urbanização da década de 1950 em diante. Apesar de suas origens humildes, ela encarnou esse papel de ícone das donas de casa por mais de cinquenta anos, principalmente nos seus programas de entrevistas, cujo padrão foi moldado nos tempos da TV Record na década de 1960. Seu programa noturno era líder de audiência e marcou o auge da emissora comandada por Paulo Machado de Carvalho. Os especiais dos quais participou também marcaram época, principalmente os humorísticos, como a atração "Romeu e Julieta" ao lado do comediante Ronald Golias.
Hebe se comunicava de forma simples e direta com o seu público. As suas atrações eram puro entretenimento, sem grandes reflexões ou críticas. Por isso, não teve nenhum problema com os generais que davam plantão em Brasília nos tempos da ditadura, muito pelo contrário. 
Para os que a criticavam por não ter diploma escolar, ela exibia em sua casa o "Diploma homenagem a Hebe Camargo, pela colaboração prestada na divulgação do primeiro aniversário do Governo do Presidente Costa e Silva". O mesmo contava ainda com a assinatura de três ministros.
A frivolidade e superficialidade de suas falas eram alvo de duras críticas por parte de intelectuais e críticos da alienação política promovida pela televisão. Em 1969, quando perguntada a respeito do presidente militar Arthur da Costa e Silva (1967-1969) afirmou gostar do mesmo:
- Você viu, ele chorou no dia da posse. Homem que tem capacidade de chorar é porque é bom, não tem veneno na alma, pode compreender o problema dos outros. Que pena que ele esteja doentinho...
Contudo, em 1969, o seu programa apresentava alguns sinais de desgaste agravados pela censura da própria Ditadura Militar, a existência de entrevistas impostas e os desencontros da equipe de produção. O Brasil já vivia as  consequências do Ato Institucional número 5 que limitava a liberdade de expressão. A própria emissora entrava em um período de declínio após três incêndios seguidos que destruíram os seus auditórios.
Em uma quase entrevista dada ao renomado jornalista José Hamilton Ribeiro para a revista Realidade de novembro de 1969, ela demonstrava muita tristeza com relação às críticas que lhe eram feitas e muito sentida quando lembravam de sua pouca escolaridade. Segundo Hamilton, ela simplesmente chorava ao ler ou ouvir tais comentários, algo que, na visão do citado jornalista refletia uma insegurança por parte da apresentadora. Hebe achava que não tinha uma boa bagagem cultural para ser uma artista, mesmo quando comparada com apresentadores que também estudaram pouco, como Chacrinha e Silvio Santos. Nessa mesma época, um rapaz em São Paulo chegou a anotar os erros que a apresentadora cometia em suas entrevistas, como o de perguntar o número de integrantes de um sexteto, a idade de um irmão gêmeo sabendo qual era a do outro e prometer que levaria o teatrólogo Ibsen ao seu programa para comentar as suas peças. Por outro lado, há sessenta anos quando a televisão começou ninguém era especializado em comunicação através de curso superior e para os que trabalhavam, seja na frente ou atrás das câmeras, tudo era aprendizado. Com Hebe não foi diferente. 
O programa de Hebe Camargo que era exibido na TV Record a partir de 1966 foi por mais de três anos o mais importante da televisão brasileira. A lista de pessoas que aguardavam para serem entrevistadas em seu programa no final de 1969 tinha mais de 2.200 nomes. Em torno de 8 mil entrevistas foram recusadas pela produção e muitos tentavam obter uma participação no programa oferecendo altas quantias. Foram três anos e meio no ar sem férias e sem nenhuma falta. Hebe era uma grande profissional com relação aos seus compromissos. 
José Hamilton Fernandes foi correspondente na Guerra do Vietnã e em 1968 teve parte da perna decepada após ser atingido pela explosão de uma mina. Recuperado, foi convidado para o programa de Hebe para dar uma entrevista. Tinha receio do estilo da apresentadora e de que esta se referisse a ele como "gracinha", marca registrada de Hebe (os famosos "selinhos" apareceram mais tarde em seus tempos de SBT). Hamilton chegou a ser aconselhado a não participar do programa pois nos meios jornalísticos Hebe era vista como uma entrevistadora sem cultura. Contudo, o jornalista notou a forma e a desenvoltura como a apresentadora conduzia a entrevista dirigindo-se a ele como se já o conhecesse há muito tempo. A entrevista transcorreu bem e teve grande repercussão. A grande ironia é que coube a ele depois fazer uma reportagem com a própria Hebe, agora pela revista Realidade. Aliás, uma revista que marcou época no jornalismo brasileiro pela qualidade do texto e pela abordagem crítica dos temas, isso em plena censura da Ditadura Militar. 



Hebe Maria Camargo nasceu em 1929 na cidade de Taubaté em uma família de nove filhos, sendo que as duas primeiras filhas morreram antes de completar dois anos. O pai de Hebe, Fêgo Camargo (na imagem acima, ao lado de Dona Ester, mãe de Hebe, em foto de 1969) ganhava a vida como violinista e tocava no cinema durante a exibição dos filmes, que na década de 1920 eram mudos e acompanhados com fundo musical ao vivo. Quando Hebe nasceu, os filmes sonoros já estavam chegando às salas de cinema e o "Seu Fêgo" perdeu o trabalho.
Contudo, em 1932, São Paulo se levantava contra o Governo Provisório de Getúlio Vargas na Revolução Constitucionalista e o pai de Hebe foi incorporado ao Exército de São Paulo como músico da banda militar. Talvez o passado de seu pai como ex-combatente de 1932 tenha contribuído para as suas futuras posições conservadoras no cenário político paulista, como o notório apoio dado por Hebe ao político Paulo Maluf durante muitos anos.
Com doze anos, Hebe trabalhava como arrumadeira e começava a frequentar programas de calouros imitando Carmem Miranda. Em seguida, seguindo o estilo do trio vocal norte-americano "The Andrews Sisters", Hebe formou com a sua irmã Stela e as primas Helena e Maria o "Quarteto Dó-Ré-Mi-Fá" (Hebe era o "Ré"). Depois do fim do quarteto, Hebe ainda chegou a formar uma dupla caipira com a irmã Stela: Rosalinda e Florisbela.
Mais tarde já atuando como cantora, lhe sugeriram um outro nome artístico que soasse melhor ao público: Magali Pôrto. Hebe não aceitou a ideia. Na década de 1950 existia uma superstição de que o nome dos artistas que faziam sucesso tinham cinco sílabas, como por exemplo, Car-mem Mi-ran-da, Or-lan-do Sil-va ou Fran-cis-co Al-ves. Bem, Hebe Camargo continuava tendo cinco sílabas. 



Em 1945 seguiu carreira solo e no ano seguinte lançou o seu primeiro disco. Em 1949 chegou a atuar no cinema e em alguns filmes do conhecido comediante Mazzaropi. No início da década de 1950 iniciou a carreira de apresentadora na Rádio Nacional e depois na antiga TV Paulista. Nesta última emissora apresentou o programa "O Mundo é das Mulheres" por nove anos (imagem acima). Em 1957, Hebe tingiu os cabelos de loiro pela primeira vez, o que acabou se tornando a sua marca registrada. 



Apesar de apresentar o programa também no Rio de Janeiro, sua carreira de apresentadora firmou-se mesmo em São Paulo, onde recebeu o título de "A Madrinha da TV" em 1960. Em 1964 deixou temporariamente a televisão para casar e ser mãe (na foto acima, seu filho Marcelo).
A fama de namoradeira já acompanhava Hebe nos tempos de cantora. Nessa época ela fazia uso de um colar de argolas que enfeitava o decote de seu busto, o que dava margem a comentários do tipo: "Você desmancha os noivados, mas mantém as alianças junto ao peito, hem?" Dizia-se que Hebe era a mulher mais cortejada do mundo artístico nos anos de 1950. 
Hebe teve muitos amores, chegando a ser noiva três vezes, inclusive com um membro do clã Matarazzo. Este último caso teria durado dois anos e após a separação, Hebe devolveu todos os presentes que ganhou como namorada e noiva. Uma amiga da apresentadora teria dito que se ela tivesse ficado somente com as jóias não precisaria trabalhar mais. Contudo, teve também suas desilusões amorosas, uma das quais com um famoso animador de auditório por quem se apaixonara. Contudo, ao comparecer a um de seus programas para prestigiar o seu grande amor, notou que este usava uma aliança e que a sua batalha amorosa estava perdida. A matéria da revista Realidade de 1969 que menciona esse acontecimento não identifica o tal apresentador. 



Apesar das tantas paixões, Hebe só veio a se casar aos 35 anos com o empresário Décio Capuano de quem teve seu único filho, Marcelo (na imagem acima, a família reunida na casa de Hebe no bairro do Sumaré em São Paulo, no ano 1969). O primeiro casamento durou até 1971. Em 1974, Hebe casou-se com  Lélio Ravagnani.



Após o nascimento do filho, Hebe retorna à televisão em 1966 pela TV Record para o seu "Hebe aos Domingos". Foi com este programa que a Hebe apresentadora se consolidou de vez. A atração chegou a alcançar a maioria absoluta da audiência e ficou no ar até o início da década seguinte (na foto acima, Hebe no auge de sua fase na TV Record em 1967). Hebe ainda teve passagens pela TV Tupi, TV Bandeirantes e a partir de 1986 no SBT. Em todos esses anos o seu público se manteve fiel e continuaria com ela até os seus momentos derradeiros. Nunca mudou o seu estilo, declarando sempre estar preocupada em ajudar pessoas, dar entretenimento, diversão, alegria e otimismo.
- Diante das pessoas, eu não me sinto como entrevistadora; eu as admiro, eu vibro com elas, eu fico gostando e digo isso diretamente, sem reservas e sem receio de parecer ridícula.




Um fato curioso envolveu indiretamente a apresentadora no ano de 1968 relacionado com a oposição armada à Ditadura Militar. O assassinato de um oficial do Exército norte-americano que era vizinho de Hebe Camargo em São Paulo, o capitão Charles Rodney Chandler. Veterano da Guerra do Vietnã e estudante de Sociologia, foi identificado pelos grupos armados de esquerda como agente da CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA) e visto como colaborador da ditadura no combate aos comunistas. A governanta da casa de Hebe (na foto acima, a residência da apresentadora no bairro do Sumaré na capital paulista) já havia notado uma movimentação estranha diante da casa e na manhã do dia 12.10.1968 quando pegou o telefone para acionar a polícia ouviu uma rajada de tiros. Chandler fora metralhado quando saia de casa em seu automóvel.



O livro que carregava quando morreu não deixa dúvidas de que pelo menos era um anti-comunista (na imagem acima, o militar norte-americano baleado e o livro com o título "Origem da Autocracia Comunista"). 
Bem, era o tumultuado ano de 1968 e o início da dura repressão da Ditadura aos grupos armados. Mas a "rainha da TV" vivia o seu grande momento ao lado de outros nomes, como Sílvio Santos, Chacrinha e Flavio Cavalcante. Até que ponto tais programas alienavam de fato a população fica para o caro leitor pensar...
Fontes consultadas: Boa parte do conteúdo deste post foi extraído da Revista Realidade, Editora Abril, n. 44, novembro de 1969, pags. 68 a 78.
Gaspari, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo, Cia. das Letras, 2002.
Rixa. Almanaque da TV: 50 anos de memória e informação. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2000. 
Crédito das imagens: as fotos coloridas são de David Drew Zingg para a Revista Realidade. Hebe em 1967 do jornal "Última Hora". Hebe no programa "O Mundo é das Mulheres" da coleção Nosso Século 1960/1980, editora Abril, 1980. A foto do capitão Rodney Chandler do livro A Ditadura Envergonhada. 





quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Os soldados de Esparta




Na Antiga Grécia a cidade de Esparta revestiu-se de características próprias. Enquanto a sua rival Atenas destacou-se como um grande centro econômico, político (onde surgiu a antiga democracia) e cultural, Esparta ficou mais conhecida pelos seus guerreiros (como na imagem acima, de uma escultura espartana feita em bronze de cerca de 500 a.C.) sempre prontos para o combate. E claro, se fosse preciso, morrer no campo de batalha para defender a sua cidade. O mais incrível é que estamos falando do mesmo povo grego e da mesma cultura, porém separados ao nível da organização política e econômica em cidades autônomas e independentes, as "póleis".
Contudo, a trajetória histórica de Esparta nos esclarece a tendência dos seus cidadãos para a guerra. A tribo que deu origem à mesma, os dórios, tinha uma tradição guerreira, sendo inclusive responsável pela introdução do uso do ferro entre os gregos. Foi pela força das armas que se instalaram no Peloponeso (região mais ao sul da península grega) e destruíram as antigas cidades locais, como Argos, Tirinto e principalmente, Micenas. Foi também pela força que dominaram os nativos da região do Peloponeso, os messênios, muitos dos quais foram escravizados. Portanto, pela forma violenta como chegaram, motivos não faltavam para os espartanos estarem sempre prontos para enfrentar uma guerra, uma rebelião ou uma revolta dos escravos. Aliás, estes últimos eram chamados de hilotas, uma antiga referência à cidade de Helos, destruída pelos dórios. 
A tradição da cidade atribuiu a um legislador lendário chamado Licurgo a criação das leis e a organização social de Esparta. Teria sido esse mesmo personagem que estruturou a educação do cidadão espartano, voltada principalmente para a atividade militar. Certa vez, quando questionado do motivo de Esparta não ter muralhas como outras cidades gregas, Licurgo respondeu: "Uma cidade não está desprotegida quando suas muralhas são feitas de homens e não de pedras". Esse mesmo legislador tornou os espartanos iguais ("homoioi" em grego) ao realizar uma redistribuição das terras e dos escravos (que na prática eram servos do Estado). A acumulação de riquezas foi suprimida por meio da instituição da moeda de ferro no lugar das que eram feitas de ouro e prata. O tempo livre dos espartanos seria ocupado na atividade de defesa da cidade e na preparação militar, que tinha início aos sete anos de idade.


De acordo com o antigo historiador grego Plutarco (46 d.C. - 120 d.C.), desde o nascimento os espartanos selecionavam os seus futuros soldados, rejeitando os bebês que nascessem com defeito. Os mais velhos se incumbiam da tarefa de eliminá-los, atirando os mesmos do alto do monte Taigeto. Os garotos aptos eram separados de suas famílias para viverem em uma espécie de acampamento militar, onde eram preparados para todo tipo de situação que ocorresse em um campo de batalha. Abandonados por um tempo na mata, eram obrigados a obter, por esforço próprio, a sua sobrevivência a partir dos recursos da natureza (na imagem acima, mata natural próxima à antiga Esparta). Os meninos eram estimulados inclusive a roubar se isso fosse necessário para saciar a fome. Plutarco narra um episódio em que um garoto teria roubado uma raposa e para que ninguém percebesse isso, guardou-a dentro de suas vestes. A mesma mordeu até as suas entranhas, mas o garoto não deu sequer um único grito de dor para evitar chamar a atenção dos comandantes. Quando estes perceberam o garoto já se encontrava morto e ainda com a raposa a lhe devorar. 
A disciplina era algo que todo espartano sabia respeitar ao extremo. Jamais uma ordem superior era questionada. Falar apenas o necessário (laconismo) era outra qualidade apreciada no espartano. A presença de estrangeiros não era bem vista e os espartanos pouco se deslocavam para outras partes, para não serem contaminados por idéias tidas como ruins.



As rivalidades e disputas entre os jovens eram estimuladas como forma de testá-los e prepará-los para a guerra. Aos 17 anos o soldado passava pela última prova que consistia em matar escravos ("Kriptéia"). Desse momento em diante, ele já podia ser considerado um soldado ou como denominou o historiador contemporâneo Perry Anderson, "cidadão-soldado" de Esparta (na foto acima, uma escultura de soldado espartano com armadura). O espartano permanecia nessa condição até alcançar os 60 anos, quando se retirava da atividade militar. Aos 30 anos podia constituir uma família e ter uma esposa. 
As mulheres espartanas, segundo a tradição antiga, gozavam de maior autonomia em comparação com as mulheres de outras cidades gregas, como Atenas. As espartanas praticavam esportes, exercitando-se na corrida, na luta, no lançamento do disco e do dardo, pois acreditava-se que mulheres saudáveis geravam filhos saudáveis. Até mesmo os filhos com outros homens seriam aceitos pelo espartano, desde que pudessem servir à cidade como soldados. O adultério não era imoral. Era permitido ao guerreiro que tivesse mérito e que admirasse a mulher de outro, solicitar a este que cedesse a sua esposa e que pudesse nela gerar um filho. Entre os soldados espartanos a homossexualidade também não era vista como algo abominável, até pelo contrário, fazia parte da formação do guerreiro tornar-se amante de um soldado mais velho. Bem, é isso o que nos relata Plutarco.
As Guerras Médicas, que evolveram os gregos contra os persas, se constituíram numa boa prova da coragem dos espartanos, imortalizada na batalha das Termópilas, onde 300 espartanos comandados pelo general Leônidas resistiram até a morte contra o avanço dos persas do imperador Xerxes (vivido no cinema pelo ator Rodrigo Santoro no filme "300"). Xerxes teria avisado aos espartanos que enviaria uma chuva de flechas que cobririam a luz do Sol e o dia se tornaria noite. Leônidas respondeu que podia enviar as flechas e cobrir a luz do Sol, algo que seria até bom, pois assim o combate se daria na sombra...
Na sombra ou não, os 300 espartanos lutaram até o último homem. Voltar para Esparta carregando uma derrota seria a maior desonra para o guerreiro espartano e para a família do mesmo. 



A partir do Período Clássico (século V a.C.) a tradição guerreira foi entrando em declínio e os soldados espartanos passaram a fazer parte de uma elite cada vez menor diante dos homens livres (periecos) e dos escravos (hilotas). A guerra contra Atenas (Guerra do Peloponeso) marcou o declínio dessa cidade e das demais, inclusive a própria Atenas, algo que possibilitou em seguida o domínio da Grécia pela vizinha Macedônia e a ascensão de Alexandre, o Grande. As ruínas de Esparta (na imagem acima o local da antiga cidade) são uma mostra do pouco destaque dado ao aspecto cultural e arquitetônico. "Espartano" tornou-se sinônimo de algo mais rústico e simples, sem luxos, bem ao gosto da antiga elite de guerreiros...
Para saber mais:
Plutarco. Vidas Paralelas. Editora Paumape, 1991, obra editada em 5 volumes. Nesse livro, Plutarco compara as figuras ilustres da Grécia e da Roma Antigas. No volume 1 ele estabelece um paralelo entre Licurgo e o rei de Roma Numa Pompílio (existem outras edições dessa obra). 
Crédito das imagens: As três primeiras foram extraídas da Coleção Grandes Impérios e Civilizações: Grécia. Volume I, Edições del Prado, 1996, páginas. 68 e 92. A foto das ruínas de Esparta está na História das Civilizações, volume  I, Editora Abril, 1975, página 83.